Dados da Inflação na Argentina e Crise Política
Os números da inflação na Argentina tornaram-se um tema de conflito político após a renúncia repentina, na última semana, do chefe da agência nacional de estatísticas (Indec), equivalente ao IBGE no Brasil. Essa situação lançou luz sobre as tensões que permeiam a estratégia econômica do presidente Javier Milei.
O ministro da Economia, Luis Caputo, confirmou que a saída de Marco Lavagna, chefe do Indec, decorreu de uma discórdia em relação à decisão do governo Milei de adiar uma revisão da metodologia de cálculo da inflação. Essa escolha é especialmente sensível em um país que já enfrentou escândalos relacionados à manipulação de dados anteriormente.
A Argentina já havia sido criticada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2013, quando houve a acusação de que o país subnotificava suas taxas de inflação.
Metodologia de Cálculo de Inflação
Atualmente, o Indec utiliza uma metodologia de medição da inflação baseada em uma cesta de consumo que remonta a 2004. Essa cesta inclui itens como aluguel de fitas cassete ou VHS, mas não contempla gastos com plataformas de streaming. O Indec tinha planos de reformular essa metodologia, que deveria ser aplicada aos dados a partir de janeiro deste ano.
Caputo, em declarações a uma estação de rádio local, mencionou que a visão do presidente Milei era a de não implementar a nova metodologia “até que o processo de desinflação esteja consolidado”, sem especificar um cronograma para essa atualização. Essa decisão gera incerteza quanto ao futuro da inflação no país.
Impacto da Mudança na Metodologia
Fontes do mercado informaram à Reuters que a nova fórmula de cálculo provavelmente indicaria uma taxa de inflação superior àquela efetivamente divulgada. Em outras palavras, os índices de preços poderiam ser mais desfavoráveis do que os números apresentados oficialmente pelo Indec. O Ministério da Economia da Argentina optou por não comentar sobre essa situação. É importante lembrar que Milei havia prometido reduzir a inflação mensal a menos de 1% até agosto.
Histórico de Interferência na Medição da Inflação
A credibilidade dos dados oficiais da inflação na Argentina sofreu abalos significativos durante o governo do ex-presidente peronista de esquerda, Néstor Kirchner, e sua esposa, Cristina Kirchner. Durante esse período, as autoridades foram acusadas de subestimar sistematicamente o aumento dos preços no país.
A controvérsia teve início em 2007, após a substituição da equipe do Indec, realizada por Néstor Kirchner. Nos anos subsequentes, os índices oficiais de inflação frequentemente apresentavam números inferiores a metade das estimativas feitas por economistas do setor privado. Essa discrepância significava que a Argentina pagava menos juros em títulos que eram indexados à inflação.
Esses dados distorcidos desencorajaram investidores estrangeiros e dificultaram o retorno da Argentina aos mercados de crédito internacionais, especialmente após a crise de calote de 2001.
Aldo Abram, do think tank local Fundação Liberdade e Progresso, comentou que “os investidores não apenas perderam a percepção do que acontecia na Argentina, mas também foram enganados”. No entanto, atualmente os números da inflação divulgados pelo governo parecem estar mais alinhados com as previsões de economistas independentes.
Fonte: www.moneytimes.com.br