Produtor Aumenta a Colheita para Cumprir Compromissos Financeiros

Preocupações do Itaú BBA com o Setor Agrícola

O Itaú BBA expressa preocupações em relação ao atual ciclo de preços das commodities agrícolas, com foco na soja e no milho, especialmente diante das boas perspectivas para as safras tanto no Brasil quanto no exterior. Um fator de risco identificado pelo banco de investimentos para o setor agrícola é a taxa de câmbio, visto que a valorização do real tende a pressionar ainda mais as margens dos produtores.

A análise, que foi compartilhada com o Money Times, é realizada pelo gerente Cesar de Castro Alves e pelo analista Francisco Queiroz, da Consultoria Agro do Itaú BBA. Ambos afirmam que o ambiente desafiador atual indica a possibilidade de novas recuperações judiciais no setor.

“Estamos observando uma combinação de preços mais baixos para os grãos e um custo elevado com fertilizantes, que aumentaram significativamente no ano passado. Essa situação coloca o produtor em um cenário ainda mais complexo, que já vinha de ciclos anteriores. Em muitos casos, o produtor está colhendo apenas para quitar suas contas. Esperamos mais um ciclo difícil”, explica Alves.

Segundo o analista, em certos casos, devido a obrigações financeiras e contratos de arrendamento, a margem disponível ao produtor ao final da safra é praticamente inexistente.

Comparação entre Milho e Soja

Os analistas do Itaú BBA observam que o milho apresenta um cenário menos adverso do que o da soja. Isso ocorre devido a um mercado interno mais vigoroso para o milho e uma demanda robusta, impulsionada principalmente pela indústria de etanol, que ajuda a sustentar os preços do cereal.

“Os preços do milho no Brasil aumentaram consideravelmente desde abril do ano passado, permitindo que os produtores compensassem as margens mais vulneráveis da soja. Contudo, não temos a mesma certeza de que esse movimento será mantido, pois a safra secundária foi muito boa e os estoques estão em níveis confortáveis. Os grãos, em geral, continuam a nos preocupar”, afirma Alves.

Entre os principais fatores a serem observados para os preços dos grãos, destacam-se a definição de um novo mandato de biocombustíveis nos Estados Unidos e as incertezas referentes ao comportamento da demanda chinesa pela soja norte-americana.

Cenário Desfavorável para o Algodão

O algodão também enfrenta um cenário desafiador. O setor sofre com um mercado global bem abastecido, decorrente de boas safras nos Estados Unidos, China e Brasil, além de uma demanda mundial enfraquecida, resultado de um crescimento econômico moderado.

“Esse cenário se agrava pela pressão sobre o preço do petróleo, que beneficia a competitividade das fibras sintéticas. Quando a fibra sintética ganha espaço, a substituição — embora limitada — da fibra natural ocorre”, explica Queiroz.

Café: Expectativa de Estabilidade

Apesar das dificuldades enfrentadas por soja, milho e algodão, o quadro do café é diferente. O Itaú BBA indica que, mesmo com alguma redução nas margens, não há previsão de uma queda acentuada nos preços, uma vez que o aumento de oferta esperado não será suficiente para desestabilizar o mercado.

“A curto prazo, os preços podem ceder um pouco, uma vez que já subiram demais. A expectativa é de alívio a partir de abril ou maio, com o início do próximo ciclo. Arroz e laranja também enfrentam um momento complicado”, avalia Alves.

Em relação às proteínas animais, como aves, suínos e ovos, o cenário é positivo devido à queda nos preços de soja e milho, principais insumos da ração.

“Além de uma estrutura de custos favorável, os setores de aves e suínos estão exportando de maneira satisfatória. A perspectiva é de que mais um ano de embarques consistentes e margens atrativas seja alcançado”, destaca o gerente.

Perspectivas para a Pecuária Bovina

No setor da pecuária bovina, a indústria começa a sentir os efeitos da inversão do ciclo, resultando em uma redução da oferta de animais e, consequentemente, uma expectativa de preços mais altos para a arroba.

Entretanto, ainda existem incertezas relacionadas às exportações devido às salvaguardas impostas pela China, o que gera dúvidas sobre o ritmo das vendas. Apesar disso, o Itaú BBA identifica fatores que podem ajudar a mitigar esse risco, como a previsão de menor produção interna — estimada em cerca de 200 mil toneladas abaixo do necessário até 2025 — e a possibilidade de abertura ou ampliação de mercados.

“Outros exportadores de carne bovina provavelmente não conseguirão cumprir suas cotas integralmente, e o Brasil está se esforçando para ocupar esse espaço. Também estamos considerando a possibilidade de direcionar mais carne a mercados como os Estados Unidos e Argentina”, afirma Alves.

“É difícil imaginar que o mercado do boi permaneça pressionado por um longo período apenas por essa estratégia chinesa, que pode ser temporária. Nossa avaliação é de que os preços devem subir este ano, embora não de forma explosiva. Os sinais já são perceptíveis, com o bezerro tornando-se mais caro e a oferta de bois magros escassa”, conclui.

A Situação do Agronegócio

Alves é enfático ao afirmar que o agronegócio, de maneira geral, não está em crise, uma vez que existem produtores que estão vivenciando um bom momento.

“Existem aqueles que estão enfrentando dificuldades devido a decisões equivocadas feitas anteriormente, mas há também produtores capitalizados, prontos para aproveitar a hora certa para adquirir terras”, afirma.

Na visão do Itaú BBA, o setor está sob forte tensão devido a uma combinação de produção elevada, preços baixos, custos que aumentaram nos últimos anos, valorização cambial e, principalmente, juros altos, que comprimem os resultados finais dos produtores.

“As taxas de juros elevadas afetam seriamente a margem dos produtores, comprometendo grande parte da margem Ebitda. Essa situação dificulta tanto o carregamento das commodities quanto a realização de novos investimentos e a renovação de máquinas. Acreditamos, contudo, na possibilidade de um ano positivo para as exportações. Os produtores mais prejudicados nesse ambiente são aqueles que estão mal organizados”, ressalta.

Orientações para o Produtor Rural

Os analistas da Consultoria Agro do Itaú BBA alertam que o produtor não deve confiar unicamente em uma alta de preços.

“Temos observado um ciclo em que a comercialização está atrasada, uma vez que muitos acreditam em uma recuperação que não está sendo evidenciada. Os preços caíram e podem recuar ainda mais, especialmente considerando os riscos cambiais. O cenário global indica a possibilidade de um dólar mais fraco, o que aumenta a incerteza”, adverte Alves.

Segundo ele, a tendência é de pressão adicional à medida que a colheita avança, o que reforça a importância da gestão de riscos.

“O produtor deveria ter negociado volumes maiores ao longo do tempo. Agora, aqueles que não venderam nada enfrentam duas opções complicadas: vender a soja a preços baixos no pico da safra, com prêmios pressionados, ou armazenar o produto, arcar com juros elevados até o segundo semestre. Essas são decisões difíceis em um momento em que as margens financeiras estão extremamente apertadas”, conclui.

Fonte: www.moneytimes.com.br

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