Queda no Turismo Chinês em Tóquio
Após mais de um ano vivendo em Tóquio, Karin Nordin, uma malásia de 33 anos, observou uma mudança notável. As cidades termais de Kusatsu e Zao, que costumavam estar repletas de turistas chineses, apresentaram uma queda significativa no número de visitantes.
“Notamos uma diminuição dos turistas da China continental em Tóquio”, declarou Nordin em uma entrevista à CNBC após retornar do Japão no início de 2026. Os preços das diárias em áreas turísticas aparentam ter se estabilizado, sem os habituais picos durante os feriados celebrados pela China continental, ao contrário do que ocorria em anos anteriores.
A experiência de Nordin reflete um panorama mais amplo do setor de turismo no Japão, que viu os turistas chineses se afastarem da terceira maior economia da Ásia em meio a um conflito diplomático que começou em novembro passado, resultado de comentários feitos pela primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi.
Dados da Organização Nacional de Turismo do Japão (JNTO) indicam que o número de chegadas de turistas da China continental caiu mais de 60% em janeiro em relação ao ano anterior, enquanto o número total de turistas diminuiu apenas 4,9% no mesmo período.
No mês de dezembro, as chegadas de turistas chineses despencaram 43,3%, mas o número total de visitantes de todos os países aumentou em 3,7%. Antes de novembro, os turistas da China continental eram um dos maiores grupos a visitar o Japão.
Turistas de Outras Regiões
De onde estão vindo esses outros turistas? Os números da JNTO sugerem que um número crescente de turistas está vindo da Coreia do Sul e de Taiwan. Só em janeiro, as chegadas de turistas sul-coreanos aumentaram 21,6%, superando as da China continental, tornando-se a maior fonte de visitantes estrangeiros.
Os visitantes de Taiwan foram quase o dobro em comparação ao número de chegadas da China em janeiro, com um aumento de 17% nas chegadas vindas da ilha.
O apelo do Japão aos turistas provenientes de países vizinhos está ligado a voos de curta distância, à desvalorização do iene e à reputação do Japão como um destino próximo, culturalmente familiar e seguro, segundo Zilmiyah Kamble, professora de gestão de hospitalidade e turismo na James Cook University (JCU).
Ao comentar sobre a queda no número de turistas da China continental, Kamble destacou em um e-mail enviado à CNBC que, embora a queda seja significativa, não é catastrófica. Ela enfatizou que, embora os turistas chineses representem um dos mercados receptores mais valiosos do Japão, por serem grandes gastadores em comércio, hospitalidade e produtos de luxo, o país sempre teve um portfólio de turismo diversificado, o que confere certo nível de resiliência.
Cidades Diferentes para Visitantes Diversos
Diferentemente dos turistas chineses, que costumam ser associados a pontos turísticos populares como Quioto, Osaka e Tóquio, o aumento de visitantes de outros países parece estar levando viajantes a regiões menos conhecidas do Japão.
Prefeituras como Shizuoka, famosa por abrigar o icônico Monte Fuji, e Nara, renomada pelos seus templos e pelo parque de cervos, enfrentaram desafios maiores devido à ausência de turistas chineses, conforme análise da Oxford Economics em um relatório datado de 27 de fevereiro.
Por outro lado, lugares como Fukushima têm atraído turistas de Taiwan, enquanto campos de golfe e fontes termais na prefeitura de Ehime são populares entre os visitantes da Coreia do Sul.
A estudante de universidade de Singapura, Cheryl Ng, que visitou Hiroshima em fevereiro, comentou que a cidade tinha um número considerável de turistas ocidentais. “Cerca de dois terços do museu eram de ocidentais”, disse ela referindo-se ao Museu Memorial da Paz de Hiroshima.
A Oxford Economics corroborou essa visão, observando que americanos, australianos e europeus estão atraídos pelos locais históricos de Hiroshima. Importante mencionar que Hiroshima foi alvo da primeira bomba atômica em 6 de agosto de 1945, enquanto as forças dos EUA se aproximavam do Japão imperial nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial.
A Oxford Economics destacou que, dada a persistente fraqueza do iene, o número total de turistas tende a permanecer robusto, embora uma elevação a partir dos atuais níveis seja improvável devido à escassez de acomodações. David Mann, economista-chefe para a região da Ásia-Pacífico na Mastercard, também concordou: “O quadro geral ainda é positivo”, declarou ele em um e-mail à CNBC.
Mann ressaltou que, no geral, as chegadas de turistas ao Japão estão cerca de 34% acima dos níveis pré-pandemia, com a receita do turismo crescendo até mais rápido do que o aumento no número de visitantes, devido ao gasto elevado por visitante impulsionado pela desvalorização do iene.
O Retorno dos Turistas Chineses?
A questão que se coloca agora é se os turistas chineses retornarão ao Japão. Analistas da Oxford Economics afirmaram que é “improvável que os números de turistas da China se recuperem rapidamente” no curto prazo, afirmando que empresas japonesas estão buscando captar a demanda de outras regiões.
Lojas de departamentos estão expandindo suas atividades promocionais em economias da ASEAN, e os varejistas estão aumentando o estoque de produtos populares entre europeus, americanos e sul-asiáticos, invés de focar nos turistas chineses, segundo os especialistas.
David Mann, da Mastercard, mencionou que é difícil estabelecer um cronograma preciso para o retorno dos turistas chineses, mas que qualquer recuperação deverá ser gradual. Essa opinião foi compartilhada por Kamble, da JCU, que destacou que as decisões de viagem são moldadas não apenas pela política, mas também pela confiança do consumidor, narrativas nas redes sociais e condições econômicas mais amplas.
Outros fatores, como conectividade aérea, renda disponível e estabilidade diplomática, também desempenharão um papel nesse processo, afirmou Kamble. “Restaurar a confiança leva tempo, especialmente em um ambiente digital altamente conectado”, concluiu.
Fonte: www.cnbc.com