Análise do Resultado do Bradesco
Felicidade é a realidade menos a expectativa, uma reflexão que se aplica de maneira precisa ao mercado financeiro. Quando a expectativa em relação a uma empresa é alta e os resultados apresentados são apenas medianos, o preço das ações pode sofrer um ajuste negativo. Esse fenômeno pode dar a impressão de que o desempenho foi ruim, mas, na realidade, representa uma reavaliação dos investidores.
Desempenho do Bradesco
Esse cenário se concretizou com o Bradesco (BBDC4). Embora o banco tenha apresentado resultados em linha com as previsões do mercado, exibindo crescimento na rentabilidade e lucro, suas ações apresentaram queda de aproximadamente 3% durante uma sessão, chegando a recuar até 4% em alguns momentos. O CEO, Marcelo Noronha, admitiu que a expectativa do "buy side" nacional estava excessivamente inflacionada.
Noronha esclareceu que a queda nas ações não reflete o desempenho operacional real do banco, mas é um ajuste esperado, uma vez que a empresa havia registrado uma valorização de 23% anteriormente. Assim, mesmo com a queda de 3% ou 4%, o banco ainda apresentaria um ganho líquido de 20% em comparação com o trimestre anterior.
O que dizem os analistas?
De maneira geral, os analistas classificaram os resultados do Bradesco como satisfatórios. A empresa Genial destacou que o banco tem cumprido seus objetivos, não apenas entregando resultados consistentes, mas também alcançando sua sétima alta consecutiva desde o início do seu plano de reestruturação, que foi anunciado em 2024.
No último trimestre, o lucro líquido recorrente atingiu R$ 6,2 bilhões, representando um crescimento de 2,3% em relação ao trimestre anterior e 18,8% em relação ao ano anterior, conforme as expectativas do consenso de mercado. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) ficou em 14,4%, apresentando um avanço de 1,4 ponto percentual, indicando uma melhoria gradual e sustentável em sua rentabilidade.
Crescimento Sustentável das Receitas
Os analistas apontam que o desempenho robusto do Bradesco foi impulsionado por um crescimento sólido das receitas, que representam o motor principal da retomada da lucratividade. O destaque positivo ficou por conta da margem financeira com clientes, conhecida como NII Clientes.
Esse crescimento sinaliza uma recuperação das receitas observadas ao longo de 2025, mantendo-se acima de R$ 18 bilhões, após vários anos de estagnação em torno de R$ 16 bilhões. De acordo com a Genial, essa melhoria ajudou a compensar o desempenho mais fraco da margem com o mercado, enquanto as receitas de serviços se beneficiaram significativamente do bom desempenho na área de cartões.
Unidade de Seguros e Margem Financeira
Outro aspecto positivo mencionado foi a unidade de seguros do Bradesco, que manteve uma trajetória ascendente, alcançando um ROE de 22,4%, além de crescimento nos prêmios ganhos e resultados financeiros robustos.
O Banco Safra também elogiou os resultados, afirmando que o Bradesco entregou o que prometeu, com números saudáveis sobre juros líquidos. A margem financeira com clientes já atingiu a marca de 9,0%. Essa performance é resultado do processo de reestruturação e renovação da carteira de empréstimos, que se configuram como pilares fundamentais da melhoria contínua do banco.
O JPMorgan registrou tendências positivas tanto na margem de juros líquida (NII) quanto na margem de intermediação financeira (NIM), o que deve contribuir para o desempenho futuro, superando as estimativas traçadas.
Pontos de Atenção
Contudo, um ponto de atenção que merece destaque foi o aumento das provisões para créditos duvidosos, que disparou 20% no ano, totalizando R$ 9,4 bilhões — um valor 5% superior à estimativa do BTG Pactual.
Apesar desse incremento, Noronha afirmou que o Bradesco mantém uma carteira de crédito de qualidade superior e não antecipa um aumento na inadimplência até o final do ano. Essa situação se deve, principalmente, a segmentos mais vulneráveis, como o agronegócio, onde a inadimplência tem impactado os resultados. No entanto, o executivo ressaltou que o apetite por risco permanece moderado.
Noronha ainda acrescentou que o banco não identificou riscos significativos entre as grandes empresas, ressaltando que, caso existam, são circunstâncias pontuais. Ele também declarou que não há preocupações relevantes com o crédito rural, reconhecendo apenas a possibilidade de uma "flutuação um pouco maior" no curto prazo no financiamento de equipamentos, embora isso não o tenha preocupado em demasia.
O que fazer com Bradesco?
Os analistas sugerem que o mercado esperava mais, mas que o Bradesco continua em um caminho promissor para superar períodos de resultados insatisfatórios. De acordo com o Safra, esta trajetória indica um ROE acima do custo de capital, ou seja, maior que 16%, visto que as tendências permanecem positivas. A recomendação de desempenho superior foi reiterada.
O JPMorgan avaliou os resultados como razoáveis, destacando a implementação da estratégia e a melhoria gradual da rentabilidade. No entanto, o banco afirmou preferir o Santander Brasil (SANB11) entre as instituições financeiras brasileiras mais suscetíveis a passivos.
A recomendação do JPMorgan para o Bradesco é de neutralidade, com um preço-alvo de R$ 19. Por sua vez, a XP afirmou que a instituição continua aprimorando sua rentabilidade e a qualidade de seus ativos, confirmando progresso consistente em seu turnaround e alinhamento com o guidance para 2025.
Por fim, analistas sinalizaram que o Bradesco parece ter atingido uma nova base para a normalização dos lucros, reafirmando seu rating neutro. Consideram que é vital manter um ROE superior a 15%, acompanhado de um custo de crédito estável, para que uma reavaliação positiva aconteça em um contexto macroeconômico desafiador.
Potencial de Alta
O BTG Pactual vê o Bradesco fazendo os ajustes necessários para aumentar seu ROE nos meses seguintes, afirmando que, mesmo após a valorização dos papéis, as ações ainda são negociadas a uma avaliação acessível, o que implica potencial para novas altas.
Entretanto, esta avaliação não foi suficiente para alterar a recomendação do banco, que observa que o Bradesco tem se concentrado mais em clientes de alta renda, relegando o segmento de baixa renda, onde tradicionalmente tinha forte presença.
No que diz respeito às pequenas e médias empresas, a atenção do banco tem se voltado a empréstimos com garantias governamentais, tornando difícil visualizar retornos excedentes de forma sustentável.
Em geral, o BTG Pactual percebe que o Itaú (ITUB4) está se distanciando de seus concorrentes entre os bancos tradicionais no Brasil, mas mantém a expectativa de valorização das ações do Bradesco nos próximos 6 a 12 meses, posicionando-o como a segunda opção preferida, após o Itaú.
Recomendações e Preço-Alvo
| Casa | Recomendações | Preço-alvo | Potencial de alta* |
|---|---|---|---|
| JPMorgan | Neutra | R$ 18,00 | -1,5% |
| Genial | Compra | R$ 21,20 | +15,9% |
| XP | Neutra | R$ 17,00 | -7,0% |
| BTG Pactual | Neutra | R$ 19,00 | +3,9% |
| Safra | Compra | R$ 21,00 | +14,9% |
Fonte: www.moneytimes.com.br