Introdução
O Grupo Fictor, que em 2025 era visto como uma empresa em ascensão, tornou-se um importante patrocinador da Sociedade Esportiva Palmeiras. Naquele período, sua subsidiária estava listada na B3 com o ticker FICT3 e a empresa emitia cartões de crédito premium com a bandeira American Express, apresentando-se como uma holding ambiciosa.
No entanto, pouco mais de um ano depois, a empresa começou a ser foco de notícias por motivos preocupantes, como atrasos em pagamentos a sócios e, em 1º de fevereiro de 2026, fez um pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). A Fictor argumenta que a crise não surgiu de problemas operacionais, mas sim de uma perda de confiança que afetou seu fluxo de caixa e levou investidores a um cenário de incerteza.
De acordo com a companhia, a origem da crise foi um incidente relacionado ao caso do Banco Master.
Quem é o Grupo Fictor?
A trajetória do Grupo Fictor começou em 2007, inicialmente atuando na prestação de serviços operacionais e tecnológicos. Durante quase uma década, a empresa cresceu de forma discreta até decidir diversificar seu portfólio de maneira mais intensa a partir de 2016.
Em 2018, a holding ingressou no mercado de commodities agrícolas, expandindo posteriormente para setores como infraestrutura, energia e imobiliário. Até 2021, o grupo já administrava cerca de dez empresas em diferentes áreas, mas foi através da Fictor Alimentos que encontrou seu principal motor de crescimento.
No mercado financeiro, o grande avanço se deu por meio de um IPO reverso, que envolveu a aquisição da Atom Participações, uma empresa de educação financeira, em 2024, momento em que passou a ser conhecida como Fictor Alimentos (FICT3).
Além da atuação no setor alimentício, a empresa lançou em 2024 a FictorPay, voltada para tecnologia financeira. Porém, no ano seguinte, a fintech sofreu um ataque hacker significativo, intensificando os desafios que a companhia já enfrentava.
Em março de 2025, a empresa alcançou um novo destaque ao firmar um contrato de patrocínio de três anos com o Palmeiras, avaliado em R$ 30 milhões anuais.
As promessas da Fictor para atrair investidores
Ao se apresentar ao mercado, a Fictor projetava um ecossistema de investimentos diversificado e sustentável. Nos segmentos imobiliário e de energia, a companhia prometia robustez, com projetos que juntas gerariam receitas superiores a R$ 1,8 bilhão.
Para financiar essa expansão, a empresa adotou um modelo comum no agronegócio, as Sociedades em Conta de Participação (SCPs), captando aproximadamente R$ 3 bilhões de investidores privados para projetos agroindustriais específicos.
A situação começou a se deteriorar em novembro de 2025, quando a Fictor anunciou a compra do Banco Master por R$ 3 bilhões, um movimento surpreendente para uma holding com pouca visibilidade no mercado, principalmente porque a instituição enfrentava graves problemas financeiros.
Logo após o anúncio, o Banco Master foi alvo de uma operação da Polícia Federal e seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso. Em seguida, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, o que gerou uma associação negativa imediata com a Fictor.
A empresa alegou que sua tentativa de aquisição do Banco Master foi retratada negativamente como um movimento desesperado para evitar uma intervenção regulatória, e a companhia enfrentou um sério impacto de reputação.
A Fictor descreveu em seu pedido de recuperação como a situação financeira se deteriorou: “Os desdobramentos do caso Banco Master desencadearam um efeito em cadeia sobre a Fictor, marcado por perda de confiança, exposição negativa contínua, retração de parceiros, corrida por retiradas e o consequente impacto direto no fluxo de caixa.”
De acordo com apurações da revista Piauí, a Fictor já estava sob investigação desde 2023 por possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional. Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investiga a empresa por supostas vendas irregulares de investimentos.
Corrida pelos resgates e asfixia de caixa
Em pouco tempo, as redes sociais e plataformas como ReclameAqui foram inundadas de reclamações sobre atrasos nos pagamentos realizados pela Fictor. Em janeiro de 2026, a holding tentou minimizar os danos e, em comunicado, reconheceu que estava enfrentando um momento atípico, embora reafirmasse que não estava insolvente, mas sim passando por uma crise de imagem.
Esse cenário gerou uma corrida bancária, onde os pedidos de resgate em massa se tornaram uma realidade. Segundo o pedido de recuperação judicial, as solicitações de retirada atingiram 71,38% de todo o capital aportado nas SCPs. Até novembro de 2025, a Fictor havia capatado cerca de R$ 3 bilhões por esse modelo, e uma grande parte desses recursos tentou ser retirada simultaneamente.
A Fictor explicou que a confiança era a base de todas as relações contratuais, mas que, diante de instabilidades, essa confiança se fragilizou e os pedidos de retirada ultrapassaram os padrões considerados normais. Paralelamente, bancos parceiros cortaram suas linhas de crédito, contratos comerciais foram revisados ou encerrados, e ativos essenciais foram colocados à venda para recompor o caixa.
Adicionalmente, uma disputa judicial com a Orbitall, que processava cartões da FictorPay, resultou no bloqueio de R$ 150 milhões nas contas do grupo, travando seus fluxos operacionais. Investidores das SCP começaram a ingressar com ações judiciais, totalizando mais de R$ 800 mil.
O impacto na bolsa foi imediato, com as ações da Fictor Alimentos (FICT3) desvalorizando-se em cerca de 80% em questão de meses. Em sequência, houve uma nova queda de 30% no mesmo ativo.
A estratégia de sobrevivência da Fictor por trás do pedido de recuperação judicial
Com o agravamento da crise, a Fictor decidiu buscar proteção judicial contra seus credores, apresentando um pedido de recuperação no valor de R$ 4,25 bilhões.
O principal objetivo é ganhar tempo para evitar o esvaziamento do patrimônio através de bloqueios judiciais. A empresa busca a suspensão das execuções por um período de 180 dias, denominada stay period, com a intenção de resguardar operações saudáveis e preservar a holding da Fictor Invest.
Notavelmente, a Fictor Alimentos, que é responsável por aproximadamente 87% da receita, não foi incluída no pedido principal para seguir funcionando e garantindo o pagamento aos credores no futuro. No documento apresentado à Justiça, a companhia sustenta que se mantém operacionalmente viável e que não há problemas patrimoniais significativos.
A Fictor acredita que a superação da crise é “plenamente possível” e, após a reestruturação, o grupo “voltará a crescer e o endividamento se transformará em algo pequeno, próximo às capacidades disponíveis”.
A empresa salienta que possui conhecimento organizacional e um extenso emaranhado de relacionamentos e contratos consolidados com seus stakeholders, o que, aliado às condições do procedimento recuperacional, servirá para atravessar o atual momento difícil. A assessoria da Fictor não se pronunciou além da nota ao mercado enviada anteriormente.
Fonte: www.moneytimes.com.br