Ameaça de Tarifas e Anexação da Groenlândia
A possibilidade de a guerra econômica entre os Estados Unidos e a Europa tornar-se realidade foi amenizada após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, informar que as tarifas prometidas aos países que se opõem à tentativa de anexar a Groenlândia foram canceladas. Anunciada na quarta-feira, dia 21, a medida sinaliza a existência de uma estrutura para um futuro acordo envolvendo a Groenlândia, reduzindo as tensões comerciais entre as duas regiões.
A Europa, por sua vez, estava considerando a implementação de medidas de emergência contra os Estados Unidos. A necessidade de que a Europa cedesse o território de um aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sob a ameaça de tarifas punitivas foi vista como um limite que os líderes europeus não estavam dispostos a aceitar sem uma reação. Contudo, não está claro se a decisão de Trump em recuar foi motivada pelas ameaças da União Europeia (UE) ou pela suspensão, na mesma data, das aprovações finais de um acordo comercial com os Estados Unidos.
Independentemente do motivo que levou Trump a essa decisão, a possibilidade de um confronto comercial intenso parece ter sido evitada, pelo menos por enquanto.
Acordo Comercial da UE com os EUA
Na mesma quarta-feira, os legisladores da UE decidiram suspender a ratificação de um acordo comercial com os Estados Unidos, em resposta à ameaça de tarifas feita por Trump. Este acordo, que apresentava uma taxa de 15% sobre a maioria dos produtos importados do bloco, com exceções, especialmente em relação a produtos farmacêuticos, contemplava um compromisso da UE de adquirir US$ 750 bilhões em produtos energéticos dos EUA. Entretanto, o chefe de pesquisa em política comercial do Instituto de Kiel, Julian Hinz, indicou que essa proposta foi percebida como “muito assimétrica” em favor dos Estados Unidos.
Na sexta-feira (23), a presidente do Parlamento Europeu declarou que a UE deve retomar as negociações sobre o acordo comercial, sinalizando um possível novo horizonte para as relações comerciais entre as duas regiões.
Possíveis Tarifas Retaliatórias
Em resposta à postura dos Estados Unidos, a União Europeia poderia ter reativado um pacote de tarifas retaliatórias de € 93 bilhões (aproximadamente US$ 109 bilhões) que foi elaborado no ano anterior como resposta a ameaças tarifárias anteriores de Trump. Este pacote também visava produtos variados, de soja americana a uísque, e sua implementação seria uma estratégia direta para impactar a política interna americana, especialmente em um ano de eleições intermediárias.
Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador sênior no Instituto Peterson de Economia Internacional, afirmou que esse pacote tinha como alvo estados republicanos e agrícolas, sugerindo que a sua aplicação causaria um impacto negativo considerável nessas regiões.
Instrumento Anticoerção
A UE também tinha a opção de ativar, pela primeira vez, a chamada “bazuca comercial”, um mecanismo que possibilita ao bloco impor diversas sanções a seus parceiros comerciais. O chamado Instrumento Anticoerção permite que a UE implemente controles sobre as exportações europeias para os Estados Unidos, institua novas tarifas e restrinja investimentos de empresas americanas no bloco. Carsten Brzeski, chefe global de pesquisa macroeconômica do ING, comentou que esse instrumento pode ser visto como uma ferramenta flexível e abrangente, que pode trazer danos significativos aos Estados Unidos, desde que um número suficiente de Estados-membros concorde em sua utilização.
Kirkegaard observou que esta ferramenta é muitas vezes referida como uma bazuca, mas também pode ser considerada um bisturi, com potencial para prejudicar interesses comerciais norte-americanos de maneira precisa. A Europa pode ter se inspirado nas retaliações da China contra os Estados Unidos no ano anterior, onde a nação asiática impôs controles de exportação a minerais críticos e expandiu suas exportações com sucesso, evidenciando sua capacidade de resistir e prosperar apesar das tarifas impostas pelos EUA.
Venda de Títulos do Tesouro dos EUA
Os países da UE detêm coletivamente US$ 8 trilhões em ações e títulos americanos, sendo, portanto, o maior credor dos Estados Unidos. George Saravelos, chefe de pesquisa cambial do Deutsche Bank, sugeriu que a Europa poderia considerar se desfazer da dívida pública americana em uma eventual retaliação. Essa medida poderia elevar os custos de empréstimo nos EUA e, consequentemente, impactar o custo de vida. No entanto, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, rejeitou essa análise, afirmando que os diretores do Deutsche Bank não sustentam essa perspectiva.
Desfazer-se dessa dívida é considerado altamente improvável, pois teria um efeito adverso, diminuindo o valor das reservas em títulos do Tesouro que esses países mantêm. Kirkegaard avaliou essa estratégia como pouco eficiente, argumentando que é uma abordagem mais adequada para uma guerra real, como a hipotética envolvendo a Groenlândia.
Implicações de uma Disputa Comercial
Uma disputa comercial entre Estados Unidos e Europa teria implicações consideráveis para ambos os lados. Antes da proposta de acordo, Trump havia ameaçado impor tarifas de 30% sobre os produtos europeus, uma medida que poderia elevar os preços nos EUA, afetando a confiança empresarial e contribuindo para a desestabilização do já delicado mercado de trabalho americano. Essa situação poderia prejudicar as empresas europeias, afastando consumidores americanos de seus produtos.
Além disso, a retaliação poderia ter repercussões perigosas, levando Trump a reconsiderar o apoio dos Estados Unidos em outras questões importantes para a Europa. Brzeski questionou o que impediria o governo americano de adotar uma posição menos colaborativa, destacando que a dinâmica atual não se comporta mais como um jogo com regras bem estabelecidas.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br