Recuperações judiciais provocam 'grande incerteza' no agronegócio, afirma CEO da Bayer, que defende políticas públicas para produtores impactados por condições climáticas adversas.

Recuperações judiciais provocam ‘grande incerteza’ no agronegócio, afirma CEO da Bayer, que defende políticas públicas para produtores impactados por condições climáticas adversas.

by Editoria Bolsa e Mercado
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Aumento das Recuperações Judiciais e Incertezas no Agronegócio

O crescimento das recuperações judiciais entre os produtores rurais provocou um clima de “incerteza brutal” em relação ao crédito no setor do agronegócio, conforme a análise de Marcio Santos, que ocupa o cargo de CEO da Bayer Brasil. Ele destaca a importância de diferenciar os produtores que enfrentaram eventos climáticos extremos daqueles que enfrentaram dificuldades financeiras devido a decisões de investimento que não surtiram efeito.

“Sobre o tema específico da recuperação judicial, é importante ressaltar que isso adiciona uma incerteza brutal para quem concede crédito”, disse Santos em uma entrevista exclusiva ao Money Times.

No dia a dia, a dificuldade de prever quais produtores poderão honrar seus compromissos financeiros eleva o risco associado ao financiamento na cadeia produtiva. Segundo o executivo, essa incerteza não se limita apenas à questão do crédito, pois também pode influenciar as decisões sobre onde os investimentos devem ser direcionados.

“A pergunta que surge é: vale a pena produzir no Brasil ou em outros 194 países ao redor do mundo?”, comentou, aludindo à atuação global da Bayer.

Segundo Santos, um contexto de maior incerteza leva as multinacionais a avaliar o Brasil em comparação a outros mercados na hora de decidir sobre a alocação de capital. Isso pode impactar de forma significativa fatores como emprego, renda, exportações e a geração de divisas.

“Um ambiente turbulento gera cautela nos investidores”, afirmou.

Política Pública para Eventos Climáticos Extremos

Neste cenário, o CEO defende a necessidade de uma discussão aprofundada sobre políticas públicas voltadas para produtores que sofrem os efeitos de eventos climáticos extremos. Santos utilizou as enchentes ocorridas no estado do Rio Grande do Sul como um exemplo, mas enfatizou que o estado também passa por períodos de seca, assim como outras regiões do Brasil que enfrentam situações semelhantes.

Para apoiar este grupo de produtores, ele propõe a criação de mecanismos que garantam a continuidade das atividades produtivas após eventos que estão além do controle dos agricultores.

“A saúde do nosso agronegócio ficará comprometida se perdermos produtores devido a um evento climático extremo”, destacou. “Portanto, o sistema deveria dispor de fundos destinados à prevenção desse tipo de situação.”

Em contrapartida, o executivo ressalta que os produtores que assumiram riscos e realizaram investimentos baseados em premissas que não se confirmaram não deveriam ser tratados de forma semelhante. “O que precisamos discernir no setor é distinguir entre os produtores que, por decisão deliberada, realizaram um investimento equivocado e aqueles que foram afetados por um evento climático extremo”, afirmou.

Para ele, misturar as duas situações pode criar incentivos inadequados e prejudiciais. “Se começarmos a justificar maus investimentos, o setor como um todo sofrerá as consequências”, declarou.

Santos acredita que a discussão deve ser encarada como uma questão de política pública, uma vez que envolve a alocação de recursos da sociedade.

“Como cidadão, você se preocupa em assegurar que a agricultura vai continuar fornecendo alimentos, preservando a riqueza em condições extremas? Creio que sim. Essa é uma discussão madura e complexa, mas necessária”, afirmou.

Peso do Brasil para a Bayer

A importância do Brasil para a Bayer é substancial. Segundo Marcio Santos, o país representa mais da metade das operações da empresa na América Latina, embora a companhia não divulgue números específicos relacionados ao mercado brasileiro.

A presença da Bayer no Brasil é resultado de um ambiente de negócios que foi construído ao longo das últimas décadas, envolvendo regras que proporcionam previsibilidade no retorno dos investimentos realizados.

A empresa está prestes a completar 130 anos de atuação no Brasil e, segundo Santos, não está considerando uma saída do mercado nacional. A preocupação se concentra mais nas condições para a realização de novos investimentos.

“Acho que a taxa de juros é uma contingência do momento”, afirmou. Para ele, questões estruturais, como a segurança da propriedade privada e intelectual, assim como a capacidade de cumprimento dos contratos, têm maior relevância nas decisões de longo prazo.

Santos enfatiza que o crescimento das recuperações judiciais é um fator que contribui para aumentar a incerteza no sistema de financiamento, elevando assim o custo do crédito.

“Quem está decidido a investir nos próximos 15 anos deve considerar o panorama de recuperação judicial no país nos últimos quatro anos e como isso afetará a situação daqui a uma década”, questionou.

Quando indagado sobre se as eleições deste ano poderiam potencialmente aumentar as incertezas quanto aos investimentos, Santos respondeu que vê o processo eleitoral como um aspecto positivo para o ambiente de negócios.

“O fato de termos eleições é, por si só, um aspecto benéfico”, afirmou. Para o executivo, a continuidade da democracia, apesar dos desafios que apresenta, é vantajosa tanto para a sociedade quanto para as empresas.

Bayer Mantém Planos de Expansão no Brasil

Em meio às ressalvas sobre o ambiente de negócios, a Bayer permanece analisando oportunidades de crescimento no Brasil. A companhia está considerando, por exemplo, um plano para expandir sua divisão de Saúde do Consumidor, o que poderia incluir a construção de uma nova fábrica no país. Essa possibilidade já havia sido mencionada por executivos da empresa durante uma entrevista ao Valor Econômico em maio.

Santos informou que o projeto encontra-se em fase de amadurecimento, sem que haja detalhes disponíveis para divulgação, mas confirmou que ele continua sendo avaliado. “O Brasil representa um mercado com grandes oportunidades”, destacou.

Os fatores considerados pelo executivo abrangem o tamanho da população brasileira e o potencial nas áreas de cuidados com a pele e vitaminas. Além disso, a empresa está analisando a possibilidade de utilizar o Brasil como uma plataforma de exportação para outros mercados da América Latina.

Concorrência Chinesa e Regras de Mercado

Referente à crescente presença de empresas chinesas no setor de insumos agrícolas, Santos afirma que a concorrência é parte inerente do negócio, desde que ocorra em condições equivalentes. No entanto, ele alerta que o problema surge quando existem práticas consideradas desleais, como o dumping ou discrepâncias regulatórias que proporcionam vantagens a determinados concorrentes.

“Quando você começa a criar assimetrias, é como se estivesse amarrando uma bola no pé de um corredor e permitindo que outro continue correndo livremente”, comentou.

Ao mesmo tempo, ele pontua que a Bayer precisa competir em um mercado global e que a concorrência, quando realizada em condições justas, pode impulsionar melhorias nas empresas.

El Niño como um Fator de Atenção

A possibilidade de um El Niño intenso também está sendo monitorada pela Bayer. Santos menciona que os modelos climáticos indicam um cenário preocupante, particularmente para as culturas de soja e milho, alertando para a necessidade de atenção em relação a essa questão.

“Atualmente, isso é um ponto de atenção, pois temos um plano de negócios preestabelecido para um ambiente de relativa normalidade”, observou.

Segundo ele, a região central do Brasil concentra aproximadamente dois terços das culturas anuais, o que aumenta a preocupação caso haja um impacto climático significativo nessa área.

“Portanto, há um alerta significativo em relação a isso”, enfatizou.

O Debate Sobre o Glifosato

Por fim, Santos abordou a segurança do glifosato, um herbicida amplamente utilizado no agronegócio e que se tornou o foco de disputas judiciais bilionárias envolvendo a Bayer nos Estados Unidos. Formado em agronomia e com 36 anos de experiência na área, ele assinala que existem centenas de estudos científicos que, em sua visão, comprovam a segurança do produto, que é central para o sistema de plantio direto no Brasil.

Em junho deste ano, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 7 votos a 2, favoravelmente à Monsanto (subsidiária da Bayer), afirmando que as legislações federais proíbem processos estaduais relacionados à falta de aviso sobre os riscos de câncer no rótulo do Roundup, que é um herbicida à base de glifosato.

Em relação a essa decisão, Santos a considera “um passo na direção correta”, mas ressalta que a questão principal não diz respeito apenas ao glifosato, mas sim à autonomia das agências reguladoras. “Acredito que isso é crucial e não se relaciona exclusivamente ao glifosato, mas à segurança dos negócios como um todo”, concluiu Santos.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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