A Reorganização do Comércio Internacional Após a Decisão da Suprema Corte dos EUA
A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, divulgada na sexta-feira (20), que derrubou as tarifas unilaterais implementadas durante a gestão de Donald Trump, promete provocar uma reorganização no comércio internacional. Representantes da indústria e especialistas ouvidos pela CNN afirmam que essa mudança terá efeitos graduais sobre empresas, consumidores e acordos comerciais.
Diretrizes da Decisão e Implicações Fiscais
A medida, aprovada por uma maioria de 6 a 3, não esclareceu uma questão central: o destino dos recursos já arrecadados pelo governo norte-americano com as tarifas. A possibilidade de reembolsos se torna um ponto sensível nesse cenário, pois membros da administração Trump defenderam que possíveis devoluções podem ter consequências significativas para a economia dos Estados Unidos.
A discussão sobre a restituição de valores deve ser feita principalmente dentro do país. Em uma entrevista ao CNN Money, Fernando Pimentel, CEO da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), afirmou que a questão “deve ser conduzida pelas empresas que arcaram com o imposto e têm a documentação para questionar os valores”.
Impacto das Tarifas na Arrecadação
As alíquotas de tarifas aplicadas na administração Trump contribuíram intensamente para um aumento nas receitas tarifárias dos Estados Unidos, que cresceram aproximadamente 200% em 2025 comparado ao ano anterior. O ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial, Carlos Primo Braga, declarou que as receitas alcançaram US$ 287 bilhões no ano passado, com cerca de US$ 175 bilhões oriundos de tarifas aplicadas com base na IEEPA (International Emergency Economic Powers Act).
Contudo, a recente decisão da Suprema Corte levanta dúvidas quanto à devolução desses valores. Braga considera o tema complexo e avalia que “o governo vai resistir” a possíveis reembolsos. Ele também destaca que nem todas as tarifas serão revogadas, mencionando aquelas impostas sobre o aço e alumínio, que se justifiquem por razões de segurança nacional.
Reação de Donald Trump e o Novo Cenário de Tarifas
Imediatamente após a decisão da Suprema Corte, Donald Trump anunciou o estabelecimento de uma nova taxa global de 10%. Essa taxa será aplicada com base em uma legislação comercial conhecida como Seção 122, que permite ao presidente impor tarifas de até 15% por um período máximo de 150 dias para corrigir desequilíbrios na balança de pagamentos ou restrições comerciais. Após esse período, o Congresso deve deliberar sobre a continuidade das tarifas.
Apesar da abordagem mais agressiva, os mercados financeiros reagiram positivamente ao anúncio, com altas em várias partes do mundo, e o Ibovespa alcançando um novo recorde, fechando acima de 190 mil pontos pela primeira vez.
Expectativas do Mercado em Relação às Novas Tarifas
Segundo Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, a nova tarifa imposta por Trump poderia ser maior, o que gerou um otimismo generalizado nos mercados. Zogbi acredita que essa reação positiva decorre do fato de as novas tarifas serem temporárias e inferiores às anteriores, o que reduz as incertezas no cenário econômico.
“Acho que até ontem a situação estava ainda pior do que ela vai se tornar a partir desses três dias que ele pretende implementar essa nova tarifa de 10%, que é uma tarifa emergencial e temporária”, comentou.
Para mercados emergentes como o Brasil, a especialista afirmou que a diminuição das incertezas pode ser benéfica, mesmo que as tarifas de 10% sejam menos favoráveis do que a remoção total das taxas. Ela enfatizou que em nenhum momento o mercado havia precificado que Trump não tomaria alguma retaliação ou tentaria reinstituir tarifas.
Zogbi ainda ressaltou que o “risco Trump” já estava sendo considerado pelo mercado, levando os investidores a buscar proteção em outros mercados fora dos Estados Unidos. “No ano passado, já observamos um movimento de rotação dos investimentos para fora dos Estados Unidos, para outros países ao redor do mundo, como na Europa”, concluiu.
Expectativas de Recuperação no Setor Produtivo
Com a nova tarifa global de 10%, as expectativas de recuperação no setor produtivo parecem ser promissoras. Eduardo Lobo, representante da Abipesca, declarou em entrevista ao CNN Money que o setor esperava exportar cerca de US$ 600 milhões em 2023, mas alcançou apenas pouco mais de US$ 400 milhões devido às tarifas elevadas. Com o novo cenário, “ficamos competitivos, voltamos ao jogo internacional”, afirmou.
Lobo acredita que a recuperação do mercado norte-americano pode não apenas aumentar as receitas, mas também ajudar na geração de empregos. Ele estimou que entre 4 mil e 5 mil postos de trabalho foram perdidos e acredita que as contratações podem ser rapidamente retomadas.
Implicações de Incertezas no Cenário Econômico
Por outro lado, Roberto Azevedo, ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), alerta sobre o ambiente de incerteza decorrente das sucessivas mudanças nas tarifas e pela possibilidade de novas retaliações comerciais. Para ele, a imprevisibilidade traz desafios para investimentos, compromete a geração de empregos e pode levar a uma desaceleração econômica.
Azevedo enfatizou que “o que cria o dinamismo econômico são os investimentos. E, se tem uma coisa que o investidor detesta, é a imprevisibilidade.”
Fonte: www.cnnbrasil.com.br