A restrição à carne brasileira na Europa e suas implicações
A restrição à carne brasileira na Europa pode se estender por um período maior do que o necessário para adaptar os produtos às novas exigências impostas, visto que essa discussão envolve não apenas aspectos técnicos, mas também fatores políticos e de reputação. Essa análise foi feita por Guilherme França, sócio da Intrust Associates, em entrevista ao programa Real Time, do Times Brasil, licenciado exclusivamente pela CNBC.
A Noruega anunciou que suspenderá, a partir de 3 de setembro, a entrada de produtos de origem animal provenientes do Brasil, seguindo uma decisão previamente adotada pela União Europeia. França explica que, embora a Noruega não integre a União Europeia, faz parte do Espaço Econômico Europeu, onde as diretrizes para a importação de produtos agrícolas são harmonizadas. “Eu diria que a Noruega não teve muita alternativa a não ser seguir o que a União Europeia está fazendo”, destacou França.
Restrição pode durar mais
Conforme o executivo, o estoque brasileiro destinado à exportação e que está sob as novas restrições deve durar até outubro. A partir desse ponto, teoricamente, já estariam disponíveis lotes que atendem às novas exigências. No entanto, França ressalta que a retomada das exportações não depende apenas da adaptação técnica dos produtos e dos processos de produção; fatores políticos e a imagem do Brasil também podem afetar a situação. “Esse ciclo pode ser muito mais longo do que a gente espera”, afirmou.
Medida não é vista como perseguição
França observa que a União Europeia, assim como o Espaço Econômico Europeu, impõem exigências rigorosas a respeito da qualidade e dos insumos utilizados na produção agrícola e alimentar. De acordo com sua avaliação, a medida não é uma represália específica contra o Brasil. “A discussão ocorre a partir de uma norma europeia aprovada em 2019, com a entrada em vigor programada para 2027”, comentou. Ele acrescenta que a indústria teve o tempo necessário para se adaptar, embora questões políticas ainda possam influenciar a condução desse processo. “Eu não vejo uma perseguição em relação à carne, mas vejo, sim, tendências de mercado”, afirmou.
Efeito cascata é improvável
O sócio da Intrust Associates não acredita que a decisão da Noruega provoque automaticamente uma adesão de outros mercados a restrições semelhantes. Ele aponta que países fora do Espaço Econômico Europeu, como a Arábia Saudita, seguem as suas próprias normas e não necessariamente adotarão as diretrizes impostas pela Europa como referência. França também considera que as exigências observadas na Europa refletem tendências mais amplas em termos de consumo e regulamentação, que envolvem não apenas a carne, mas também insumos agrícolas, fertilizantes e produtos transgênicos.
Negociações seguem em curso
O executivo informa que há negociações contínuas entre o Brasil e a União Europeia, embora uma grande parte dessas discussões ocorra nos bastidores, englobando aspectos diplomáticos, econômicos e governamentais. França menciona que há divergências a respeito do envio de informações entre as partes, haja vista que a União Europeia afirma que o Brasil deve informações, enquanto o Brasil alega que já enviou dados que supostamente estavam atrasados. “O grande desencontro de conversas é que a União Europeia disse que o Brasil deve informações e o Brasil diz que entregou as informações supostamente em atraso”, declarou. Ele expressou a expectativa de que essa situação seja resolvida e as exportações possam ser liberadas novamente.
China tem dinâmica diferente
Ao falar sobre as restrições impostas pela China, França distingue essa situação da que está sendo enfrentada nos mercados europeus. Ele explica que o mercado chinês apresenta uma combinação de forte demanda por alimentos, além de mecanismos de cotas e tarifas de importação. O executivo considera que pode haver oportunidades para uma renegociação do volume dessas cotas em um prazo mais curto, dado que esse tipo de alteração tende a demandar menos tempo do que a negociação de um acordo comercial mais abrangente. Para França, as questões envolvendo a China e a Europa têm naturezas diferenciadas e requerem análises distintas.
Fonte: timesbrasil.com.br
