Selic em queda e juros nos EUA em alta: compreenda as consequências para o dólar e o real

Selic em queda e juros nos EUA em alta: compreenda as consequências para o dólar e o real

by Editoria Bolsa e Mercado
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Deflação é pontual, mas ajudará o Banco Central a continuar cortando a Selic

O IPCA-15 registrou uma queda de 0,40% em agosto, impulsionada por um bônus na conta de luz da usina de Itaipu. Crédito: Alvaro Gribel.

Ao focar apenas no Brasil, o quadro dos juros começa a se tornar relativamente claro. A inflação está perdendo força, a atividade econômica apresenta sinais de desaceleração e o mercado já anticipa mais um corte na Selic, que é a taxa básica de juros, durante a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) agendada para quarta-feira, dia 16.

De acordo com os contratos de Opções de Copom negociados na B3, a probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual chegou a cerca de 95%, reduzindo a taxa dos atuais 14% para 13,75% ao ano.

Entretanto, é importante considerar que o Brasil não opera isoladamente. Enquanto se discute até onde os juros podem cair por aqui, as principais economias do mundo estão tomando um caminho oposto.

O mundo desenvolvido volta a exigir mais juros

Nos Estados Unidos, os títulos do Tesouro estão sendo negociados em níveis que não eram vistos há muitos anos. O Treasury de dez anos se aproximou dos 5%, enquanto o título com vencimento em 30 anos atingiu recentemente cerca de 5,37%, um patamar mais alto desde 2007.

Na Alemanha, os juros de 30 anos chegaram ao maior nível desde 2011; no Reino Unido, o governo chegou a emitir dívida de 30 anos pagando 5,82%, a maior taxa registrada desde pelo menos 1998.

No Japão, o rendimento do título de dez anos, que durante décadas quase não apresentava juros, alcançou a marca de 3% pela primeira vez desde 1996. Esse cenário indica um movimento claro de reprecificação do custo do dinheiro nas economias desenvolvidas.

Ao observar um aumento nas taxas de juros, devemos entender que isso ocorre porque o preço dos títulos despencou. O mercado está exigindo uma remuneração maior para conceder empréstimos por prazos que variam de dez a trinta anos. Mas por que isso está ocorrendo em países considerados seguros?

Várias razões estão em jogo simultaneamente. A inflação nos Estados Unidos continua resistente: o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) de agosto ficou em 3,4% nos últimos doze meses, ainda distante da meta de 2% estabelecida pelo Federal Reserve (Fed), que é o banco central americano. Embora o preço do petróleo tenha um papel importante nessa questão, não é o único fator que precisa ser considerado.

A economia americana demonstra resiliência, os déficits fiscais são enormes, e a dívida pública dos Estados Unidos já supera os US$ 40 trilhões. Tanto o governo quanto as empresas estão emitindo volumes significativos de novos títulos no mercado.

Adicionalmente, um novo componente nessa equação é a inteligência artificial. O impulso por inovações em IA gerou um ciclo imenso de investimentos em data centers, chips, energia, infraestrutura e capacidade computacional. Isso contribui para a sustentação da atividade econômica e dos investimentos, mesmo quando os juros altos deveriam provocar uma desaceleração mais pronunciada.

Ao mesmo tempo, grande parte desse investimento requer financiamento. Uma maior demanda por capital e a significativa emissão de dívidas geram um maior número de títulos disputando o capital do investidor. Para atrair esse capital, é necessário que o preço diminua e que o yield (rendimento) suba.

Consequentemente, a expectativa em relação ao Fed sofreu uma mudança rápida. Uma pesquisa da Reuters divulgada na última segunda-feira (14) revelou que 85% dos economistas consultados agora esperam um aumento de 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira, elevando a taxa americana para uma faixa entre 3,75% e 4%.

Economistas ainda antecipam pelo menos mais um aumento até março de 2027, enquanto contratos futuros indicam novas elevações ao longo dos próximos meses.

Brasil e EUA podem caminhar em direções opostas

Pense no que poderá acontecer nesta quarta-feira: enquanto o Brasil pode cortar a Selic de 14% para 13,75%, os Estados Unidos podem elevar seus juros de 3,50%-3,75% para 3,75%-4%. Em apenas uma reunião, o diferencial entre os juros das duas economias poderá diminuir em cerca de meio ponto percentual. Isso pode parecer pouco, mas a situação é mais complexa do que aparenta.

Considere um investidor estrangeiro avaliando duas opções. De um lado, ele pode comprar um título americano, em dólares, rendendo perto de 5% ao ano por um período de dez anos, sem se expor ao risco cambial associado à moeda em que mede seu patrimônio. Do outro lado, ele pode trazer seu capital para o Brasil, trocar dólares por reais e investir em títulos brasileiros para obter uma taxa de retorno superior.

É claro que, com uma Selic de 14%, o prêmio brasileiro ainda é significativo. Contudo, esse investidor não se limita a analisar apenas a diferença entre 14% e 4%: ele também precisa considerar o risco de desvalorização do real. Se ele obtiver 10% a mais em juros no Brasil, mas o real cair 15% em relação ao dólar no período, essa operação pode gerar resultados desfavoráveis ao conversão de volta para dólares.

É nesse ponto que surge o conceito de diferencial de juros. Quanto maior a remuneração que um país oferece em comparação a outro, maior é o incentivo para que o investidor aceite o risco adicional daquele mercado.

Essa lógica integra o conceito de carry trade: manter recursos onde os juros são mais baixos e investir onde eles são mais altos. O Brasil exemplificou essa lógica por um longo período.

Agora, imagine a situação inversa. Se o Brasil começa a cortar juros enquanto os Estados Unidos os aumentam, e os próprios Treasuries americanos começam a oferecer rendimentos de 5% ou mais para longos vencimentos, a pergunta que surge para o investidor é: qual o motivo para assumir riscos no Brasil se é possível obter cada vez mais retornos mantendo-se em dólares?

Embora isso não signifique que o investidor estrangeiro irá simplesmente liquidar todos os seus ativos brasileiros e retornar para o seu país de origem, o mercado não opera de maneira tão superficial. No entanto, isso indica que, em termos relativos, o prêmio necessário para que ele considere colocar mais capital no Brasil tende a aumentar. E se esse prêmio diminuir, precisamente porque a Selic está em queda e o retorno nos Estados Unidos está subindo, parte desse fluxo de investimento pode não entrar no Brasil ou pode se dirigir a outros destinos.

O Banco Internacional de Compensações (BIS) conduziu estudos recentes sobre essa dinâmica. O diferencial de juros realmente influencia os fluxos direcionados para economias emergentes, mas há uma observação ainda mais relevante: os próprios movimentos do dólar têm se tornado um dos principais determinantes para o comportamento do investidor estrangeiro.

Quando o dólar se valoriza globalmente, a disposição para correr riscos em mercados emergentes tende a se reduzir.

Esse detalhe é importante, pois evita uma explicação simplista de que “se a Selic caiu, o dólar sobe” — na verdade, a relação é mais complexa. O câmbio depende de diversos fatores, incluindo fluxo de capital, risco fiscal, políticas econômicas, balança comercial, crescimento, inflação, preços de commodities e a percepção global de risco.

O diferencial de juros é apenas uma das várias variáveis que influenciam essa dinâmica de mercado. No entanto, atualmente, algumas dessas variáveis estão começando a se alinhar.

Queda da Selic pode diminuir o interesse do estrangeiro pelo Brasil

Enquanto no cenário global se discutem juros em elevação, o mercado interno continua a projetar quedas. O Boletim Focus divulgado na última segunda-feira apontou uma nova redução na estimativa de inflação brasileira para 2026, que agora se encontra em 4,90%, e uma diminuição na expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), agora fixada em 1,89%. Para os próximos anos, a mediana das previsões dos economistas indica uma Selic de 12% ao final de 2027 e de 10,5% ao final de 2028.

Em outras palavras, se essas projeções se confirmarem, o Brasil passará os próximos anos reduzindo gradualmente sua remuneração, enquanto, pelo menos no presente, pressões estruturais empurram por juros mais altos nas principais economias globais.

Não argumento que o Banco Central deveria interromper a redução de juros para proteger o real. As políticas monetárias não funcionam dessa forma. Quando a inflação e a atividade permitem, os juros brasileiros podem e, provavelmente, devem ser reduzidos.

Contudo, minha preocupação reside na combinação de desvalorização cambial com inflação, resultante de um dólar mais elevado no futuro. Abordarei esse assunto mais claramente nas minhas plataformas sociais, em @vmiziara — fiquem atentos.

Nos últimos anos, o investidor brasileiro esteve atento a uma Selic de dois dígitos, questionando quando os juros finalmente começariam a cair. A questão primordial que deverá ser considerada daqui em diante não é apenas até onde a Selic vai cair, mas sim quanto o resto do mundo poderá estar pagando quando isso ocorrer.

Pois, se chegarmos a uma Selic de 12%, seguida de 10,5%, enquanto os Treasuries americanos continuam a oferecer taxas elevadas, o diferencial que tornou o Brasil atraente para parte do capital estrangeiro poderá diminuir. E, dessa forma, a contramão que o Brasil enfrenta pode ser refletida numa das variáveis que mais rapidamente indica essa diferença de expectativas: o câmbio, e, consequentemente, o valor do real.

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Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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