Deflação é pontual, mas ajudará o Banco Central a continuar cortando a Selic
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) registrou uma queda de 0,40% em agosto, beneficiado pela redução temporária da conta de energia elétrica devido ao bônus concedido pela usina de Itaipu.
Corte da Selic pelo Copom
O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, fixando-a em 13,75% ao ano, na última reunião antes das eleições. Apesar dessa diminuição, os juros permanecem elevados, o que mantém atrativos os investimentos em títulos pós-fixados e abre oportunidades para que investidores considerem a aplicação em títulos prefixados e atrelados à inflação.
Enquanto contas centrais de grandes economias seguem aumentando ou estabilizando suas taxas de juros visando conter a inflação, o Banco Central brasileiro adota um movimento oposto. Essa decisão se fundamenta em uma análise mais favorável da economia nacional, com economistas demonstrando maior confiança na desaceleração da atividade econômica e no avanço da redução da inflação desde agosto.
Queda do IPCA e Expectativas Futuras
O IPCA apresentou um retrocesso que o fez atingir 4,22% no acumulado dos últimos 12 meses até agosto, impulsionado pela diminuição temporária das tarifas de energia elétrica. Contudo, ainda existe uma preocupação em relação às expectativas de inflação, que permanecem acima da meta estabelecida de 3%. O Boletim Focus, que compila previsões de mercado, apontou projeções de 4,3% para o IPCA de 2027 e de 3,8% para 2028.
A força da atividade econômica também apresentou uma diminuição, com o Produto Interno Bruto (PIB) crescendo apenas 0,5% no segundo trimestre em comparação ao trimestre anterior e com o consumo das famílias caindo em 0,4% neste mesmo período. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que serve como uma referência mensal do PIB, caiu 0,2% em julho, conforme os dados dessazonalizados divulgados pelo Banco Central.
Mercado de Trabalho e Perspectivas
Apesar do cenário econômico, o mercado de trabalho demonstra resistência, com a taxa de desemprego caindo para 5,3% no trimestre encerrado em julho, um dos menores índices desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que teve início em 2012.
Embora os sinais de recuperação sejam promissores, o Banco Central mantém cautela frente a riscos potenciais. O crescimento do endividamento das famílias e a redução do consumo têm afetado o setor varejista mais do que o previsto. Além disso, a proximidade das eleições frequentemente aumenta a instabilidade no mercado, somando-se à possibilidade de um Super El Niño a partir de setembro, que pode impactar os preços de alimentos e serviços de energia.
Projeções para a Selic e Expectativas do Mercado
Para as próximas reuniões do Copom, o mercado prevê um novo corte de 0,25 ponto percentual, o que reduziria a Selic para 13,5% ao ano ainda neste ano. No entanto, os contratos futuros de DI indicam taxas variando entre 13,5% e 14% para os vencimentos entre 2027 e 2030, um sinal de que não há expectativa de uma redução drástica dos juros no médio prazo.
Como ficam os pós-fixados
Especialistas recomendam que os investidores que já aplicam em CDBs, Tesouro Selic e fundos DI não devem se apressar em mudar sua carteira. Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide, sugere manter uma parte significativa do portfólio nesses ativos, especialmente voltados para a reserva de emergência. Segundo Milene, uma Selic de 13,75% ainda proporciona um retorno significativamente relevante.
Ela aconselha, entretanto, uma transição gradual, sem concentração excessiva em apenas produtos pós-fixados, de forma a ampliar com cautela a participação em investimentos prefixados, atrelados ao IPCA e em crédito privado à medida que o ciclo de cortes se desenvolve.
Marcelo Freller, estrategista de investimentos do C6 Bank, compartilha de uma visão similar, ressaltando a necessidade de cautela, especialmente devido à proximidade das eleições e à alta dos preços do petróleo no exterior.
Investimentos em Prefixados e IPCA+
Para investidores que estão dispostos a aceitar variações, prefixados e títulos atrelados à inflação se posicionam como opções interessantes neste momento. O analista Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, destaca que há espaço para travar taxas favoráveis antes de um possível novo corte na Selic.
Os prazos mais atrativos, segundo Lima, estão entre 2028 e 2030 para os prefixados e por volta de 2032 para os títulos IPCA+, embora seja necessário ter cautela redobrada para vencimentos muito longos diante de um cenário fiscal incerto.
O economista Ciro Avelar, da Paribus Finanças, reforça a necessidade de cautela ao considerar prazos longos, observando que as curvas de juros futuros já apresentam taxas entre 13,5% e 14% para 2027 e 2030, indicando que o mercado não projeta uma queda acentuada dos juros no médio prazo.
Cuidado com o Crédito Privado
A inclusão de debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e fundos de crédito são opções que seguem na mira dos investidores. No entanto, os especialistas alertam para a necessidade de uma análise cuidadosa ao considerar esses produtos financeiros.
Avelar enfatiza a importância de verificar a composição dos fundos, já que muitas corretoras e bancos não detalham quais empresas estão presentes, o que pode levar o investidor a assumir riscos sem ter conhecimento. Ele destaca que investimentos em crédito privado não são garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), um benefício reservado apenas para CDBs, Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e Letras de Crédito Imobiliário (LCIs).
Dellatore, por sua vez, sugere que os investidores analisem o spread, ou seja, quanto o ativo remunera em comparação a um título de baixo risco. Se a diferença de retorno for pequena, pode não valer a pena assumir os riscos e a falta de liquidez associados a esses investimentos.
Oportunidades na Bolsa de Valores
A diminuição da Selic tende a beneficiar empresas que são mais sensíveis ao custo do crédito, conforme afirmam os especialistas. Lima cita os setores que costumam reagir de forma mais rápida a um ciclo de cortes nos juros, incluindo construção civil, shoppings, varejo, locadoras, infraestrutura e algumas pequenas empresas de capital aberto.
É importante ressaltar que a escolha de ações ainda depende do fundamento, geração de caixa e gestão da empresa, além do cenário da Selic. Freller observa que a Bolsa já incorpora parte das expectativas de cortes em seus preços, além de destacar que o resultado das eleições terá um peso significativo, assim como a taxa de juros, nas próximas semanas.
Em relação à composição de carteiras, Avelar sugere um plano defensivo, com maior empenho em títulos pós-fixados, dada a possibilidade de um aumento futuro na Selic. Ele sugere distribuir 60% em títulos pós-fixados, 20% em papéis vinculados à inflação, cerca de 15% em ativos prefixados e 5% em ações de empresas que possam manter estabilidade em eventuais crescimentos nas taxas de juros.
Lima, por sua vez, propõe uma distribuição semelhante, mas com um ligeiro otimismo em relação aos investimentos em ações, recomendando que 50% do portfólio seja alocado em renda fixa, dividida entre pós-fixados, prefixados e IPCA+, 15% em crédito privado, 20% em ações e os 15% restantes em investimentos internacionais e fundos imobiliários.
Divergências nas Conclusões dos Bancos
Até o momento da publicação dessa matéria, as instituições financeiras e consultorias demonstram uma falta de consenso total sobre o fim do ciclo de cortes. A mediana das expectativas para a Selic em dezembro deste ano caiu de 13,75% em 31 de julho para 13,50% até 15 de setembro, enquanto a previsão para dezembro de 2027 mantém-se em 12%.
Observando os grandes bancos, a maioria considera a Selic estável em 13,75% até o ano acabar, como é o caso de instituições como Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Santander, BTG Pactual, C6 Bank, Citi, Goldman Sachs, J.P. Morgan, HSBC e Deutsche Bank. Por outro lado, o Bank of America, Morgan Stanley e XP preveem um corte adicional, reduzindo a Selic para 13,25%. Em contrapartida, Banrisul e Rabobank projetam um aumento, levando a taxa a 14% até dezembro.
Fonte: www.estadao.com.br
