Investimento Internacional: Uma Abordagem Necessária para Diversificação
Mesmo diante dos juros elevados no Brasil e da alta rentabilidade de aplicações ligadas ao CDI, concentrar todo o patrimônio em ativos domiciliados no país não garante proteção contra possíveis riscos. Um estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) revela que essa concentração em ativos brasileiros expõe os investidores à inflação, oscilações da moeda, risco de queda dos juros e falta de diversificação. A pesquisa sugere que diversificar os investimentos com alocação no exterior pode ser uma estratégia eficaz para mitigar tais riscos.
Análise do Estudo
O estudo intitulado “Ir para o exterior é fundamental: por que a Selic alta não protege totalmente o patrimônio brasileiro”, foi conduzido por uma equipe de professores do Centro de Estudos em Finanças da FGV, incluindo Claudia Yoshinaga, Francisco de Castro Junior, Ricardo Rochman e William Eid Junior. Divulgada em 15 de agosto, a pesquisa se depara com o fato de que muitos brasileiros tendem a manter seu patrimônio no mercado interno devido a duas percepções: a crença de que investimentos fora do Brasil tendem a oferecer rendimento baixo e a ideia de que aplicações atreladas à Selic ou ao CDI são praticamente livres de risco.
No entanto, o estudo propõe uma nova perspectiva sobre essas crenças. Em suas análises, considera-se a questão da inflação. Por exemplo, ao avaliar R$ 100 investidos em CDI entre janeiro de 2000 e julho de 2026, o retorno nominal de 2.008% resultou em um saldo de cerca de R$ 2.108. Contudo, a inflação no mesmo período foi de 382%, o que, ao descontar seu efeito, leva o valor real a ser aproximadamente R$ 437, representando um retorno real acumulado de apenas 337%. Assim, mais de 75% do ganho nominal foi consumido pela inflação.
Outro aspecto abordado refere-se à moeda utilizada para medir o patrimônio. Para preservar o poder de compra em uma perspectiva global, é insuficiente avaliar o valor das aplicações em reais; é imprescindível também considerar o comportamento desses investimentos em moedas fortes.
Um exemplo ilustrativo envolve R$ 100 aplicados no CDI em dezembro de 1999. Esse montante se transformou em R$ 2.108 em julho de 2026, mas, quando medido em dólar, correspondeu a apenas R$ 743. Desde dezembro de 2004, o CDI acumulou rendimento de 799% em reais, enquanto obteve 370% em dólares. Desde dezembro de 2014, os rendimentos foram de 199% em reais e 56% em dólares.
Comparação com Créditos Americanos
Ao comparar a rentabilidade do CDI com crédito americano de classificação similar, os resultados variam dependendo do ano de referência. Nos casos de 1999 e 2004, o CDI em dólar teve uma performance superior, com 743% em comparação a 591% e 470% contra 393%, respectivamente. Em contraste, ao utilizar 2014 como base, o CDI ficou em desvantagem, rendendo 156% em vez dos 182% americanos. Uma constante em todas as análises, no entanto, é a oscilação: quando medidos em dólares, os rendimentos do CDI apresentam quedas em anos diversos.
A conclusão do estudo aponta que o CDI não é necessariamente um investimento de baixa performance, mas sua segurança está relacionada à estabilidade nominal em reais, o que pode não ser suficiente em um contexto de volatilidade global.
Risco de Reinvestimento
Um outro ponto discutido na pesquisa aborda a renda fixa no Brasil, onde a taxa disponível não assegura uma renda futura consistente. Por exemplo, se um investidor aplicar R$ 2 milhões em um investimento pós-fixado, considerando uma taxa de CDI de 14% ao ano, a expectativa de rendimento bruto fica em torno de R$ 280 mil anuais. Por outro lado, se essa taxa cair para 10%, o mesmo capital geraria R$ 200 mil, resultando numa diminuição de R$ 80 mil anuais — uma redução de 28,6%.
Optar por títulos prefixados não elimina o risco de reinvestimento. Se um investidor opta por travar uma taxa de 10% ao ano e as taxas de mercado posteriormente sobem para 14%, ele continuará recebendo a taxa acordada de 10%, mas perderá a possibilidade de taxas superiores em novos investimentos. Além disso, na eventualidade de necessidade de venda do título antes do vencimento, o investidor pode enfrentar perda de valor de mercado.
A Importância de Ter Uma Carteira Diversificada
Investir internacionalmente é uma maneira eficaz de diversificar a carteira, visto que o desempenho do dólar não depende dos ativos brasileiros. O estudo enfatiza que uma diversificação eficiente reduz o risco da carteira apenas se seus componentes não sofrerem perdas simultaneamente e por razões semelhantes.
De janeiro de 2011 a junho de 2026, o índice Ibovespa registrou retorno negativo em 84 de 186 meses analisados, totalizando 45,2% do período. Durante esses meses, a queda média no índice foi de 4,4%, enquanto o CDI obteve um rendimento médio positivo de 0,79%. Nas classes de ativos domésticos analisadas, nenhuma delas apresentou uma performance superior ao CDI nos 84 meses de declínio da Bolsa. Títulos indexados à inflação, comumente vinculados à proteção do poder de compra, tiveram retornos médios perto de zero e recuaram durante a metade desse mesmo período, indicando que falharam em proteger contra os reveses do mercado.
Dentre as classes de ativos domésticas, os EUA se destacaram, onde o dólar foi o único ativo que se valorizou em momentos de queda do Ibovespa, notando-se uma valorização média de 3,11% em relação ao real nos meses de baixa do índice.
Investir fora do Brasil também proporciona acesso a setores e teses que não estão disponíveis no mercado local, como as que envolvem tecnologia. Enquanto o setor tecnológico representa 35,1% do S&P 500, no Ibovespa ele representa apenas 0,7%.
Estratégias de Investimento em Dólar
A pesquisa conclui que a proteção do patrimônio é construída com disciplina e não com a escolha do “mês ideal” para investir em dólar, já que nem mesmo gestores profissionais conseguem prever de forma consistente os melhores momentos para entrar ou sair de investimentos.
Ao comparar 80 períodos de dez anos, a partir de 2010, foi possível observar que, nas avaliações realizadas, a estratégia de investir uma quantia em dólar mensalmente resultou em melhores resultados comparado à espera por um momento considerado propício para investimento. No final, aqueles que aportaram regularmente acumularam 9,2% a mais em patrimônio em comparação com aqueles que esperaram uma queda de 15% no dólar para realizar a aplicação.
Perspectiva de Menos Impostos e Maior Renda
Para investidores com ativos como imóveis, holdings familiares, dividendos, heranças, doações ou que estejam planejando se mudar do Brasil, o programa Tax Camp – Menos Imposto, Mais Renda é uma iniciativa que visa proporcionar conhecimento e estratégias sobre como administrar de forma eficiente os aspectos fiscais, permitindo assim uma redução dos impostos pagos e uma proteção e aumento do patrimônio.
Fonte: www.estadao.com.br
