Preocupações com a Valorização das Ações de Tecnologia
O mercado financeiro tem enfrentado, nas últimas semanas, uma série de preocupações relacionadas às avaliações das ações de tecnologia e à possibilidade de uma bolha em Inteligência Artificial (IA) em formação. No entanto, para Robert Rubin, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos e ex-co-chairman do Goldman Sachs, a complacência do mercado é uma questão mais profunda do que o debate atual sobre a sustentabilidade dos recordes de alta do mercado, que são sustentados por um pequeno número de ações de crescimento. Segundo ele, a discussão sobre o atual boom da IA e sua semelhança com a crise financeira ou a bolha da internet ignora o ponto central. Rubin sugere que a comparação histórica mais relevante é com outubro de 1987, conhecido como "Segunda-feira Negra".
Aumento da Dívida do Governo
Rubin tem expressado suas preocupações sobre os riscos que a economia dos Estados Unidos enfrenta em relação ao aumento da dívida pública e detalhou esses receios durante a Cúpula do Conselho de CFOs da CNBC em Washington, D.C., na quarta-feira.
Recentes estimativas do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) apontam que a dívida em posse do público deve atingir 99,8% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano fiscal de 2025, que é o dobro da média histórica de 51% registrada nos últimos 50 anos. Rubin ressaltou que a média de longo prazo esconde uma tendência que tem piorado nos últimos tempos, uma vez que em 2000 essa mesma proporção era de apenas 30%.
O CBO projeta uma elevação desse percentual em mais 20 pontos percentuais na próxima década, mas Rubin considera essa previsão otimista, afirmando que "estimates mais realistas" são consideravelmente mais altas.
Previsões do Laboratório de Orçamento de Yale
Rubin citou um estudo do Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale, que prevê uma relação dívida/PIB mais próxima de 130-140%, sem contar tarifas.
As consequências do aumento da dívida começam a ser percebidas apenas de forma sutil. O gasto contido em investimentos públicos e em segurança nacional, assim como alguns impactos nas taxas de juros, estão provavelmente associados ao peso da dívida, segundo ele. Rubin acrescentou que, de maneira muito limitada, a confiança dos negócios também pode ter sofrido um impacto negativo.
No entanto, as "consequências sérias finais," que Rubin acredita serem "altamente prováveis", dão a ele razões para voltar a outubro de 1987.
Lembranças de um Colapso Histórico
Durante a cúpula, Rubin se dirigiu ao público e enfatizou que há uma data que os investidores devem ter em mente: 19 de outubro de 1987. Segundo ele, durante anos que antecederam a queda do mercado em outubro de 1987, as condições eram consideradas "altamente excessivas" e, mesmo assim, constava-se que nada acontecia. Isso resultou em uma desatenção: "As pessoas pararam de ouvir," disse Rubin.
No dia fatídico, o Índice Dow Jones caiu mais de 22% em um único dia.
Vozes Atuais sobre a Bolha de IA
Atualmente, uma voz notável que se opõe à bolha de IA é Michael Burry, um vendedor a descoberto que recentemente encerrou seu fundo de hedge, mas começou uma newsletter para discutir suas opiniões. Burry alertou que, dentro de dois anos, a bolha das ações ligadas à IA pode se desmoronar.
Rubin destacou que, no dia fatídico de outubro, nenhuma ação específica provocou o colapso, exceto o fato de que "os mercados estavam desconectados da realidade".
Previsões para o Futuro Econômico
No contexto econômico atual, Rubin expressou que acredita haver uma "probabilidade bastante alta" de que serão necessárias ações para evitar consequências negativas, embora sua principal preocupação resida na dívida e não nas avaliações de IA. Ele mencionou a possibilidade de o governo tentar "inflacionar-se para fora" do problema, o que poderia incluir a monetização da dívida para financiar a compra de novos títulos. Ele enfatizou: "Mas o momento é impossível de prever." Rubin também observou que é possível que os mesmos erros continuem a ser cometidos, embora isso constitua uma "aposta extremamente insustentável".
A Complexidade da IA
Rubin também comentou que a questão da IA é complicada, especialmente para empresas como a OpenAI, que não possuem um modelo de receita e de lucro consolidado como os gigantes tecnológicos públicos, como o Google. Os vastos investimentos realizados atualmente em data centers "certamente apresentam alguns riscos identificáveis," afirmou.
"Eu não sei quais seriam as chances de um desfecho realmente difícil, mas é tudo muito complexo e realmente precisamos lidar com isso," disse Rubin.
Conceitos sobre a Gestão de Riscos
Em sua experiência à frente do Goldman Sachs, Rubin sempre incentivou sua equipe a ser "ativamente envolvida e totalmente engajada". No entanto, atualmente ele adota uma postura cautelosa devido a muitos riscos, que vão desde a dívida até questões geopolíticas. Ele ressaltou que "existem muitas maneiras de tudo isso dar errado, e não acredito que o sistema político esteja lidando bem com isso".
As estimativas do Laboratório de Orçamento de Yale sugerem que, para reduzir a atual relação déficit/PIB, que é de aproximadamente 7%, em 2,5%, seria necessário um conjunto de novas tributações e cortes de gastos — para reduzir essa proporção para 4,5%, seria razoável observar um corte de um meio por cento nos gastos e um acréscimo de 2% na receita tributária. Nesse contexto, Rubin sugere que seria viável estabilizar a relação dívida/PIB em 100%, ou seja, no nível atual, o que proporcionaria um cenário econômico mais positivo para o futuro.
Enquanto a administração Trump focou nas perspectivas de crescimento da economia como núcleo de seus planos, Rubin destacou que crescer para sair dessa questão de dívida e déficit exigiria taxas de crescimento "astronomicamente maiores do que qualquer coisa que seja realista." Ele concluiu: "Talvez isso nunca aconteça. Talvez simplesmente continuemos assim."
Rubin afirma que é mais inclinado a uma postura conservadora, baseando-se na necessidade de disciplina em torno de risco e recompensas. Ele conclui que isso o leva à convicção de que todos os riscos se materializarão de uma maneira mais, e não menos, séria. Para Rubin, "esse risco já é provavelmente bastante alto, mas quem sabe? Pode ser amanhã ou no futuro. Não acredito que haja uma maneira de fazer esse julgamento." Em relação à complacência do mercado, ele afirma que "tudo isso será relevante quando acontecer".
Fonte: www.cnbc.com