Trump e Xi estendem pausa nas tensões comerciais: quais são as implicações para o Brasil e os investimentos?

Trump e Xi estendem pausa nas tensões comerciais: quais são as implicações para o Brasil e os investimentos?

by Editoria Bolsa e Mercado
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Encontro entre Trump e Xi e prorrogação da trégua comercial

Nesta quinta-feira, 24, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu o presidente chinês, Xi Jinping, na Casa Branca. Essa foi a primeira visita de um líder chinês a Washington em onze anos. O encontro teve um início significativo, com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciando que a trégua comercial estabelecida em outubro do ano anterior, durante um encontro na Coreia do Sul, e que expiraria em 10 de novembro, foi prorrogada até 10 de janeiro de 2027.

Reflexões sobre a dinâmica do comércio internacional

Dois dias antes desse encontro, na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que, quando os governos se capitulam diante da imposição de tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são desastrosas. A mensagem transmitida em Nova York e em Washington é clara: o comércio internacional se transformou em um instrumento de poder, além de ser um simples canal de troca entre países.

Para os investidores brasileiros, é fundamental compreender essa transformação, que vai além de especulações sobre as declarações finais do encontro. Essa situação altera a percepção do risco geopolítico e identifica quais ativos podem servir como proteção contra essas incertezas.

O que a trégua entre Trump e Xi ainda não resolve

O prazo decidido por Bessent revela um ponto crucial: uma trégua inicialmente prevista para um ano agora se estende por apenas dois meses adicionais. O próprio secretário reconheceu que, até janeiro, as duas nações podem optar por um acordo mais abrangente ou prorrogar o prazo novamente. Essa incerteza persistente indica que o comportamento atual dos governantes sugere falta de clareza sobre o que cada um está disposto a negociar.

As medidas anunciadas junto à prorrogação da trégua reforçam essa leitura. O estabelecimento de um conselho bilateral com o objetivo de proteger bens de consumo de baixa tecnologia e produtos agrícolas, bem como um mecanismo para que os dois governos se comuniquem sobre incidentes graves envolvendo inteligência artificial, são, segundo a análise, ferramentas voltadas à gestão de conflitos e à prevenção de acidentes. Entretanto, questões centrais, como chips, terras raras e a situação em Taiwan, permanecem sem resolução. A Câmara de Comércio Europeia na China reconheceu a extensão da trégua, mas lembrou que ela não soluciona as dificuldades das empresas em obter licenças para exportação de terras raras, especialmente em um contexto onde a dependência ocidental é mais acentuada.

Na trégua anterior, firmada na Coreia do Sul, as tarifas médias americanas sobre produtos chineses foram reduzidas de 57% para 47%. Pequim, por sua vez, suspendeu restrições sobre terras raras e se comprometeu a retomar as compras de soja dos Estados Unidos. Cada lado eliminou algumas barreiras, mas a possibilidade de uma nova escalada permanece. Nesse contexto, a trégua se assemelha a uma pausa temporária, com as disputas ainda à espreita para retomarem o cenário.

Na guerra comercial, quem é mais dependente é quem mais perde

A sequência de tréguas que estamos observando revela que tarifas e controles de exportação se tornaram instrumentos de poder, alterando a maneira como os investidores devem interpretar o risco de um país.

O economista Albert Hirschman, em 1945, já indicava que quem mais depende de relações comerciais tem mais a perder em caso de rompimento. Esse raciocínio se aplica ao que Washington considera em relação aos chips e Pequim em relação às terras raras, cada um utilizando o insumo que o outro não consegue facilmente substituir no curto prazo. Essa dinâmica é reflexo do que os cientistas políticos Henry Farrell e Abraham Newman denominam de interdependência armada.

O Brasil já experimentou essa lógica em sua própria economia, como evidenciado pelo aumento das tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Além disso, uma investigação comercial aberta pelos Estados Unidos em 2025, que incluiu o sistema de pagamentos do Pix em suas práticas questionadas, ilustra que até mesmo inovações em infraestrutura pública estão sujeitas a essas tensões comerciais.

Nesse cenário, a declaração de Lula na ONU ganha relevância não apenas no campo diplomático, mas também no econômico, ao assegurar a resistência do Brasil às pressões de multinacionais que buscam a privatização de seu sistema de pagamentos. Para os investidores, essa situação revela que o risco geopolítico não se limita a guerras e sanções, mas também abrange decisões comerciais que podem impactar setores inteiros repentinamente.

Soja e terras raras: onde a disputa toca o Brasil

A disputa entre Estados Unidos e China tem um canal direto que se traduz nas exportações de soja, uma commodity que, em 2025, representou aproximadamente 74% do total importado por Pequim do Brasil, especialmente beneficiada pelo distanciamento nas relações entre China e Washington.

Com os compromissos firmados com os Estados Unidos, a China terá que adquirir 25 milhões de toneladas de soja americana anualmente até 2028, um aumento considerável em relação à meta anterior de 12 milhões. Esse cenário colocou a nação asiática em vias de atingir a metade do volume previsto para o corrente ano.

Cada tonelada comprada pela China dos Estados Unidos, por decisão política, significa uma tonelada a menos em disputa apenas por preço e qualidade. Isso indica que os produtores brasileiros começam a competir também pelo acesso a acordos diplomáticos.

Os números que estão em jogo para o Brasil

Os dados financeiros refletem a importância da China para o Brasil, que adquiriu US$ 100 bilhões em produtos brasileiros em 2025, com a soja representando mais de um terço desse total, conforme informações do Conselho Empresarial Brasil-China.

A reaproximação com os Estados Unidos já se manifesta na projeção de exportação de soja, que, segundo a Abiove, foi revista para baixo pela primeira vez no ano, passando de 115,4 milhões para 115 milhões de toneladas. Essa mudança se deve ao aumento das compras da China dos produtos americanos, numa clara estratégia que poderá impactar as relações comerciais brasileiras.

Se observarmos as trocas comerciais de janeiro a agosto, 70% da soja brasileira exportada foi destinada à China, e essa concentração torna cada tonelada negociada entre Washington e Pequim um risco para a balança comercial brasileira.

Outro aspecto relevante é o potencial do Brasil nas reservas de terras raras, que, apesar de seu estágio de produção ainda inicial, posiciona o país favoravelmente em um contexto onde Estados Unidos, Europa e Japão buscam fornecedores fora da China. Se Pequim decidir restringir novamente as exportações ao término da trégua, a demanda por projetos brasileiros relacionados a minerais críticos poderá aumentar. Essa situação afetaria tanto as empresas do setor quanto o investimento estrangeiro direto e até mesmo a política industrial do Brasil.

Não podemos desconsiderar os efeitos sobre o custo de capital. Quando as tensões entre as duas maiores economias do mundo se intensificam, investidores globais tendem a reduzir a exposição a mercados emergentes. No Brasil, essa realidade se reflete em oscilações na taxa de câmbio e nas taxas de juros, independentemente das condições econômicas internas. A prorrogação da trégua pode oferecer um alívio no curto prazo, mas dois meses são um intervalo diminuto para que investidores globais voltem a considerar o tema como resolvido, especialmente em um momento marcado pela incerteza que envolve um próximo processo eleitoral.

O preço da neutralidade brasileira

A estratégia do Brasil tem sido manter interações comerciais equilibradas com ambos os lados, evitando se alinhar a qualquer um deles. Em um mundo onde a interdependência armada é uma realidade, essa postura de neutralidade pode ter tanto um valor quanto um custo.

O valor se manifesta quando os dois gigantes se distanciam, e o Brasil se torna um fornecedor alternativo, como ocorreu com as exportações de soja em 2025. O custo, por sua vez, se torna evidente quando as nações se reaproximam e estabelecem acordos que redistribuem mercados com base em considerações políticas, ou quando uma delas exige um alinhamento que pode resultar na imposição de tarifas.

Por várias décadas, a globalização operou sob a premissa de que a eficiência dominava as cadeias produtivas. Atualmente, questões de segurança nacional começaram a dividir essa liderança, o que pode resultar em custos mais elevados, inflação de bens e uma valorização maior de ativos que preservam o poder de compra, independentemente das orientações políticas em questão.

Para os investidores, essa realidade se traduz na necessidade de diversificação geográfica real, com atenção especial à exposição em commodities agrícolas e minerais, além de um olhar cauteloso em relação a teses de investimento que supõem um comércio global aberto, cujo funcionamento já não é o mesmo de antes.

A trégua EUA-China vence na estreia do novo governo brasileiro

Uma coincidência significativa de calendário se apresenta para o Brasil: com a prorrogação, a trégua entre os Estados Unidos e a China estará agendada para expirar em 10 de janeiro de 2027, uma data que ocorre apenas cinco dias após a posse do novo presidente do Brasil, que pela primeira vez acontecerá em 5 de janeiro, em vez do tradicional dia 1º.

Esse cenário implica que quem assumir a presidência do país na nova gestão terá que lidar com a pressão de um cenário comercial sensível exatamente na semana em que o mundo estará atento à possibilidade de uma nova escalada ou acomodação nas relações entre as duas principais economias globais.

A política comercial e externa do Brasil, normalmente de pouca visibilidade nas campanhas eleitorais, poderá emergir como uma das primeiras e mais desafiadoras decisões do próximo governo, pois a margem para manter a neutralidade diminui quando os principais players começam a exigir escolhas definidas.

Hirschman abordou um mundo onde o comércio era moldado para antecipar conflitos. A realidade atual apresenta um risco mais sutil, pois o estado de guerra comercial pode se transformar em uma nova norma na economia global, elevando, assim, o preço dos ativos brasileiros, que passam a ser influenciados por decisões tomadas em esferas que não incluem a participação do Brasil.

Fonte: www.estadao.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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