O dólar fechou o mês de setembro cotado a R$ 5,17, enquanto o Ibovespa teve um aumento de 5,03%. Esse crescimento foi impulsionado pela volta dos investidores estrangeiros e pela expectativa em relação ao processo eleitoral. De acordo com os especialistas, o resultado das eleições e os primeiros sinais sobre a política fiscal desempenharão papéis cruciais na definição do comportamento da Bolsa e do câmbio durante o mês de outubro. A volatilidade nos mercados deve continuar, com ênfase nos setores de varejo e mineração. Os juros no Brasil e nos Estados Unidos também influenciam esse cenário, gerando atenção no mercado em relação ao ajuste fiscal que ocorrerá após as eleições.
Dólar e Ibovespa em Setembro
O dólar comercial encerrou a quarta-feira, dia 30 de setembro, último dia de negociações do mês, com a cotação de R$ 5,17, apresentando uma variação de 0,10% ao longo do mês. Já o Ibovespa, índice de referência da Bolsa de Valores brasileira, fechou em 186.340 pontos, com uma valorização acumulada de 5,03% durante o mesmo período.
Movimentações do Mercado
A recuperação dos investimentos estrangeiros e a expectativa de uma mudança positiva na política econômica, decorrente da eleição presidencial, foram fatores que proporcionaram um suporte significativo para as ações no mercado acionário. Em contraposição, a moeda americana alternou entre períodos de queda e alta, respondendo aos juros tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
Para o mês de outubro, os analistas preveem que a volatilidade nos dois ativos continue a ser uma característica, especialmente com o primeiro turno das eleições agendado para o próximo domingo, dia 4. Especialistas consultados indicam que os resultados das urnas e as declarações iniciais feitas pelos candidatos sobre o equilíbrio das contas públicas serão determinantes para a direção da Bolsa e do câmbio, assim como o ritmo dos cortes na taxa Selic e as futuras decisões do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.
A Importância da Eleição e do Investimento Estrangeiro
Impacto das Eleições no Mercado
A disputa eleitoral prevaleceu como tema central que influenciou o Ibovespa no mês de setembro, caracterizado por oscilações mais intensas. Segundo Lucas Xavier, que é chefe da mesa de renda variável e também sócio da AW Capital, o fluxo de investimentos estrangeiros foi positivo em mais de R$ 9 bilhões durante o mês, o que representa uma recuperação significativa após uma saída de R$ 18 bilhões em agosto. Ele observa que as variações bruscas de preços não devem ser interpretadas como sinais negativos.
“A volatilidade não é um indicativo negativo. Trata-se da medida da rapidez com que os preços se alteram, seja para cima ou para baixo. Em setembro, em um ano eleitoral, essa volatilidade é esperada, pois os investidores buscam se posicionar para os próximos quatro anos em relação às políticas públicas brasileiras”, destaca Xavier.
Bruno Perri, economista-chefe e um dos sócios fundadores da Forum Investimentos, relaciona o crescimento da Bolsa ao retorno dos investidores estrangeiros aproveitando um mercado que está subvalorizado e a percepção de que as candidaturas de direita têm chances mais promissoras.
Perri salienta que as perspectivas eleitorais exerceram uma influência considerável na Bolsa e nas curvas de juros, apesar da pressão gerada pelos juros americanos. Contudo, ele ressalta que não é fácil mensurar a contribuição individual de cada fator.
Análises Finais sobre a Bolsa
No final do mês, a leitura do contexto eleitoral passou a ser ainda mais relevante nas mesas de operação. Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, comenta que o mercado começou a definir faixas para prever os resultados do primeiro turno.
Segundo suas análises, uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com uma vantagem superior a 6 pontos percentuais tornaria praticamente inviável uma mudança de cenário, enquanto uma diferença entre 3 e 6 pontos ainda abriria espaço para uma reversão e uma margem abaixo de 3 pontos elevaria consideravelmente as chances de mudança na administração do poder.
“Parece que o mercado está internalizando esse momento: ‘se eu aplicar em alguns papéis agora, não tenho tanto a perder, pois posso mudar minha estratégia na segunda-feira’. O mercado está evitando ser surpreendido, seja por manter posições vendidas, seja por ter uma exposição reduzida”, explica Cima.
O analista ainda observa que essa dinâmica de exposição tem sido implementada principalmente por meio de opções sobre ações e sobre o índice, que limitam os ganhos, porém reduzem também o custo envolvido nas operações. Para Cima, essa disposição deve aumentar nos próximos dias e pode facilitar uma nova retomada da tendência de alta do Ibovespa.
Setores em Destaque: Varejo e Mineração
Varejo em Alta
As expectativas relacionadas a uma redução nas taxas de juros estão refletidas nas listas das maiores altas e baixas do mês, que variam conforme a análise de cada instituição. Entre os papéis mais valorizados, destacam-se Magazine Luiza (MGLU3) e Vamos (VAMO3), que foram mencionados pela maioria dos especialistas.
Perri explica que a valorização da varejista se deu em parte devido à autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que a venda de medicamentos pudesse ser realizada pela plataforma da empresa, enquanto a Vamos se beneficiou da redução da Selic e das projeções mais otimistas do Boletim Focus, que proporcionam um alívio para as empresas com dívidas elevadas.
O economista ainda aponta que a Azzas (AZZA3) teve um aumento acentuado com as expectativas em torno da venda da Farm Rio, e a Yduqs (YDUQ3) avançou consideravelmente após uma elevação dos preços-alvo pelo Bradesco BBI, além da possibilidade de fusão com a Afya. A Vibra (VBBR3) também ganhou destaque ao ser escolhida pelo Santander como a preferida entre as distribuidoras de combustíveis.
Setores em Queda
Por outro lado, na parte negativa, surgem CSN Mineração (CMIN3), Natura (NATU3) e Tenda (TEND3), que figuram entre as maiores quedas. Cima指出 que a mineradora enfrenta desafios relacionados ao preço do minério de ferro e ao custo do frete, o que restringe a margem operacional, enquanto Perri observa que a empresa está exposta ao mercado à vista.
A Vale (VALE3), mencionada por Xavier entre os papéis em queda, também segue esse trajeto em menor escala, segundo Cima, devido ao fato de ter uma frota maior e, assim, uma parte significativa de seus custos travados.
Entre as construtoras, Cima destaca que a greve da Caixa Econômica Federal tem impactado as operações do setor, embora haja otimismo em relação ao retorno das atividades normais, incluindo Cury (CURY3) e Direcional (DIRR3) nas quedas. Perri aponta que a desaceleração da Tenda está relacionada à abertura da curva de juros no início do mês.
Adicionalmente, Cima ressalta que a Natura está enfrentando desafios relacionados ao modelo de operações através de suas vendedoras, já que as mudanças na plataforma, provocadas pela reforma tributária, estão dificultando a recuperação da empresa.
Perri também menciona a CSN (CSNA3), que exibe uma dívida líquida de R$ 42 bilhões e uma alavancagem de 3,5 vezes, somada a um plano de venda de ativos que está parado, e a RD Saúde (RADL3), que está alavancada pela entrada do Mercado Livre (MELI34) no segmento de vendas de medicamentos sob prescrição.
Expectativas para Outubro: Juros e Resultado Eleitoral
Projeções para o Mês
Para o mês de outubro, a trajetória da taxa de juros e os resultados eleitorais dividem a atenção dos investidores. Cima ressalta que o Boletim Focus indica que a Selic deve ficar perto de 11% até 2028, enquanto a parte intermediária da curva de juros mantém-se em torno de 14%, resultando em um descompasso de quase 300 pontos base.
Na visão do analista, parte dessa diferença poderá ser ajustada, dependendo dos resultados eleitorais e das sinalizações relacionadas à política fiscal do próximo governo. “A cada 100 pontos de movimentação na curva, é plausível pensar em uma alta potencial de 7% para o Ibovespa e de 11% a 12% para o índice de small caps. Observando a discrepância entre as small caps e o Ibovespa, é raro testemunhar uma variação tão significativa”, afirma Cima.
O analista ainda aponta que o barril de petróleo voltou a superar a marca de US$ 100 e que as pressões sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foram levemente revistas para cima. Mesmo assim, acredita que as empresas que estão altamente endividadas e que têm uma forte representação no índice de small caps poderão atrair um novo fluxo de investimentos caso os juros futuros sejam reduzidos.
Para Xavier, o resultado das eleições será fundamental a curto prazo, e uma redução nas taxas de juros pode favorecer as empresas que possuem elevados níveis de endividamento. “O mercado demanda ajustes fiscais, corte de despesas públicas e diminuição nos juros para que se observe um desempenho significativamente positivo para a economia e, consequentemente, para o Ibovespa”, ressalta.
Entre as ações que são mais suscetíveis às variações da taxa de juros, ele menciona empresas com alta alavancagem atreladas ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI) e aquelas relacionadas ao setor de construção civil e crédito, como Cyrela (CYRE3), Tenda (TEND3), Localiza (RENT3) e Smart Fit (SMFT3).
Do ponto de vista eleitoral, Banco do Brasil (BBAS3) é considerado por Xavier como a ação mais volátil, já que, sendo uma estatal, seu preço reflete a percepção do mercado em relação aos resultados das eleições. Para companhias exportadoras, como Embraer (EMBJ3), Suzano (SUZB3) e WEG (WEGE3), uma desvalorização do real pode ser benéfica.
Perri, no entanto, adota uma postura mais cautelosa em relação ao efeito imediato das eleições, argumentando que a atenção inicial deve estar voltada à vitória de um candidato e que as diretrizes mais claras sobre a política econômica devem emergir apenas após a votação.
“Os setores de varejo, construção e empresas com alto nível de endividamento serão mais impactados pelas mudanças nos juros, uma vez que dependem do crédito e do consumo. Companhias exportadoras, tais como Vale, Suzano e Klabin, possuem uma exposição importante ao câmbio, embora os preços internacionais e os custos de produção sejam determinantes para seus resultados”, avalia.
Para estatais e empresas concessionárias, Perri recomenda a monitorização das propostas apresentadas pelos candidatos. “Empresas como Petrobras e Banco do Brasil necessitam de atenção em relação às sinalizações sobre governança e atuação do controlador. Nos setores de infraestrutura e serviços regulados, o foco deve estar nas propostas de tarifas, concessões e investimentos. Essa exposição denota a sensibilidade aos acontecimentos, mas não estabelece uma previsão automática de alta ou baixa”, finaliza.
Movimentos do Dólar em Setembro
Variação da Moeda
Os mesmos fatores que influenciaram a Bolsa de Valores também movimentaram o câmbio durante o mês de setembro. O dólar começou o mês cotado a R$ 5,1550 e atingiu a mínima de R$ 5,0885 no dia 8. Posteriormente, a moeda americana subiu até o seu pico de R$ 5,2234 no dia 28, que representa o maior nível ao longo do ano, em meio a um cenário internacional cauteloso, ao aumento dos preços do petróleo e às incertezas internas.
No dia 29 de setembro, o dólar fechou cotado a R$ 5,2032, perdendo parte dos ganhos alcançados anteriormente. A variação entre a mínima e a máxima ao longo do mês foi de 2,65%, correspondendo a uma diferença de aproximadamente R$ 0,13.
“Ao longo de setembro, a moeda experimentou diversas oscilações, mas sem conseguir estabelecer uma tendência definida. Esse cenário ocorreu porque dois grupos de forças ficaram em equilíbrio ao longo de todo o mês”, afirma Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.
De acordo com Kayo, de um lado, a moeda brasileira foi sustentada pelo diferencial de juros favorável, com a Selic em níveis altos, o que atraiu investimentos para o carry trade (estratégia que envolve tomar crédito em países com juros baixos e investir onde as taxas são mais altas) e pela entrada de capitais estrangeiros na Bolsa, especialmente em ações de commodities, como as da Petrobras (PETR4) e da Vale. A deflação observada no IPCA de agosto também desempenhou um papel positivo nesse contexto.
Do outro lado, no entanto, o Fed elevou os juros em setembro, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) atingiram os maiores patamares em anos e os preços do petróleo oscilaram em meio a tensões no Oriente Médio, o que fortaleceu o dólar globalmente.
Conforme o economista, as eleições causaram uma volatilidade pontual em determinados dias, mas sem que isso se transformasse em uma tendência, pois as pesquisas ao longo do mês não trouxeram surpresas significativas.
Expectativas para o Câmbio em Outubro
Perspectivas Futuras
Esse equilíbrio de forças deverá persistir em outubro, com a atenção dos investidores centrada na combinação de taxas de juros. Kayo ressalta que o Fed elevou as taxas de juros norte-americanas para a faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano, adotando uma postura mais rígida no combate à inflação, em um mercado de trabalho que permanece robusto nos Estados Unidos. Os investidores agora esperam um ciclo de restrição monetária mais longo do que se temia algumas semanas atrás.
No Brasil, enquanto o Banco Central (BC) prossegue com os cortes na Selic, que atualmente está em 13,75%, o ritmo dessas reduções poderá ser restringido por diversos fatores, conforme apontam os analistas. Entre esses fatores estão o mercado de trabalho aquecido, evidenciado pelos dados de agosto da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), as expectativas de inflação que estão desancoradas, os riscos fiscais e o impacto do câmbio mais elevado nos preços.
Kayo explica que essa combinação tende a estreitar o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos e a diminuir o apelo do carry trade, mesmo que os juros reais brasileiros continuem em níveis altos, atraindo capital.
A eleição, por sua vez, deverá intensificar a volatilidade do câmbio ao longo de outubro. “O mercado está percebendo uma cautela maior e uma seletividade nas decisões. Até agora, as pesquisas não revelaram grandes surpresas, o que ajudou a conter reações mais intensas do dólar, mas essa situação pode mudar rapidamente”, afirma.
O economista ressalta que os sinais com potencial para alterar as expectativas incluem mudanças significativas nas pesquisas e qualquer indicação sobre como os candidatos pretendem realizar o ajuste fiscal após as eleições, que é uma das principais preocupações dos investidores.
Eventos institucionais, como decisões judiciais envolvendo candidatos, também influenciam o cenário. Segundo a leitura de Kayo, quanto mais as urnas apontarem para um caminho de responsabilidade fiscal, menor será o prêmio de risco embutido na cotação do dólar.
Fonte: www.estadao.com.br
