Zelenskyy se mostre aberto a propostas de paz
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, afirmou na quinta-feira que a cidade de Kyiv está "preparada para um trabalho claro e honesto" no desenvolvimento de um plano de paz para encerrar a guerra do país contra a Rússia. Isso ocorreu após a apresentação de propostas preliminares por delegados dos Estados Unidos.
Propostas de Acordo Secreto
Na terça-feira, o Axios relatou que um acordo de paz secreto estava sendo elaborado entre Washington e Moscovo, com algumas mídias sugerindo que um avanço poderia estar próximo. Contudo, o Kremlin declarou na sexta-feira que a Rússia ainda não recebeu comunicações oficiais dos EUA sobre o plano, segundo a agência de notícias Reuters. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, mencionou, entretanto, que Moscou estava aberto a negociações.
Em uma publicação na rede social Telegram, Zelenskyy disse que se reuniu com uma delegação de alto nível dos Estados Unidos na quinta-feira e teve "uma conversa muito séria".
Conteúdo do Plano de Paz
"O lado americano apresentou suas propostas – os pontos de um plano para encerrar a guerra – a sua visão", afirmou ele. O plano de paz, que contém 28 pontos elaborados pelos EUA e pela Rússia, inclui propostas para que a Ucrânia renuncie a território em sua região oriental de Donbas e reduza suas forças armadas pela metade, entre outras condições.
Zelenskyy, que anteriormente rejeitou a ideia de que Kyiv poderia ceder terras a Moscou em troca de paz, insinuou na sua postagem de quinta-feira que sua posição sobre a manutenção das fronteiras ucranianas permanece inalterada. "Desde os primeiros dias da guerra, mantivemos uma posição muito simples: a Ucrânia precisa de paz… com termos que respeitem nossa independência, nossa soberania e a dignidade do povo ucraniano", declarou.
O presidente ucraniano também disse: "Defini nossos princípios fundamentais. E concordamos que nossas equipes trabalharão nessas propostas para garantir que tudo seja genuíno… Estamos preparados para um trabalho claro e honesto — Ucrânia, Estados Unidos e nossos amigos e parceiros na Europa e ao redor do mundo."
A Necessidade de Participação Europeia
Kaja Kallas, chefe da política externa da União Europeia, pediu que a Europa tenha um espaço nas negociações enquanto os planos de paz são debatidos. "Nessa guerra, há um agressor e uma vítima. Até agora, não ouvimos nenhuma concessão por parte da Rússia", declarou ela a repórteres.
Zelenskyy acrescentou em sua declaração na quinta-feira que Kyiv "não fará declarações bruscas" e espera conversar com o presidente dos EUA, Donald Trump, nos próximos dias. "Estamos plenamente cientes de que a força e o apoio da América podem realmente aproximar a paz, e não queremos perder isso", afirmou.
Ele acrescentou que os Estados Unidos têm o poder de garantir que a disposição da Rússia de encerrar a guerra torne-se genuína. "Continuarei trabalhando para isso a cem por cento", concluiu.
Rustem Umerov, secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia, informou na sexta-feira que as conversas estavam em andamento com uma delegação dos EUA em Kyiv. "Estamos revisando cuidadosamente todas as propostas de nossos parceiros e esperamos o mesmo tratamento respeitoso em relação à posição da Ucrânia", disse em uma publicação na plataforma X. "Estamos trabalhando minuciosamente nas propostas de nossos parceiros dentro dos princípios inalteráveis da Ucrânia — soberania, segurança de nosso povo e paz justa."
Críticas ao Plano de Paz
Guntram Wolff, pesquisador sênior do Bruegel, expressou sua opinião ao CNBC na edição "Europe Early Edition" na sexta-feira, dizendo que o acordo é improvável de ser aprovado em sua forma atual. "Quando vi os detalhes desse plano de paz… realmente não acho que ele possa funcionar, porque no cerne, o que ele diz é que a Ucrânia deve abrir mão de partes significativas de seu pessoal militar, o que significa que o número de militares diminuiria de algo em torno de 900 mil para 600 mil, e não haveria tropas da OTAN na Ucrânia", afirmou.
Segundo ele, isso deixaria a Ucrânia totalmente vulnerável a um novo ataque por parte da Rússia em um futuro próximo — e sabemos como isso aconteceu no passado. "Há um certo tipo de cessar-fogo, e dentro de alguns meses, a Rússia pode decidir reataque", alertou. "Acho que realmente, se quisermos um plano de paz, ele precisa ser um onde a Ucrânia tenha força e capacidade para se defender, se necessário."
Opiniões Adicionais sobre a Questão
Enquanto isso, Michael O’Hanlon, diretor de pesquisa de política externa do Instituto Brookings, também comentou de forma desfavorável sobre o proposto plano de paz durante o "Power Lunch" da CNBC na quinta-feira. "Abrir mão de qualquer terra voluntariamente quando a Rússia já roubou 19% da Ucrânia desde 2014 parece completamente ilegítimo", disse.
Ele ressalta que é uma coisa ser pragmático e afirmar que não conseguiremos ajudar a Ucrânia a repelir os ganhos russos e, portanto, tentar apenas acabar com a matança. "É algo completamente diferente fazer com que as reivindicações da Rússia pareçam legítimas e ceder algumas delas quando elas nem mesmo foram conquistadas no campo de batalha", comentou.
Desde 2014, a Rússia invadiu e anexou a Crimeia, uma península no sul da Ucrânia. O’Hanlon argumentou que a concessão de território não é "o pior" das propostas de paz que os EUA e a Rússia supostamente apresentaram.
Ele indicou ainda que a proposta mais preocupante, segundo os relatos disponíveis, seria o fato de que a Ucrânia ficaria severamente limitada em sua capacidade de fazer escolhas sobre sua própria defesa no futuro. "Eu não tenho problema com o presidente Trump dizendo que a Ucrânia não deve se juntar à OTAN", admitiu. "Mas é algo completamente diferente negar à Ucrânia a capacidade de construir suas próprias defesas, quando, de fato, a Rússia tem sido o agressor nesta guerra e poderia ser um agressor em uma futura guerra."
Fonte: www.cnbc.com