14 instituições de previdência investem em fundo imobiliário do Master que teve desvalorização de 70% no mercado.

Investigação do Macam Shopping FII

Em janeiro, foi revelado que ao menos R$ 100 milhões do patrimônio do Macam Shopping FII (BLUE11) provinha de diversos fundos previdenciários. Entre eles estão Angraprev, CAPSECI, Guarujaprev, Ilhabelaprev, o Instituto Municipal de Previdência de Salto de Pirapora, IPREM Pouso Alegre, IPREMB, IPREM-Posse, Instituto de Previdência do município de Silva Jardim (IPSJ), Mesquitaprev, Pinhais Previdência, Previscam, Serpros e Votoprev.

A responsabilidade de garantir que o fundo operasse em conformidade com as normas do mercado recaía sobre a Master Corretora, que foi contatada, mas optou por não comentar a situação. A gestora BlueMac, anteriormente conhecida como Master Capital Asset, era a responsável pela escolha dos ativos a serem adquiridos pelo Macam.

Crise no Banco Master

A Master Corretora pertence ao Banco Master, cuja liquidação foi decretada pelo Banco Central em 18 de novembro devido a uma “grave crise de liquidez” e a “violações às normas” estabelecidas pelo sistema financeiro nacional. O presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero, que investiga práticas de gestão fraudulenta.

Desde o ano anterior, o mercado vinha questionando a sustentabilidade da instituição financeira, que cresceu consideravelmente após uma emissão agressiva de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs). Parte do montante angariado, no entanto, foi direcionada a fundos de baixa liquidez e ativos pouco convencionais, conforme apurado pelo Estadão.

Envolvimento de Acionistas

Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, também atuou como acionista da BlueMac até o início de novembro, através do fundo Jaguar FIP. O Instituto de Previdência Silva Jardim, ao ser procurado, declarou que “observa a situação com grande preocupação”. Por sua vez, o Serpros, entidade de previdência complementar do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), não comentou sobre ativos específicos da carteira, sugerindo buscar esclarecimentos junto aos gestores do Macam. Os demais fundos previdenciários não se pronunciaram.

Contas Reprovadas e Questionamentos

Além da desvalorização em 2025, o Macam Shopping FII teve suas contas de 2024 reprovadas por 68% dos cotistas presentes na deliberação. A votação foi registrada em ata publicada nos sistemas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no final de setembro. Isso indica que os investidores não aceitaram os relatórios financeiros apresentados pela gestora, que agora precisa responder aos questionamentos e submeter novamente os dados à análise dos cotistas.

Um grupo de fundos de previdência, não identificados no documento, buscava esclarecimentos sobre transações financeiras envolvendo o principal ativo do Macam Shopping, a Blue Malls S.A., empresa de capital fechado voltada para investimentos em shopping centers.

Empréstimos e Dificuldades Financeiras

No centro das discussões estão diversos empréstimos e financiamentos feitos pela Blue Malls. Até o final do ano passado, a empresa acumulava dívidas de R$ 184,2 milhões, parte delas com juros quase em torno de 30% ao ano (CDI+12,68% ao ano). Em junho deste ano, a sociedade contraiu um novo empréstimo de R$ 33 milhões.

Apesar do aumento do endividamento para levantar capital, a Blue Malls renunciou a uma participação avaliada em R$ 130 milhões no Shopping Boulevard Brasília, o maior investimento da empresa, para quitar dívidas. Essa transação, categorizada como “dação em pagamento” — onde um ativo é usado em vez de dinheiro para reduzir dívidas — foi interpretada como pouco transparente pelos cotistas, conforme a ata publicada na CVM.

Outro ativo sensível para a Blue Malls é o Shopping Praça das Dunas. Embora sua participação no empreendimento tenha sido avaliada em R$ 282 milhões nas últimas demonstrações financeiras, o Praça das Dunas ainda não foi inaugurado, com o projeto sendo anunciado em meados de 2013 para a área de Parnamirim (RN).

A conexão entre o Banco Master e os institutos de previdência despertou a atenção dos investidores em outubro, quando o Rioprevidência, que cuida das aposentadorias dos servidores públicos do Rio de Janeiro, foi impedido pelo Tribunal de Contas do estado (TCE-RJ) de investir em ativos relacionados à instituição financeira.

O Rioprevidência possuía R$ 1 bilhão em títulos do Master sem a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e havia investido em fundos geridos pelo Banco Master, considerados pelo TCE-RJ como pouco transparentes e sem um histórico relevante de operação. Um desses fundos, denominado “Revolution”, era também cotista do Macam Shopping.

Sobre o Fundo Macam

O Macam Shopping foi criado em 2012, inicialmente como um fundo de investimento em participações (FIP) sob a administração da Planner Corretora. Na época, Maurício Quadrado, ex-sócio do Master e da BlueMac, era acionista da Planner, junto a Carlos Arnaldo, que ainda permanece na empresa. Ambos não comentaram a situação até a publicação deste texto.

No seu início, o fundo era fechado para resgates e tinha um prazo de 10 anos. Isso significava que aqueles que investissem logo no início das operações só teriam acesso ao dinheiro após uma década, um risco assumido por alguns institutos de previdência, incluindo Serpros, Instituto Salto de Pirapora, IPREM Pouso Alegre e IPREMB, ao aplicarem capital no Macam entre 2012 e 2013.

Por ser restrito a resgates e composto por uma única empresa de capital fechado, o Macam logo chamou a atenção das auditorias dos fundos de previdência.

Ação Judicial

O IPREM Pouso Alegre está processando há cinco anos diretores anteriores por terem conduzido investimentos em fundos considerados “fraudulentos e desvantajosos” entre 2012 e 2018, que causaram perdas superiores a R$ 140 milhões ao instituto, de acordo com documentos do processo acessíveis à reportagem. O Macam Shopping, que já foi conhecido como “Realesis FIP”, “Usina Invest Malls FIP” e “LA Shopping FIP”, é mencionado entre esses fundos. A ação ainda está em andamento e está na fase de citação dos acusados, conforme apurado pelo E-Investidor.

A Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) multou em mais de R$ 200 mil quatro ex-diretores do Serpros por conduzir investimentos em desacordo com as normas do setor, destacando o investimento inicial de R$ 50 milhões no Macam. O processo da Previc indicava uma ligação entre os ativos do fundo e o falido Banco BVA, que teve a liquidação decretada pelo Banco Central devido a suspeitas de desvios de recursos e fraudes em fundos de pensão.

Em 2023, o fundo de investimento em participações foi transformado em um fundo imobiliário, com as cotas passando a ser negociadas em Bolsa apenas no início deste ano.

De acordo com a BlueMac, a Master Corretora deve ser substituída por outra administradora devido à liquidação declarada pelo Banco Central. Em uma nota enviada aos cotistas do Macam e à reportagem, a gestora afirma estar em “fase avançada” de negociações com instituições aptas para assumir a administração, embora não tenha revelado os nomes dessas instituições.

Estrutura de Cotistas

Além das 14 entidades de previdência mencionadas pelo E-Investidor, o Macam conta com outros cotistas. Um deles, até junho, possuía mais de 40% do capital do Macam, conferindo-lhe maior poder de decisão em assembleias. Este “investidor” é o Máxima Crédito Privado 2, outro fundo gerido pela Master Corretora.

Posicionamentos dos Envolvidos

Posicionamento de Felipe Separovic Rodrigues, CEO da BlueMac

O CEO da BlueMac, Felipe Mota Separovic Rodrigues, defende que o fundo Macam Shopping tem mostrado uma evolução consistente em seus indicadores. Segundo ele, o patrimônio do fundo cresceu de aproximadamente R$ 70 milhões em 2021 para mais de R$ 473 milhões em outubro de 2025. Não há demonstrações financeiras disponíveis publicamente para o período anterior a 2022.

Rodrigues alega que a desvalorização das contas é consequência de vendas realizadas por um único cotista a valores inferiores ao justo. Esse cotista, cuja identidade não foi revelada, estaria tentando reduzir sua participação no fundo, aceitando negociar as cotas a preços mais baixos.

A BlueMac enfatiza em nota que não integra o conglomerado do Banco Master e que a liquidação da Master Corretora não afeta o patrimônio do Macam.

Posicionamento do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do município de Silva Jardim (IPSJ)

O IPSJ informou ao E-Investidor que está investindo no fundo desde 2018, quando o Macam Shopping era ainda um FIP. No entanto, em 2024, o fundo foi convertido em um fundo imobiliário com cotas negociadas em Bolsa e, portanto, sujeitas às flutuações do mercado.

“Como cotistas, estamos acompanhando a situação com grande preocupação, pois não investimos nesse perfil de fundo originalmente”, afirma o instituto. “Além disso, considerando que se trata de um fundo ilíquido e atualmente desvalorizado, optamos por monitorar a situação sem resgatar as cotas neste momento para evitar a realização do prejuízo, aguardando um momento mais propício”, conclui.

O IPSJ expressou sua crença de que “caso ocorram irregularidades”, os órgãos reguladores devem tomar as devidas providências para proteger os cotistas. “É fundamental que o mercado ofereça mecanismos de proteção, transparência e segurança, principalmente em um segmento em crescimento. Seguimos, portanto, atentos aos desdobramentos”, finaliza o IPSJ.

Fonte: einvestidor.estadao.com.br

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