Cuidar dos investimentos é uma tarefa complexa, pois envolve não apenas a busca por informações detalhadas, mas também aspectos emocionais, disciplina e decisões que devem ser tomadas em meio a incertezas. Em períodos de volatilidade no mercado, é comum que os investidores sintam ansiedade e insegurança em relação a suas carteiras. No entanto, muitos não conseguem identificar que a chave para o sucesso pode estar em comportamentos que frequentemente ficam fora de foco.
O poder de (quase) não fazer nada
Há um mito no mercado financeiro que sugere que um bom investidor é aquele que realiza transações de compra e venda de ativos de maneira intensa. Contudo, diversas evidências e estudos demonstram que investidores que operam com menos frequência tendem a obter resultados superiores. Diego Endrigo, planejador financeiro CFP pela Planejar, observa que a movimentação excessiva nas carteiras resulta em um desempenho inferior, uma vez que as decisões costumam ser guiadas por impulsos emocionais em momentos de estresse.
Esse fenômeno pode ser atribuído ao timing imperfeito do mercado, que se refere ao erro de entrar e sair de posições em momentos inadequados, além dos custos e da tributação recorrente envolvidos. Endrigo afirma que uma menor frequência de transações, quando baseada em uma fundamentação sólida, tende a trazer benefícios.
Virgínia Izabel de Oliveira, coordenadora técnica da especialização e professora associada da área de finanças da Fundação Dom Cabral (FDC), complementa essa visão, afirmando que estratégias de longo prazo geralmente geram resultados mais vantajosos. O tempo atua como um fator que ajuda a diluir os riscos e a reduzir a influência dos ruídos de curto prazo, que frequentemente distorcem a percepções do investidor.
É só investir e deixar o dinheiro rendendo?
No entanto, Virgínia destaca um alerta importante: investir com uma perspectiva de longo prazo não deve ser confundido com inércia. Essa abordagem requer uma disciplina que inclui revisões criteriosas. Endrigo compartilha dessa opinião, reforçando que disciplina não implica inação, mas sim agir com racionalidade em vez de se deixar levar por impulsos.
Os especialistas concordam que a estratégia de investimento deve ser revisada sempre que ocorrerem mudanças significativas no cenário macroeconômico, alterações nos fundamentos dos ativos ou modificações nos objetivos pessoais do investidor.
Comportamentos que valem ouro
Diversas atitudes simples indicam que o investidor está no caminho correto. Ter clareza em relação aos objetivos financeiros pode melhorar significativamente a tomada de decisão, seja para a construção de patrimônio, para aposentadoria ou para geração de renda, afirmam os especialistas. A consistência nas contribuições financeiras também é considerada um comportamento extremamente positivo. Investir regularmente, independentemente das condições do mercado, ajuda a diluir os riscos associados à tentativa de acertar o momento ideal para fazer transações, segundo Endrigo.
Além disso, proteger-se do barulho externo e evitar seguir a “manada” é essencial. Não se desviar da estratégia original apenas por influência de decisões de terceiros demonstra um nível de maturidade financeira, segundo Virgínia. A saturação de informações também pode ser prejudicial, uma vez que o acompanhamento excessivo do mercado gera ansiedade, levando o investidor a tomar decisões precipitadas. Virgínia ressalta que quem investe sabiamente compreende que não existem investimentos milagrosos e sabe que risco e retorno caminham sempre juntos.
Como avaliar se a carteira está boa?
Para determinar se os investimentos estão apresentando um bom desempenho, não bastará olhar apenas para a rentabilidade isolada. Endrigo destaca que uma carteira de qualidade deve ser avaliada em função da sua compatibilidade com o perfil de risco do investidor, do alinhamento com os objetivos previamente estabelecidos e da eficácia na relação entre risco e retorno. Na parte de renda fixa, o CDI serve como um parâmetro de referência que geralmente acompanha de perto a Taxa Selic. Alcançar 100% do CDI resulta na captura da taxa básica de juros da economia, o que, em condições normais, proporciona um ganho real superior à inflação.
Por outro lado, Virgínia alerta que é necessário ter cuidado em relação a ofertas que prometem retornos muito superiores à média do mercado. Segundo ela, retornos elevados estão frequentemente relacionados a riscos maiores, especialmente no que se refere ao risco de crédito. Endrigo enfatiza que a análise deve ir além de “quanto rende”, abrangendo também “quanto rende para o risco assumido”.
Como começar a agir de forma estratégica
Se você percebeu que ainda não possui os comportamentos ideais, saiba que é possível reestruturar sua abordagem e começar a investir de maneira mais profissional. O primeiro passo é abandonar a postura reativa e adotar uma realmente estratégica.
Na prática, isso significa estabelecer metas financeiras que sejam claras, além de formular uma alocação de ativos que esteja alinhada com essas prioridades. O investidor deve então criar uma rotina disciplinada de aportes mensais e esforçar-se para que as notícias de curto prazo não extravasem a lógica de suas decisões de investimento.
Por último, contar com a orientação de um profissional do mercado, como um assessor ou planejador, pode fazer uma diferença significativa na avaliação de ideias, na análise de premissas e no acompanhamento da evolução das projeções econômicas, conforme recomendado pelos especialistas.
Fonte: borainvestir.b3.com.br