Debate sobre Relatórios Trimestrais
Com alguns cliques em seu teclado e uma postagem em uma rede social, o presidente Donald Trump reativou um debate antigo sobre as vantagens dos relatórios trimestrais de lucros. Essa resolução pode ter implicações significativas para os investidores. A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) está atenta às preocupações levantadas pelo presidente. Na manhã de segunda-feira, após o pronunciamento de Trump na plataforma Truth Social — no qual ele defendia que a SEC abolisse a exigência de relatórios trimestrais em favor de relatórios semestrais — o órgão regulador afirmou em comunicado estar "priorizando essa proposta, a fim de eliminar encargos regulatórios desnecessários sobre as empresas".
Contexto Histórico
A ideia de relatórios semestrais não é nova. Esses relatórios são o padrão na Europa e foram utilizados nos Estados Unidos entre 1955 e 1970, até que a SEC passou a exigir os relatórios trimestrais vigentes atualmente. A discussão sobre os padrões de divulgação de lucros — e se estes promovem um pensamento problemático de curto prazo — ganhou destaque em 2018, durante o primeiro mandato de Trump na Casa Branca. Em junho daquele ano, Warren Buffett, considerado o investidor de longo prazo mais famoso da história, e Jamie Dimon, CEO influente do JPMorgan, coassinaram um artigo de opinião no The Wall Street Journal criticando a prática de empresas que divulgam previsões de lucros trimestrais. Em agosto, Trump foi além e defendeu a adoção de relatórios a cada seis meses. No entanto, sua proposta não ganhou força na época. Agora, ela voltou à tona.
Chances de Mudança
Em uma nota aos clientes na terça-feira, estrategistas da Wolfe Research estimaram as chances de sucesso da proposta em mais de 50%, embora alertassem que a mudança não ocorrerá rapidamente, conforme o protocolo padrão da SEC para alteração de regras. "O processo para implementar essa mudança deve se estender até a segunda metade de 2026, se não além disso, e há uma chance de que tudo se desfaça com base na resistência durante o processo de notificação e comentários", escreveram os analistas.
Perspectivas dos Investidores
Outra questão importante para os investidores é se uma mudança de volta à estrutura de relatórios semestrais seria benéfica. Como muitas questões relacionadas a investimentos, a resposta depende do ponto de vista.
Argumentos a Favor da Estrutura Atual
Por um lado, os relatórios trimestrais proporcionam mais transparência e comunicação com as equipes de liderança das empresas. Os investidores recebem números oficiais a cada três meses, além de discussões retrospectivas sobre o que contribuiu para aquele desempenho. Adicionalmente, há comentários da administração entre um e dois meses do trimestre atual. Mesmo em empresas que não fornecem orientações formais, muitas vezes temos acesso às expectativas gerais dos executivos para os meses seguintes. Isso pode ser especialmente benéfico para investidores individuais que não têm acesso a pesquisas caras de corretoras de Wall Street, dificuldade em contatar equipes de relações com investidores, e que não possuem capital significativo para gastar em métodos alternativos de pesquisa além dos relatórios de vendas.
Embora investidores institucionais, como fundos de hedge e firmas de gestão de ativos, também se beneficiem das divulgações financeiras formais, eles conseguem obter uma quantidade substancial de informações mesmo sem os relatórios trimestrais, por meio de checagens com analistas, conferências do setor, discussões com a administração e acesso a recursos variados. O acesso à gerência de empresas públicas não é o mesmo para ambos os grupos, evidenciando que a transparência proporcionada pelos relatórios trimestrais é um aspecto positivo.
Quando o especialista em finanças Jim Cramer prega a prática de investir com análise, parte disso envolve prestar atenção à temporada de resultados — e não apenas quando suas próprias empresas de portfólio divulgam resultados. Os resultados dos pares da indústria oferecem "réguas de comparação" que podem fornecer insights igualmente valiosos. Assim, os defensores do status quo acreditam que ter essa oportunidade quatro vezes por ano é mais vantajoso do que uma alternativa menos frequente.
Argumentos a Favor dos Relatórios Semestrais
Por outro lado, os defensores da proposta de relatórios semestrais veem benefícios na frequência reduzida de divulgação. Primeiramente, argumentam que a preparação para relatórios trimestrais é custosa. Trump mencionou em seu post que relatórios a cada seis meses "economizarão dinheiro". Outros acreditam que o foco atual de curto prazo do mercado desestimula empresas a se tornarem publicamente negociadas em primeiro lugar. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, comentou que "o presidente Trump percebe que, quer seja no Reino Unido, quer seja nos Estados Unidos, nossos mercados públicos estão atenuando, e isso pode ser uma forma de reduzir custos para empresas públicas sem prejudicar investidores".
De forma mais geral, um investidor deveria querer uma equipe de gestão focada na saúde multianual da empresa — que invista em crescimento sustentável a longo prazo, mesmo que isso signifique um leve impacto nos lucros de curto prazo. Essa tarefa se torna mais complicada quando os gestores devem relatar resultados a cada três meses, com o mercado esperando um conjunto específico de resultados. A extensão do período de relatórios para seis meses permitiria que as equipes de gestão tivessem mais espaço para planejar e executar suas estratégias, o que, em teoria, deve levar a resultados melhores a longo prazo.
As melhores equipes de gestão já operam dessa forma, embora muitas não tenham essa liberdade. Por exemplo, investidores têm percebido que a Amazon não se preocupa com as expectativas do mercado sobre seus hábitos de gastos de trimestre a trimestre. A empresa consegue isso devido ao seu tamanho e sucesso, pois os investidores acreditam na natureza setorial de seu negócio. Contudo, empresas mais cíclicas não possuem essa mesma vantagem e estão mais sujeitas à volatilidade se não conseguirem se adequar às expectativas do mercado. Redes de varejo, como a TJX Companies, ou cadeias de restaurantes, como o Texas Roadhouse, geralmente têm investidores extremamente focados não apenas nas vendas das lojas comparáveis no trimestre, mas também na cadência mês a mês.
Considerações Finais
Os investidores procuram prever e extrapolar o que os próximos meses podem ser, com base nessa cadência. Embora as equipes de gestão façam seu melhor esforço para focar no longo prazo, a realidade é que os investidores esperam que as empresas atendam ou superem as expectativas de analistas quando divulgam resultados. Se os relatórios ocorrerem a cada três meses, as equipes de gestão necessitam considerar expectativas de curto prazo para manter os acionistas satisfeitos. Falhar em obter resultados que atendam às expectativas do mercado pode causar oscilações acentuadas nos preços, levando os acionistas a considerar descartar a empresa.
Defensores da proposta acreditam que a abolição do padrão trimestral em favor de um semestral significaria que os investidores teriam acesso a uma equipe de gestão mais focada no longo prazo. Ao refletir sobre esse cenário, é útil considerar as abordagens extremas, como relatórios mensais versus relatórios anuais. Enquanto um investidor de curto prazo pode favorecer relatórios mais frequentes, um investidor de longo prazo pode preferir relatórios menos frequentes, acreditando que investir em uma empresa implica "contratar" a equipe de gestão. O ideal seria encontrar um equilíbrio, com atualizações constantes sem o fornecimento de orientações quantitativas.
O debate sobre a frequência dos relatórios de lucros continua, e a forma como a SEC lidará com essa proposta ainda não está definida.


