Acordo entre União Europeia e Mercosul: Impactos no Agronegócio
Embora o BTG Pactual considere que o impacto do acordo firmado entre a União Europeia e o Mercosul para o agronegócio será limitado e gradual, a instituição acredita que setores como café, aves, etanol e açúcar apresentam um potencial significativo de ganhos estruturais.
Os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, sem citar nomes de empresas específicas, afirmam que existem oportunidades para várias companhias do setor se beneficiarem do acordo a longo prazo, embora de maneira modesta e progressiva. Essa mudança deve se traduzir em uma melhora nas condições de preços e uma leve ampliação dos mercados endereçáveis para exportação. É importante ressaltar que o BTG aponta nuances relevantes para os diferentes produtos do agronegócio.
Açúcar e Etanol
Em relação ao açúcar, o acordo mantém a cota existente de 180 mil toneladas, eliminando as tarifas para esse volume. Essa cota representa cerca de 3% das exportações brasileiras de açúcar em 2025. Contudo, as vendas para a União Europeia já ultrapassam essa cifra em aproximadamente 670 mil toneladas, indicando que o impacto adicional deve ser limitado.
Os produtores podem, na prática, se beneficiar de preços mais elevados dentro da cota, mas as mudanças nos volumes exportados devem ser pequenas. Para o etanol, foi definida uma cota de 650 mil toneladas, sendo 450 mil toneladas isentas de tarifas e destinadas à indústria química, enquanto as 200 mil toneladas restantes estarão sujeitas a uma tarifa de € 6,4 por hectolitro.
Esses volumes representam cerca de 50% das exportações totais de etanol do Brasil e mais de três vezes o que a União Europeia importou do país em 2025. No entanto, dado que as exportações correspondem a apenas cerca de 4% da produção total de etanol, o impacto geral permanece reduzido. A expansão da capacidade de etanol de milho está estimada entre 1 e 2 bilhões de litros por ano, sugerindo um potencial para um mercado exportador mais amplo e com preços melhores, mas ainda assim insuficiente em termos de volume.
Proteínas
O acordo introduz cotas com tarifas reduzidas ou zeradas para a importação de proteínas. Embora a notícia seja positiva em relação aos preços, o BTG ressalta que os volumes adicionais devem ser limitados, sem uma alteração significativa na dinâmica do setor.
Carne Bovina
Foi estabelecida uma cota inicial de 16,5 mil toneladas com uma tarifa de 7,5%, que aumentará gradualmente até 99 mil toneladas até 2031. Os volumes que excederem esse limite continuarão a ser sujeitos a uma tarifa de 12,8% e também a um imposto específico que varia entre € 1,4 e € 3,0 por quilo, resultando em uma tarifa efetiva perto de 40%, em conformidade com os níveis atuais. Embora as novas condições possam favorecer as exportações para a Europa, o volume contemplado pela cota representa apenas 0,1% da produção total do Mercosul em 2025, alcançando 0,6% da produção em 2031. Portanto, o impacto deve ser considerado como pouco relevante, conforme destacado pelo banco.
O BTG ainda aponta que frigoríficos poderão se beneficiar de um mix melhor de vendas, dado que o preço pago pela União Europeia pela carne bovina brasileira em 2025 foi cerca de 60% superior à média dos preços de exportação do Brasil.
Frango
No caso das aves, a oportunidade é mais expressiva e tende a ter um impacto transformacional ao longo da próxima década. A nova cota livre de tarifas começa em 30 mil toneladas, aumentando gradualmente até 180 mil toneladas em 2031. Esse volume representa cerca de 0,2% da produção total do Mercosul e 0,6% das suas exportações, podendo chegar a 1,0% e 3,5%, respectivamente, em 2031.
Dado que o Brasil responde por aproximadamente 90% da produção do Mercosul, a expectativa é de que o país capture a maior parte dessa cota. Em 2031, o aumento das exportações brasileiras de aves para a União Europeia poderia alcançar 65%, aumentando gradualmente a relevância do bloco como mercado de destino.
Em termos de mix, o acordo é positivo, pois os preços de importação da UE foram cerca de 60% superiores à média dos preços de exportação do Brasil em 2025. Contudo, mesmo que o Brasil conseguisse utilizar toda a cota já em 2026, esse volume representaria apenas 0,2% da produção nacional de carne de frango, sem provocar um impacto material em um cenário de preços e margens desafiadores.
Suínos
As exportações de carne suína do Brasil para a União Europeia historicamente têm sido mínimas. Mesmo com toda a cota de 25 mil toneladas em 2031 sendo utilizada, a UE representaria somente 1,4% das exportações totais, resultando em um aumento anual marginal de cerca de 0,25%, sem significância material.
Bens de Consumo
Produtos como café e arroz também devem obter benefícios por meio do acordo. Para o café, embora não tenha sido estabelecida uma cota, as tarifas atuais de 7,5% serão eliminadas gradualmente ao longo de quatro anos. Considerando que a UE é o maior destino das exportações brasileiras, correspondendo a 47% do volume em 2025, essa mudança tende a promover as exportações e melhorar a competitividade do Brasil no mercado europeu.
No que diz respeito ao arroz, o acordo prevê uma cota de 60 mil toneladas, isenta de tarifas, a ser implementada durante um período de seis anos. Esse volume representa quase o dobro das exportações brasileiras para a UE em 2025 e equivale a 7% das exportações totais. Volumes que excederem essa cota estarão sujeitos a tarifas que variam entre € 65 e € 211 por tonelada, dependendo do produto. A empresa Camil (CAML3) pode vir a usufruir das operações realizadas no Uruguai e Paraguai.
Grãos
Não houve alterações significativas na dinâmica de tarifas para grãos. A soja e o farelo de soja já entravam na UE sem tarifas, situação que permanece inalterada. As tarifas do óleo de soja devem ser reduzidas gradualmente, passando a uma faixa entre 3,2% e 9,6%. Quanto ao milho, a nova cota de 1 milhão de toneladas, que será implementada ao longo de seis anos, não deve afetar os volumes brasileiros, visto que as atuais exportações para a UE já superam esse nível por cerca de três vezes.
Implicações do Acordo para o Agronegócio
O acordo está previsto para ser assinado no dia 17 de janeiro, no entanto, sua efetivação ainda depende da ratificação pelo Parlamento Europeu. Uma vez em vigor, o acordo deverá eliminar gradualmente tarifas sobre aproximadamente 91% do comércio bilateral, facilitando o acesso aos mercados para as exportações do Mercosul, em especial para produtos agropecuários.
A União Europeia é tradicionalmente um dos principais parceiros comerciais do Brasil, representando 15% das exportações agrícolas totais em 2025, mesmo antes da formalização do acordo. Apesar da crescente influência da China e de outros países asiáticos, a União Europeia continua a ser um mercado relevante para o Brasil.
O BTG Pactual destaca três pontos que merecem atenção:
- O acordo ainda precisa ser ratificado, o que pode permitir ajustes regulatórios;
- A distribuição das cotas entre os países do Mercosul somente será definida após a ratificação, resultando em visibilidade limitada sobre os impactos para o Brasil;
- A maior parte das reduções tarifárias e cotas será implementada de maneira gradual, reduzindo os efeitos de curto prazo.
Além disso, o acordo contempla um mecanismo bilateral de salvaguarda agrícola, que autoriza à UE a suspensão temporária de tarifas preferenciais por meio de procedimentos mais ágeis, caso as importações sejam consideradas prejudiciais aos produtores locais — uma situação que pode gerar incertezas semelhantes ao que ocorreu recentemente com as salvaguardas impostas pela China à carne bovina.
Fonte: www.moneytimes.com.br

