Os ministros das Finanças da zona do euro discutirão, no dia 16 de fevereiro, estratégias para fortalecer o papel global da moeda única e aumentar a segurança econômica da Europa. As propostas incluem a emissão de stablecoins denominadas em euros e a necessidade de uma maior dívida conjunta da União Europeia (UE), conforme um documento preparado para as autoridades.
### Contexto Econômico Global
O documento, analisado pela Reuters, foi elaborado pela Comissão Europeia, que atua como o braço executivo da União Europeia. Esta iniciativa surge em meio a um cenário de tensões comerciais globais, incertezas em torno do dólar como moeda de refúgio e rápidas inovações nas tecnologias de pagamento.
De acordo com o texto, “diante do risco de crescente instrumentalização do sistema monetário e financeiro internacional, a UE precisa agir para fortalecer a segurança econômica e financeira e a capacidade de promover os próprios interesses”.
### Moeda de Reserva
O euro, atualmente utilizado por 21 dos 27 países membros da UE, é a segunda maior moeda de reserva global, atrás do dólar, representando cerca de 20% das reservas cambiais mundiais, enquanto o dólar corresponde a cerca de 60%.
No documento que será discutido pelos ministros, a Comissão defende que uma posição mais forte do euro contribuiria para a estabilidade financeira global e melhoraria as relações comerciais e financeiras da UE. Além disso, uma moeda única mais robusta ajudaria a União Europeia a defender seus valores e implementar políticas de sanções de forma mais eficaz.
Ao fortalecer a posição do euro, a economia da zona do euro poderia se proteger de pressões externas, além de diminuir os custos de financiamento e a exposição aos riscos cambiais enfrentados pelas empresas.
Os representantes da Comissão Europeia enfatizam que os governos da UE devem considerar a possibilidade de emitir ativos digitais, que incluem stablecoins, depósitos tokenizados e moedas digitais de bancos centrais (CBDCs, na sigla em inglês). Além disso, é crucial abordar os riscos relacionados às stablecoins que são lastreadas em moedas estrangeiras.
Atualmente, os instrumentos financeiros denominados em euros representam menos de 1% do crescente mercado de stablecoins, que é dominado por ativos classificados em dólares. Isso aponta para a preocupação de que o capital europeu possa migrar para os Estados Unidos, elevando a demanda por ativos norte-americanos em detrimento dos europeus.
O documento sugere que os governos da UE devem fomentar o mercado de dívida emitida em euros, por meio de “emissões da UE para financiar conjuntamente projetos com um valor agregado claro para a Europa”. Além disso, recomenda-se incentivar a emissão de dívidas em euros por empresas e governos fora da zona do euro.
Os investidores têm demonstrado interesse em ver um aumento nas emissões da dívida conjunta da UE, considerada um ativo com classificação AAA. No entanto, a Alemanha e alguns outros países do norte da Europa têm mostrado reticência ou resistência a essa ideia.
Atualmente, existem cerca de 1 trilhão de euros em dívida conjunta da UE emitida por várias instituições da região. Em comparação, a dívida dos Estados Unidos totaliza cerca de 27 trilhões de dólares, tornando a dívida da UE menos líquida e atrativa para grandes investidores.
O documento também observa que o euro poderia ganhar um papel mais significativo no cenário global caso o Banco Central Europeu (BCE) ampliasse seus acordos bilaterais de liquidez com países terceiros, uma iniciativa que já está sendo considerada pelo BCE, conforme informaram fontes à Reuters.
### Obstáculos ao Comércio e Investimento
A documentação sugere que a ajuda europeia ao desenvolvimento e os empréstimos a países terceiros devem ser feitos em euros. Além disso, as empresas da União Europeia são incentivadas a realizar transações comerciais de petróleo, gás, matérias-primas, defesa e equipamentos de transporte igualmente em euros.
A construção de um sistema de pagamentos europeu independente das redes dominantes da Visa e Mastercard é outra recomendação apresentada. Essa medida visa aumentar a autonomia financeira da Europa, atualmente dependente das maiores empresas de pagamentos eletrônicos.
Para tornar a Europa um destino mais atrativo para investimentos e fortalecer a economia, é necessário que os governos removam barreiras ao comércio de bens e serviços entre os países da UE. A proposta inclui a criação de um regime jurídico, fiscal e trabalhista uniforme que atenda a todas as empresas interessadas em operar no bloco europeu.
Os governos também são instados a agir rapidamente para assegurar um fluxo livre de capital na UE, por meio da harmonização das regras relativas a investimentos, comércio, tributação e supervisão. Esse movimento visa a utilização mais produtiva de cerca de 10 trilhões de euros atualmente parados em contas de depósito, principalmente para financiar o desenvolvimento de empresas.
Por fim, o documento sugere que os ministros das Finanças considerem a transformação do fundo de resgate de 500 bilhões de euros da zona do euro — nomeado Mecanismo Europeu de Estabilidade — em uma verdadeira instituição da UE. A ideia é que essa nova entidade gerencie toda a emissão de dívida da UE, similar às funções de uma agência de dívida da região.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


