O que faz a Bolsa ser tão atrativa para investidores estrangeiros, mesmo diante da guerra no Oriente Médio?

O que faz a Bolsa ser tão atrativa para investidores estrangeiros, mesmo diante da guerra no Oriente Médio?

by Ricardo Almeida
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Fluxo Estrangeiro na Bolsa de Valores

O fluxo de investimentos estrangeiros na Bolsa de Valores brasileira, a B3, continuou forte em março, mesmo diante das incertezas geopolíticas intensificadas pelo conflito no Oriente Médio. Até o dia 19 deste mês, os investidores internacionais ingressaram com um total de R$ 6,8 bilhões na B3, conforme informações do site Dados de Mercado.

Entretanto, uma certa moderação nos aportes externos já era esperada após os números robustos nos dois primeiros meses do ano, que contabilizaram R$ 26,3 bilhões em janeiro e R$ 15,4 bilhões em fevereiro.

Com os dados do mês de março, o total acumulado de ingressos em 2026 já alcança R$ 48,5 bilhões, quase o dobro do que foi registrado em todo o ano de 2025, que foi de R$ 25,47 bilhões.

Adicionalmente, instituições financeiras internacionais, como o Citi e o UBS, indicaram que o Brasil se destaca como um “porto seguro” no mercado de ações global, uma vez que a economia brasileira é menos impactada pelos eventos do Oriente Médio em comparação a outros países emergentes.

Brasil: um Porto Seguro Diante de Incertezas

Rogério Freitas, responsável pelas análises de investimentos do ASA, destaca que o Brasil se torna um grande beneficiado em momentos de incertezas nos mercados globais, sendo o mercado brasileiro visto como aquele que possui a “camisa menos suja”.

A saída de fluxo de capitais dos Estados Unidos para mercados emergentes se intensificou a partir do fenômeno conhecido como “Liberation Day”, promovido pelo ex-presidente Donald Trump em abril de 2025, o que levou à reprecificação das empresas norte-americanas.

Freitas afirma: “O Brasil é considerado um bom lugar e acaba se beneficiando dessas incertezas. O mercado brasileiro é líquido, grande e possui uma economia de larga escala, especialmente quando comparado a outros emergentes.”

Segundo o analista, o cenário ainda pode ser favorável para os mercados emergentes nos próximos anos.

Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, ratifica a análise de Freitas, mencionando que o Brasil tem sido considerado um porto seguro em meio a decisões precipitada de líderes internacionais, resultando em uma maior migração de investimentos estrangeiros para os mercados emergentes.

Com um panorama econômico brasileiro que apresenta índices positivos, como inflação controlada, um crescimento saudável do Produto Interno Bruto (PIB) e taxas de desemprego baixas, o Brasil se mostra como um destino econômico atrativo para investidores estrangeiros, conforme argumenta Mollo.

Além disso, o analista observa que a bolsa brasileira permanece em uma trajetória de alta desde abril de 2025, alcançando recordes consecutivos.

Ativos Bons e Baratos

Rafael Spiess explica que quando o dólar apresenta desvalorização, os ativos globais tendem a ser beneficiados por esse movimento. Ele observa que o Brasil já experimentou períodos de crescimento significativo de seus ativos em fases similares.

Uma parte considerável desse fenômeno está relacionada à necessidade dos investidores estrangeiros de se desdolarizar parcialmente, especialmente diante das incertezas institucionais nos Estados Unidos. Nesse contexto, o Brasil é percebido como um mercado “premium”, pois oferece ativos de qualidade a preços competitivos.

“Recentemente, registramos algumas máximas nominais no Ibovespa, mas os múltiplos ainda são considerados acessíveis, indicando que a bolsa ainda possui potencial para continuar subindo”, ressalta Spiess.

Diferencial de Juros

Spiess também menciona um importante diferencial que o Brasil possui em comparação com outros países: o início do ciclo de cortes na taxa de juros. Apesar das incertezas geradas pela guerra no Oriente Médio, o estrategista acredita que ainda há espaço para mais cortes na taxa Selic, que recentemente sofreu uma redução de 0,25 ponto percentual, situando-se atualmente em 14,75% ao ano.

Os investidores estrangeiros têm um interesse especial na possibilidade de cortes adicionais na taxa de juros. Enquanto outras economias emergentes apresentaram orçamentos para cortes menores, o Brasil conta com uma expectativa de corte que chegou a 3 pontos porcentuais antes do início do conflito. “Mesmo com uma Selic de 12%, ainda existiria um carry trade vantajoso”, explica Spiess.

O carry trade é considerado atrativo porque permite que investidores tomem empréstimos em países como o Japão, onde a taxa básica é de apenas 0,75% ao ano, para depois investir em ativos de alto rendimento no Brasil, cuja Selic está em 14,75%. Ao final dessa operação, eles conseguem lucrar com a diferença da taxa, conhecida como spread.

ETFs como Porta de Entrada para os Gringos

Em um relatório, o Itaú BBA estima que, levando em conta a participação do Brasil em cada Fundo Negociado na Bolsa (ETF), esses fundos propiciaram uma entrada de R$ 27,8 bilhões no ano até a segunda semana de março, representando aproximadamente 68% do fluxo total de investimentos estrangeiros na B3.

Conforme o indicador de amplitude estrangeira do BBA, que varia de 0 a 100 e considera as ações do Ibovespa e os principais ETFs locais que registram entradas líquidas positivas provenientes de investidores estrangeiros, a pontuação acumulada no ano alcança 58. No entanto, em março esse número foi mais baixo.

“No acumulado do mês, a pontuação está em 41, indicando uma concentração do fluxo estrangeiro, especialmente em ações dos setores de Petróleo & Gás e Utilities”, destaca o banco.

De acordo com o BBA, devido à volatilidade no cenário global, os investidores estrangeiros têm adquirido ações dos setores de Energia e Utilities na B3, contabilizando R$ 5,9 bilhões e R$ 1,13 bilhão, respectivamente.

Os setores de Saúde e Consumo Discricionário mostraram-se como os mais vendidos pelos investidores estrangeiros, com movimentações de R$ 1,14 bilhão e R$ 1,0 bilhão, até o dia 12 de março, o que reflete a concentração de fluxo em poucos ativos, conforme indicado pelo indicador de amplitude do banco de investimentos.

Guerra e Eleições como Riscos de Curto Prazo

Os analistas avaliam que a duração do conflito no Oriente Médio continua a ser o principal fator de incerteza que afeta a entrada de fluxo estrangeiro na B3 em um horizonte de curto prazo.

“A bolsa estava flertando com a marca de 200 mil pontos à medida que o investidor estrangeiro realizava aportes. No entanto, a volatilidade no preço do petróleo pode pressionar a inflação, forçando o Banco Central a adotar uma postura mais conservadora. Caso o BC não realize os cortes de juros no ritmo esperado pelo mercado, é possível que a bolsa enfrente estagnação”, observa Gabriel Mollo.

Além disso, as eleições são vistas como um fator adicional de volatilidade nos fluxos de investimentos estrangeiros, em virtude das incertezas quanto às condições fiscais.

Por outro lado, Spiess, da Empiricus, sugere que pode haver a possibilidade de um rali eleitoral, semelhante ao que ocorreu na Argentina com a candidatura e a vitória de Javier Milei.

“Após a pandemia, o cenário eleitoral se tornou mais desafiador para incumbentes em geral. Na América Latina, isso se traduziu nos últimos anos em uma inflexão do pêndulo político, movendo-se da esquerda para a direita”, finaliza.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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