A crise no fornecimento de petróleo no Oriente Médio
A guerra no Oriente Médio resultou na maior interrupção no fornecimento de petróleo já registrada. A crise atual, provocada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz em meio ao conflito, é considerada, segundo Fatih Birol, chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), “mais grave do que as de 1973, 1979 e 2022 juntas”. Esta declaração foi feita ao jornal Le Figaro nesta terça-feira, dia 7.
Ele ressaltou que, à medida que a guerra se estende, a situação se torna cada vez mais alarmante: “Hoje, podemos não ter escassez de petróleo, mas eventualmente teremos”. Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, também fez um alerta, afirmando que “se continuarmos no caminho em que estamos agora, ficaremos sem combustível”.
O impacto no mercado de petróleo
Os contratos futuros com entrega prevista para o final deste mês estão sendo negociados com um preço significativamente maior em comparação com os contratos para meses subsequentes. Essa dinâmica é conhecida como backwardation e indica que o mercado está percebendo riscos graves no fornecimento de petróleo, especialmente para contratos de longo prazo.
A restrição de oferta é o principal fator para a quase duplicação do preço dos contratos futuros do WTI neste ano, enquanto o Brent, referência internacional, superou os 110 dólares por barril. Além disso, o Brent “datado”, indicador do preço do barril físico no mercado, alcançou 141,26 dólares na semana passada, o que representa o valor mais alto desde 2008.
Vikas Dwivedi, estrategista global de energia do Macquarie Group, comparou a situação ao valor que alguém estaria disposto a pagar pela “última garrafa de água”. Ele comentou ainda sobre a escassez de petróleo, apontando que a Arábia Saudita, o maior exportador global, tem cobrado valores adicionais recordes de seus clientes pelo petróleo bruto.
De acordo com o Financial Times, a Arábia Saudita está cobrando um adicional de 19,50 dólares para entrega de petróleo a clientes na Ásia em comparação com os preços de referência do petróleo bruto Arab Light, e até 30 dólares a mais do que o preço do Brent para clientes na Europa. Lipow também estima que os americanos estejam gastando, direta e indiretamente, cerca de 830 milhões de dólares a mais por dia em gasolina, querosene de aviação e outros combustíveis para transporte em relação ao período anterior ao início da guerra.
Flutuação nos preços do querosene de aviação
Os preços do querosene de aviação dobraram no último mês, uma consequência direta dos problemas no fornecimento de petróleo bruto, que resultaram em restrições na oferta. Geralmente, os aeroportos estocam combustível de aviação suficiente para apenas alguns dias, e as companhias aéreas praticamente não têm realizado hedge e armazenado combustível nos últimos anos.
De acordo com Lipow, mesmo que a indústria não fique sem combustível de aviação, as companhias aéreas já estão começando a cancelar voos. Esta tendência já é observada, com algumas companhias aéreas reduzindo sua capacidade. Outras, por sua vez, já iniciaram o aumento dos preços das passagens, enquanto alguns aeroportos na Itália implementaram restrições sobre o combustível para voos, como reportado pela Bloomberg.
Possíveis consequências da continuidade da guerra
Se a guerra persistir e o Estreito de Ormuz permanecer fechado por mais seis a oito semanas, Dwivedi afirma que a escassez de diesel pode se tornar uma realidade, e até mesmo a escassez de gasolina pode ocorrer, especialmente se o Estreito continuar bloqueado durante a temporada de viagens de verão.
Ao contrário do petróleo bruto, que pode ser desviado para outras rotas de transporte, o querosene de aviação, o diesel e a gasolina dependem geralmente de oleodutos para o transporte das refinarias para os armazéns. As regiões mais vulneráveis nos Estados Unidos são a Costa Leste e a Costa Oeste, que dependem de importações para atender à demanda.
Tom Kloza, analista independente de petróleo e consultor da Gulf Oil, alertou que “o mercado da Costa Oeste pode entrar em colapso a qualquer momento”. Alguns países, temendo a escassez de combustíveis, começaram a impor restrições para tentar equilibrar a oferta e a demanda.
Restrições e racionamento de combustíveis
Na esfera da oferta, nações como China, Tailândia, Paquistão e Coreia do Sul restringiram exportações, enquanto a Rússia proibiu a exportação de gasolina em decorrência da guerra com a Ucrânia. Para combater a escassez e reduzir a demanda, alguns países asiáticos, incluindo Mianmar e Bangladesh, estão implementando um racionamento de combustível.
Entretanto, essas restrições acarretam diversos custos, incluindo a desaceleração das economias locais. Os Estados Unidos, sendo o maior produtor mundial de petróleo e um dos principais refinadores de combustíveis, estão relativamente mais protegidos da crise de abastecimento, mas não são totalmente imunes à escassez física de petróleo e combustível.
Kloza fez uma analogia sobre a situação, afirmando que “é como se houvesse um enorme buraco no casco de um navio”. Ele observou que o problema começa na Ásia, depois se espalha pela África, então atinge a Europa e, eventualmente, afetará os Estados Unidos.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br
