A ressaca do agronegócio
A ressaca após os “dias de ouro” do agronegócio, que teve início no período pós-pandemia, se intensificou nos últimos seis meses. Essa avaliação foi feita por Carlos Aguiar, diretor de agronegócio do Santander. Em uma conversa com o Money Times no segundo dia da Agrishow, o executivo expressou que o cenário se tornou ainda mais desafiador do que anteriormente.
Desafios atuais no setor
De acordo com Aguiar, “continuamos em um ambiente bem apertado, principalmente em soja e milho”. Ele destacou que o cenário se agravou com o conflito geopolítico no Oriente Médio, o que impacta tanto a logística quanto os preços do petróleo. Esse aumento nos custos de frete é ainda mais significante, considerando que o Brasil importa fertilizantes e depende bastante do transporte interno. As margens de lucro, que já estavam pressionadas, se tornaram ainda mais limitadas.
Perspectivas futuras não são animadoras
Para o banco, as perspectivas de recuperação do setor são pouco animadoras. Não existem sinais claros de queda nos custos, especialmente diante da incerteza em relação à duração do conflito no Oriente Médio. “Não sabemos se isso vai acabar em um, dois ou seis meses. Mas, mesmo que termine, o mercado ainda leva cerca de seis meses para se normalizar”, comentou Aguiar.
Ele também ressaltou que uma possível ajuda viria da diminuição das taxas de juros. No entanto, a lentidão na redução da taxa Selic limita esse alívio que poderia ser sentido pelo setor. A expectativa é de que a taxa caia 0,25 ponto percentual, mas, na velocidade atual, se espera que ao final do ano a taxa esteja em torno de 13%. Uma taxa de 15% ou 13% não traz grandes mudanças para aqueles que estão endividados, resultando em um cenário que continua difícil e com pouca perspectiva de melhora no curto e médio prazo.
Áreas produtivas se destacam
Apesar dos desafios, ele ressaltou que não há problemas do lado produtivo. As safras permanecem robustas e alguns segmentos, como o café e a proteína animal, estão passando por um momento mais favorável. Para o ano de 2026, a carteira de crédito agro do Santander deve se manter estável, em torno de R$ 50 bilhões. Na Agrishow deste ano, o banco focou no diagnóstico individual dos produtores, trazendo mais de 100 pessoas para se reunirem com os agricultores e entenderem as necessidades de cada um. “Há quem precise de prazo, quem precise de apoio. Estamos oferecendo uma consultoria personalizada”, destacou Aguiar.
Soluções além do crédito
Aguiar enfatizou que as soluções não se limitam apenas ao crédito. Se o produtor estiver interessado em trocar uma máquina, por exemplo, o consórcio pode ser uma alternativa viável, com taxas mais atrativas. A expectativa é que a feira encerre com cerca de R$ 1,4 bilhão em negócios, alinhada com os resultados do ano anterior, embora o executivo reconheça um tom mais cauteloso considerando o cenário atual.
Gerenciamento financeiro
Para Aguiar, o momento atual exige maior disciplina na gestão dos negócios. “O produtor domina a parte técnica — plantar, colher, escolher insumos —, mas precisa evoluir na gestão financeira e de riscos para evitar problemas recorrentes”, afirmou. Ele também alertou que a situação é ainda mais delicada para os arrendatários, que enfrentam maior dificuldade de acesso ao crédito e margens mais apertadas. Muitas vezes, segundo ele, “não sobra dinheiro para pagar tudo: ou o arrendamento, ou o banco”.
Caminhos para os endividados
O caminho a seguir para aqueles que estão endividados dependerá do nível de alavancagem. “Existem produtores capitalizados que estão aproveitando as oportunidades para expandir. Por outro lado, aqueles que estão mais pressionados deveriam procurar os bancos e negociar. Já quem está excessivamente alavancado precisa considerar vender parte do patrimônio para não perder tudo”, explicou Aguiar. Na avaliação do executivo, a recuperação do setor deverá levar entre um ano e meio e dois anos, apesar do cenário continuar sendo altamente volátil.
Recuperações judiciais no agronegócio
As recuperações judiciais no agronegócio, que ganharam destaque em 2024, começaram a mostrar seus desdobramentos, e muitos resultados não têm sido favoráveis para os produtores. “À medida que esses casos ganham visibilidade, cresce a percepção de que a recuperação judicial não é, necessariamente, a melhor solução”, declarou Aguiar.
Na perspectiva de Aguiar, esse instrumento não é apropriado para aqueles que possuem garantias reais, como propriedades de terra. “Nesses casos, o risco de perder o patrimônio é elevado. A recuperação judicial faz mais sentido no mercado corporativo, onde não há esse tipo de garantia”, argumentou.
Como aprendizado, ele apontou que muitas recuperações poderiam ter sido evitadas com a negociação direta com os credores. “Hoje, os bancos estão mais abertos ao diálogo. Já temos casos de produtores que optaram pela recuperação judicial e se arrependeram”, concluiu Aguiar.
Fonte: www.moneytimes.com.br


