Alterações Societárias da Naskar Antes do Colapso
Registros públicos da Junta Comercial do Estado de São Paulo (JUCESP) revelam uma série de mudanças nas estruturações societárias ocorridas nos 60 dias antecedentes ao colapso da fintech Naskar, que está sendo investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal por suposta captação irregular de recursos.
Entre os meses de março e maio de 2026, os controladores da Naskar alteraram suas razões sociais, removeram atividades financeiras de seu objeto social e criaram duas novas empresas no mesmo dia em que informaram aos clientes sobre uma alegada “perda na base de dados”.
A Naskar captava recursos de pessoas físicas através de contratos de mútuo, oferecendo uma promessa de rendimento mensal fixo que variava entre 1,5% e 2%. Estimativas apontam que a operação envolveu entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão de cerca de 3.000 clientes em todo o Brasil.
O Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC enviou um conjunto de 16 perguntas aos sócios da Naskar, mas até o fechamento desta reportagem não havia recebido respostas.
Cronologia do Desmonte
17 MAR 2026
07 ABR 2026
14 ABR 2026
04 MAI 2026
07 MAI 2026
09 MAI 2026
Movimentos Societários e Consequências
Em 17 de março de 2026, a Naskar mudou sua razão social de Naskar Instituição de Pagamento Ltda para Naskar Gestão de Ativos Ltda. Cinquenta dias depois, a empresa colapsou publicamente.
No dia 7 de abril, a NextGen Gestão Financeira Ltda, que faz parte do mesmo grupo, alterou sua razão social para NextGen Serviços de Apoio Administrativo Ltda e retirou as atividades financeiras de seu objeto social. Esse movimento foi registrado trinta dias antes do colapso da Naskar.
Em 14 de abril, a própria Naskar anexou a exclusão das atividades financeiras a seu objeto social na JUCESP, alterando sua estrutura apenas vinte e três dias antes de interromper o pagamento dos rendimentos de seus clientes.
O jurista Vinícius Barboza, doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e sócio fundador do BMS Advocacia, aponta que a sequência de ações societárias nos meses que precederam o colapso pode justificar pedidos de desconsideração da personalidade jurídica dos controladores. Segundo ele, isso pode ocorrer em caso de confusão patrimonial ou desvio de finalidade da empresa.
Barboza observa que a retirada dos CNAEs financeiros do objeto social não elimina a caracterização de captação de recursos de maneira irregular. Ele acrescenta que a responsabilidade criminal dos controladores “deve ser apurada em investigação policial”, independentemente das mudanças realizadas nas documentações comerciais.
Empresas Criadas no Dia da Comunicação às Vítimas
No dia 7 de maio de 2026, a Naskar enviou um comunicado via e-mail a seus clientes, informando sobre uma suposta “perda na base de dados” e prometendo um retorno institucional, que nunca se concretizou. Na mesma data, registros na JUCESP revelaram a formação de duas novas empresas pelos controladores do grupo.
A primeira empresa é a Voga Apoio Administrativos Ltda, registrada sob o CNPJ 66.672.979/0001-52, com um capital de R$ 10.000,00, tendo como sócio único e administrador Marcelo Liranço Arantes, e localizada em Cotia/SP. A segunda é a Spy Apoio Administrativos Ltda, também com capital de R$ 10.000,00, e com José Maurício Volpato como sócio único e administrador, localizada em um endereço de sua residência em São Paulo/SP. Ambas as empresas foram registradas pela mesma contabilidade, a MC Mais Contabilidade S/S.
Barboza explica que, para considerar a abertura de novas empresas como uma ação fraudulenta, é necessário comprovar a má-fé e o nexo de causalidade entre as ações e os danos ocasionados aos investidores. Ele argumenta que a mera coincidência de datas não é suficiente para desencadear repercussões legais.
Práticas de Blindagem Patrimonial Reconhecidas
A sucessão de atos observada nos dois meses que antecederam o colapso é caracterizada pela doutrina e jurisprudência brasileiras como uma forma de blindagem patrimonial reativa. Embora as transformações societárias ocorridas não tenham afetado o registro federal da empresa, o Cartão CNPJ da Naskar Gestão de Ativos apresenta, até o presente momento, CNAEs relacionados a atividades financeiras.
A manutenção desses registros pode servir como evidência de que a empresa continuava a se posicionar como uma instituição financeira. Para Barboza, essa contradição entre o registro estadual e o cadastro federal tem implicações jurídicas, ainda que limitadas em termos de responsabilidades para os credores.
Reconhecimento do Controle pela Autoridade Monetária
No dia 11 de março de 2026, o Banco Central divulgou o Comunicado 44.862, o qual reconheceu a Next Holding Financeira Ltda como a controladora direta da 7Trust Finance Instituição de Pagamento S/A, identificando os controladores como Marcelo Liranço Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato. Essa confirmação ocorreu seis meses após o Bacen informar que a 7Trust operava em regime de “processo de autorização” sem ter obtido a autorização final para operar como instituição de pagamento.
A concentração das atividades do grupo em um único endereço corrobora a estrutura de controle reconhecida pelo Banco Central. Em 8 de setembro de 2025, os três controladores formalizaram a mudança de endereços residenciais para salas no mesmo andar do edifício Alameda Rio Negro, onde estão registradas as sedes da Naskar, da 7Trust e da Next Holding Financeira.
A formalização do controle pelo Banco Central é um aspecto relevante para a responsabilização dos indivíduos envolvidos, mas Barboza ressalta que ainda é necessária a manifestação judicial sobre a situação.
Colapso e Reações na Justiça
No dia 4 de maio de 2026, a Naskar parou de efetuar os pagamentos dos rendimentos mensais dos clientes. No dia seguinte, o aplicativo Naskar Cliente foi retirado do ar. Na data de 9 de maio, foram protocoladas quatro tutelas cautelares em três tribunais, com diversas partes, incluindo a 7Trust, a Naskar e seus controladores.
No mesmo dia, a Naskar enviou um aviso solicitando documentos pessoais a cada cliente, com um prazo de dez dias, enfatizando que isso não implicaria no reconhecimento automático de seus saldos. Esse tipo de tutela é um mecanismo processual que permite que o juiz tome medidas provisórias antes do início de um processo principal.
Movimento de Recuperação Judicial
No dia 14 de maio, a Naskar, junto com a empresa Azara, anunciou publicamente a venda do grupo por cerca de R$ 1,2 bilhão, prometendo iniciar a devolução dos recursos aos investidores na semana seguinte. Barboza observa que tais anúncios podem servir para evitar novos processos judiciais, embora a falta de documentação verificável os torne frágeis.
Enquanto isso, no dia 15 de maio, os sócios da Naskar estavam reunidos em um escritório de advocacia em São Paulo, discutindo estratégias de recuperação judicial, segundo informações de fontes anônimas. A Polícia Civil do Distrito Federal abriu uma apuração formal, mas até o fechamento desta reportagem, os controladores da Naskar mantinham-se inacessíveis, sem comunicação oficial e com o aplicativo da empresa fora do ar.
Fonte: timesbrasil.com.br

