Ameaça de Sobretaxas Americanas
A iminente possibilidade de sobretaxas americanas que podem chegar a 37,5% sobre produtos brasileiros gerou preocupação em diversos setores da economia. No entanto, o impacto no setor de energia deve ser desigual. De acordo com André Pereira, doutor em energia pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), a energia solar fotovoltaica no Brasil possui uma proteção natural contra as tarifas propostas, visto que sua cadeia de fornecimento é quase totalmente dependente da China e não dos Estados Unidos.
Produção Chinesa de Painéis Solares
Em uma entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, realizada na quinta-feira, 4 de outubro, Pereira esclareceu que a China é responsável por mais de 90% dos painéis solares comercializados globalmente e controla toda a logística do setor. "As tarifas americanas, em um primeiro momento, não teriam impacto nessa oferta brasileira", afirmou o especialista, referindo-se à estrutura de fornecimento do país.
Efeito Colateral e Oportunidades
Outro ponto mencionado por Pereira é um efeito colateral que poderia ser benéfico para o setor no Brasil. Com a imposição de mais restrições para a venda de produtos chineses aos Estados Unidos, as fábricas localizadas na China poderiam direcionar parte de sua produção para outros mercados, o que poderia resultar em uma pressão para baixo sobre os preços. "Isso poderia dar um novo impulso ao setor solar brasileiro", avaliou Pereira, destacando as potenciais oportunidades que poderiam surgir a partir deste cenário.
Expansão do Setor Solar
Esse contexto é reforçado por um período contínuo de crescimento no setor solar brasileiro. De acordo com dados da Absolar mencionados na entrevista, o país já acumulou R$ 313 bilhões em investimentos no setor, além de ter gerado 2,1 milhões de empregos e de contar com 4,37 milhões de unidades de geração distribuída instaladas. Atualmente, a energia solar representa mais de 20% da matriz elétrica brasileira, mostrando um crescimento exponencial que se mantém por pelo menos uma década.
Impacto nos Biocombustíveis
Por outro lado, a situação é diferente para o setor de biocombustíveis. Pereira aponta esse segmento como a principal possível vítima das sobretaxas americanas, uma vez que grande parte de sua cadeia produtiva está ligada ao agronegócio brasileiro, que é diretamente afetado pelas tarifas de Trump.
Nos últimos anos, o Brasil estabeleceu parcerias significativas, tanto com os Estados Unidos quanto com a Índia, para aumentar a exportação de biocombustíveis. Essa estratégia faz parte do plano brasileiro de inserção na economia de baixo carbono. Contudo, uma sobretaxa de até 37,5% poderia comprometer esses planos, impactando especialmente o setor sucroenergético na região interior de São Paulo.
Produção Interna e Vulnerabilidades
“O setor de biocombustíveis acabaria sendo a principal vítima”, afirmou Pereira, ressaltando que, embora uma parte da produção ainda atenda ao mercado interno, isso limita, mas não elimina, os efeitos negativos das sobretaxas.
As Oscilações da Política Energética Internacional
André Pereira analisa que o Brasil se posiciona como um país que reage de forma estrutural às mudanças da política energética internacional, experimentando flutuações entre avanços e recuos, enquanto países como a União Europeia e a China seguem com maior consistência em direção à descarbonização.
As oscilações na política energética americana intensificam essa situação. O governo de Joe Biden promoveu iniciativas que incentivam as energias renováveis por meio do Ato de Redução da Inflação, enquanto o retorno de Trump resultou em um retrocesso em parte dessas medidas. Como o Brasil está inserido no contexto geopolítico americano na América Latina, as consequências dessas oscilações são sentidas com mais intensidade no país do que em outras nações.
Pereira finaliza ressaltando que “o Brasil acaba sendo mais vulnerável e mais reativo às medidas dos Estados Unidos”, destacando que, apesar da proteção natural que o setor solar oferece, ainda existe uma necessidade premente de que o país desenvolva uma política energética que seja menos dependente da influência das decisões tomadas em Washington.
Fonte: timesbrasil.com.br


