Desemprego em Massa e o Papel da Inteligência Artificial
A Crise do Emprego Corporativo
A América Corporativa está passando por um período de demissões em massa em função de cortes históricos de empregos em posições administrativas e de suporte, o que levanta questionamentos sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) nas oportunidades de trabalho. O aumento da IA generativa e automatizada está, de fato, influenciando esse cenário, mas as recentes demissões anunciadas por empresas como Amazon, UPS e Target vão além da simples evolução tecnológica.
Essas empresas comunicaram a eliminação de mais de 60.000 postos de trabalho este ano, destacando que o foco está em reduzir excessos nas estruturas corporativas, otimizar operações e se ajustar a novos modelos de negócios. No entanto, com a ausência do relatório mensal de empregos do Departamento de Estatísticas do Trabalho, que ficou em suspensão devido ao fechamento do governo, esses anúncios levantaram incertezas sobre a robustez do mercado de trabalho, suscitando temores sobre uma possível recessão nas profissões de escritório impulsionada pela IA.
Empresas Substituindo Funcionários por IA
Diversas companhias explicitamente afirmaram que estão dispensando seus colaboradores para dar espaço à IA. O CEO da Klarna, Sebastian Siemiatkowski, mencionou em maio que a empresa reduziu seu quadro de funcionários em 40% em parte devido à automação. Em abril, a Duolingo decidiu não mais utilizar contratados para funções que podem ser realizadas por IA, enquanto a Salesforce eliminou 4.000 posições de atendimento ao cliente em setembro, afirmando que a tecnologia pode realizar 50% do trabalho.
Entretanto, especialistas entrevistados pela CNBC expressaram a opinião de que algumas empresas podem estar "lavando" as justificativas de suas demissões, atribuindo a culpa ao novo avanço tecnológico como uma forma de encobrir falhas nas operações e cortes de custos tradicionais. Peter Cappelli, professor de gestão na Wharton School e diretor de seu Centro de Recursos Humanos, declarou que, após estudos minuciosos, não encontrou evidências que sustentassem a ideia de que a IA está eliminando postos de trabalho em uma escala significativa. Muitos casos não resultam em redução de pessoal.
Impactos da Crise na Economia
As demissões, ocorrendo em meio a uma sequência de cortes no setor de tecnologia, projetaram uma sombra sobre uma economia já instável, marcada por inflação persistente, aumento da inadimplência e redução no sentimento do consumidor, além de um índice tarifário médio o mais alto em quase um século, segundo estimativas do Budget Lab da Universidade de Yale. Apesar dessa avalanche de notícias desanimadoras, o mercado de ações pouco reagiu, permanecendo em níveis quase recordes, em grande parte sustentado por grandes empresas de IA.
Cappelli observa que o recente aumento nas demissões está ligado às preocupações com a saúde da economia e à possível influência de um efeito "bandwagon", onde as empresas, ao observarem a concorrência tomando medidas de corte, seguem o movimento. Segundo ele, investidores geralmente valorizam cortes, interpretando-os como ações de eficiência.
Ainda que a IA e a automação estejam permitindo algumas dessas demissões, os motes por trás dos cortes são complexos e diferem de empresa para empresa.
Demissões em Grandes Empresas
A Starbucks, por exemplo, anunciou a demissão de cerca de 2.000 postos de trabalho corporativo em resposta à desaceleração em suas vendas e ao esforço de reestruturação sob a direção de seu novo CEO, Brian Niccol. A Meta, em seu setor de IA, cortou aproximadamente 600 empregos para se tornar mais ágil e reduzir camadas organizacionais. A Intel, por sua vez, demitiu cerca de 15% de sua força de trabalho após havê-la ampliado excessivamente em fabricação de chips sem demanda correspondente.
Essas medidas são vistas por John Challenger, CEO da Challenger, Gray & Christmas, como um ponto de inflexão na economia e no mercado de trabalho. Ele destaca que, apesar de um período sem demissões significativas, as recentes movimentações podem sinalizar uma reversão.
A Expansão da Amazon Durante a Pandemia
Durante a pandemia de Covid-19, a Amazon realizou um significativo aumento em seu quadro de funcionários, elevando suas contratações para atender à demanda crescente por serviços de e-commerce e computação em nuvem, passando a contar com 1,3 milhões de colaboradores entre 2019 e 2020. No ano de 2021, a empresa alcançou 1,6 milhão de empregados globalmente.
Com a chegada de Andy Jassy como CEO, após a saída de Jeff Bezos, houve um movimento para reverter parte dessa expansão. Na última semana, a Amazon anunciou demissões de 14.000 postos de trabalho corporativo, a maior em sua história e englobando praticamente todas as unidades da companhia, resultando em mais de 41.000 cortes desde 2022, podendo haver mais demissões até 2026.
Embora a inteligência artificial desempenhe um papel importante, Jassy afirmou que as mudanças não são dirimidas por questões financeiras ou impulsionadas por IA, mas surgem da necessidade de simplificar a empresa e torná-la mais ágil, caracterizando-a como a maior startup do mundo. Mesmo que atualmente a Amazon não substitua trabalhadores por IA, a empresa está se preparando para intensos investimentos em infraestrutura e serviços de IA.
A Mudança de Estratégia da UPS
No início do ano, a UPS anunciou uma mudança drástica em sua estratégia, redimensionando a relação com a Amazon em busca de negócios de maior margem e que demandam menos pessoal. Em 2024, as remessas da Amazon representaram cerca de 12% da receita da UPS, mas a empresa pretende reduzir esse volume em mais da metade até junho devido aos baixos lucros.
O CEO da UPS, Carol Tomé, mencionou que a mudança é uma iniciativa da empresa em buscar maior controle sobre seu futuro. Em decorrência disso, a UPS está se movendo em direção a setores mais rentáveis, como saúde e serviços B2B, exigindo menos recursos.
A empresa relatou que, até agora, 48.000 postos foram eliminados ao longo do ano, resultado de sua decisão que incluiu o fechamento de 93 prédios — não uma substituição por robótica, conforme destacou. Enquanto isso, a automação está prevista para se expandir em suas operações, reduzindo gradualmente a necessidade de contratações.
Desafios da Target
A recente decisão da Target de cortar 1.800 empregos, o que representa cerca de 8% de sua força de trabalho corporativa, reflete tanto a dinâmica do consumo quanto os desafios internos da própria varejista. Essa é a primeira grande demissão em uma década e surge após um período de receitas praticamente estagnadas.
O novo CEO da Target, Michael Fiddelke, enfatizou que cortes são necessários para simplificar uma estrutura corporativa que cresceu mais rapidamente do que as vendas. Enquanto a concorrente Walmart se beneficia de sua forte receita em alimentos, a Target, de seu lado, é mais dependente de produtos supérfluos, tornando-a mais vulnerável em períodos de retração do consumo.
A combinação de desafios autoimpostos, como a queda na qualidade dos produtos e a má gestão de inventário, levou a empresa a uma situação em que sua força de trabalho cresceu desproporcionalmente em relação às vendas. Entre 2023 e 2024, o quadro de funcionários global da Target aumentou em 6%, enquanto as vendas caíram 0,8%.
Fiddelke observou que a complexidade interna criou obstáculos que dificultam a tomada de decisões eficazes, afirmando que o foco nos cortes deve fomentar uma execução mais ágil e promover a aceleração tecnológica.
— Contribuição de Melissa Repko e Steve Liesman para este relatório.
Fonte: www.cnbc.com


