Impactos da Invasão da Ucrânia na Economia Russa
O quarto aniversário da invasão da Ucrânia pela Rússia é marcado por Moscou observando ganhos territoriais, mas também enfrentando um novo desafio estrutural que impacta diretamente o cidadão russo.
A assessora sênior do Banco da Finlândia, Laura Solanko, declara que “a maior razão pela qual a economia russa está desacelerando é porque ela chegou a seus limites físicos. Além disso, a economia russa está muito mais isolada do resto do mundo.”
Adaptações da Economia Russa
Durante os primeiros impactos do conflito, a Rússia conseguiu, em parte, se preparar, centralizando suas exportações para a China, avançando no processo de desdolarização e aumentando os gastos estatais. Essas medidas permitiram que o Kremlin conseguisse contornar e, de certa forma, sobreviver às sanções impostas pelo Ocidente.
A economia, que é um dos pilares centrais do governo de Vladimir Putin, sustentou crescimento superior a 4% entre os anos de 2023 e 2024, após um declínio expressivo em 2022.
Entretanto, essa recuperação trouxe à tona o problema do superaquecimento econômico. Nesse cenário, a clássica relação de oferta e demanda mostra que, quando o consumo aumenta e a quantidade de produtos disponíveis nas prateleiras não é suficiente, os preços inevitavelmente tendem a subir.
Com o aumento da inflação e o isolamento comercial, os sinais que emitem os motores da economia russa indicam uma possível estagnação.
Desempenho do PIB e Demandas da População
Em 2025, o PIB (Produto Interno Bruto) apresentou um crescimento de apenas 0,5%, o pior desempenho registrado desde o início do conflito. Para o ano de 2026, o FMI (Fundo Monetário Internacional) prevê um aumento de 0,8%.
Dentre os fatores que contribuem para a desaceleração econômica, destaca-se a significativa queda na demanda interna. Os gastos dos consumidores diminuíram, pressionados pela alta nos preços e pela elevação dos impostos.
Pelo território russo, diversas empresas, incluindo restaurantes e cafés, estão encerrando suas atividades diante do que se tem chamado de “desaparecimento dos clientes”. Em fevereiro, observou-se que o crescimento real dos gastos dos consumidores ficou estagnado pela primeira vez em dois anos.
Situada em Moscou, uma padaria chamada BonCafe apresenta prateleiras vazias, contando apenas com a presença dos proprietários. A proprietária, Yekaterina Oreshkina, expressa arrependimento por ter investido tanto tempo quanto dinheiro no negócio.
“Quando abrimos, não esperávamos uma queda tão acentuada”, relatou Oreshkina em entrevista à Reuters.
Sobre a falta de discussões acerca do tema, Solanko aponta que “você tem que fazer o cálculo se perder sua vida feliz vale o risco. Se no fim de tudo o mais provável é que você vá terminar na cadeia”, referindo-se à possibilidade de protestos populares em relação à situação econômica.
A Máquina de Guerra Russa em Números
No médio prazo, o otimismo parece escasso. Além dos problemas já citados, somam-se a queda na produtividade, o impacto das várias sanções impostas pela Europa e pelos Estados Unidos, e a escassez de mão de obra, que se agravou devido ao esforço bélico.
Alfred Kammer, diretor do Departamento Europeu do FMI, enfatiza: “a produtividade será afetada, incluindo por meio da restrição de transferência tecnológica.”
No contexto do conflito, a economia da Rússia se apresenta como um ator que enfrenta dificuldades para se estabelecer. “A economia foi impulsionada pelo aumento de gastos públicos durante anos, mas agora atingiu um limite há um ano. Não há mais mão de obra ociosa, nem capacidade industrial ou de transporte disponível,” comentou um especialista.
A Russia destina atualmente aproximadamente US$ 149 bilhões, correspondendo a 7,1% do seu PIB, em despesas militares, conforme dados do Banco de Dados de Gastos Militares do Sipri (Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo). Esse valor está em ascensão desde o início da invasão e é duas vezes maior do que o registrado uma década atrás. Em comparação, a média de gastos militares global é de 2,5% do PIB.
O crescimento nos gastos militares não é um fenômeno exclusivo da Rússia. O Sipri observa que o aumento nas despesas acompanha a crescente tensão geopolítica mundial, com os gastos globais alcançando o nível mais alto em 40 anos.
O relatório do Sipri destaca que “o crescimento dos gastos globais na última década deve-se, em parte, ao aumento das despesas na Europa, exacerbadas pela guerra entre Rússia e Ucrânia e também por conflitos regionais mais amplos.” Vários países também se comprometeram a aumentar seus gastos com defesa, o que deverá provocar novos acréscimos globais nos próximos anos.
A Rússia se destaca como um dos cinco maiores países em gastos militares, com aumento de 38% entre 2023 e 2024. A despesa militar de 2024 representa 19% do orçamento russo, com a possibilidade de que os valores reais superem os US$ 149 bilhões estimados.
Desde o começo da invasão em larga escala da Ucrânia, cerca de 30% dos gastos orçamentários russos têm sido classificados como secretos. O relatório aponta que o orçamento foi modificado em outubro de 2024 para fortalecer os esforços militares, o que dificulta a avaliação precisa dos gastos totais do ano.
De acordo com o Sipri, “parte dos recursos foram destinados a subsidiar alguns produtores de armas que, segundo informações, estavam à beira da falência.”
Visando a recuperação, a Rússia se aproveita dos recursos extraídos das regiões ocupadas que são ricas em grãos, que, segundo Vicente Ferraro, cientista político e pesquisador da FGV (Fundação Getulio Vargas) e da USP (Universidade de São Paulo), estão sendo “saqueadas”.
A consequência disso é uma distorção na economia, tanto em relação à mão de obra quanto aos gastos governamentais.
“A economia continua a ser um pilar central para Putin. Um dos fatores que explicam a estabilidade política do Kremlin é a estabilização econômica, especialmente quando comparada aos anos 90”, analisa Ferraro.
Perspectivas Futuras
O professor de História Contemporânea da USP e especialista em Rússia, Angelo Segrillo, observa que o sistema conhecido como “economia de guerra” provoca grandes desperdícios econômicos, podendo, em última instância, se tornar insustentável.
“Embora, em um primeiro momento, uma economia de guerra possa estimular o crescimento econômico por um período, com a passagem do tempo, as distorções provavelmente levarão ao desperdício e frequentemente à estagnação,” declarou Segrillo.
Solanko ressalta que o valor elevado não é inviável, mas indica um desvio de recursos que poderiam ser alocados em outros setores. Isso significa que, enquanto a máquina de guerra cresce, as demais áreas da economia ficam paralisadas.
“A alternativa seria utilizar esse financiamento em outras necessidades econômicas. O PIB da Rússia poderia aumentar se a alocação dos gastos públicos fosse alterada, passando de despesas com defesa para ações sociais,” explicou a especialista.
A guerra se revelou mais onerosa do que o Kremlin havia previsto, já que acreditava que a invasão poderia ser concluída em poucas horas. Mesmo diante de uma deterioração no cenário econômico, Putin permanece firme em seu objetivo de submeter a Ucrânia a suas vontades.
“Devemos considerar que há maneiras de ferir a Rússia economicamente, porém, infelizmente, isso não irá encerrar o conflito,” finaliza Solanko.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


