Cuba enfrenta novos desafios geopolíticos
No dia 16 de janeiro de 2026, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, participou de um protesto “anti-imperialista” em frente à Embaixada dos Estados Unidos, em resposta às incursões americanas na Venezuela, que resultaram na morte de 32 soldados cubanos.
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A pressão dos EUA sobre Cuba
Após o início de ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o senador Lindsey Graham, republicano e aliado do presidente Donald Trump, afirmou que “Cuba é a próxima”. Desde janeiro, os EUA impuseram um bloqueio de petróleo sobre a ilha socialista, logo após a Sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por meio de uma operação militar extraordinária. Essa ação provocou uma crise econômica acentuada e colocou Cuba diante de seu maior desafio desde o colapso da União Soviética.
Iran, aliado estratégico de Cuba, está sob ataque constante. “Este regime comunista em Cuba tem os dias contados”, disse Graham ao programa “Sunday Night in America”, da Fox News.
Comentários de Trump sobre Cuba
Antes dos ataques ao Irã, Trump expressou o desejo de realizar uma “tomada amigável” da ilha, sem fornecer detalhes adicionais. Esses comentários, assim como os ataques dos Estados Unidos ao Irã e à Venezuela, não aliviaram as crescentes preocupações em Havana, conforme especialistas relataram à CNBC.
A mensagem de Cuba é uma que tem sido constante desde 1959: a sobrevivência só será alcançada através da adaptação ao contexto geopolítico em mudança.
Par Kumaraswami
professor da Universidade de Nottingham
Possíveis consequências de uma “tomada amigável”
Uma “tomada amigável” poderia se assemelhar à Venezuela após a remoção de Maduro, onde um regime autoritário ainda estaria no poder, mas seguiria na direção e na velocidade determinadas pelos EUA, explicou Carlos Solar, pesquisador sênior em Segurança da América Latina na RUSI, um think tank de defesa baseado em Londres.
Solar observou, por meio de e-mail enviado à CNBC, que Cuba perdeu o apoio da Venezuela e do Irã “num momento de máxima pressão” da administração Trump. No entanto, ele acrescentou: “O que não está claro é como os EUA farão o regime cubano ceder, forçando Havana a capitular”.
Ele ainda destacou que “não estamos vendo o tipo de preparação militar que precedeu a operação Absolute Resolve, que eventualmente levou à captura de Maduro em janeiro. Pode ser que os EUA abordem Cuba de uma maneira totalmente diferente”, acrescentou.
Reação internacional à situação em Cuba
Um porta-voz da Casa Branca e a embaixada cubana em Londres não responderam ao pedido de comentário da CNBC. O Ministério das Relações Exteriores de Cuba convocou o fim do conflito no Oriente Médio e declarou que “condena nos termos mais veementes” o ataque conjunto dos EUA e de Israel ao Irã em 28 de fevereiro.
Preocupações crescentes entre os cubanos
Recentemente, a Rússia alertou que a situação em Cuba parece estar se deteriorando após as forças cubanas terem matado quatro pessoas que estavam em um barco a motor registrado nos EUA, próximo à costa cubana. O bloqueio praticamente isolou Cuba do petróleo venezuelano desde o início da operação militar para capturar Maduro, em 3 de janeiro. O governo cubano afirmou que 32 de seus cidadãos perderam a vida durante o ataque.
Trump também se referiu ao governo cubano como “uma ameaça incomum e extraordinária” e prometeu impor tarifas a qualquer país que fornecesse petróleo à ilha. No entanto, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou no final do mês passado que permitiria a revenda de petróleo venezuelano ao setor privado de Cuba.
Essa medida foi vista como um pequeno passo para aliviar a aguda escassez de combustível na ilha, que resultou em várias companhias aéreas reduzindo voos para o país. O turismo historicamente foi uma fonte significativa de receita para o governo cubano, que vive uma grave crise financeira.
Um bicitáxi passa por montanhas de lixo acumuladas nas ruas de Havana em 17 de fevereiro de 2026.
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Aumentando a incerteza sobre o futuro
Kumaraswami, professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Nottingham, afirmou à CNBC que os ataques da administração Trump ao Irã e os comentários recentes sobre o regime cubano intensificaram o clima de incerteza e ansiedade em Havana. “Os cubanos estão cada vez mais preocupados com sua sobrevivência em meio a esse caos global, e a recente violência contra o Irã não fez nada para aliviar seus medos”, declarou por e-mail.
Ele também notou que existem indícios de que a administração dos EUA está negociando com o governo cubano sobre mudanças na economia do país, refletindo a ênfase atual do presidente Miguel Díaz-Canel nas melhorias econômicas como prioridade.
Segundo Kumaraswami, a mensagem de Cuba tem sido “constante” desde que os comunistas assumiram o poder em 1959: “A sobrevivência só será atingida por meio da adaptação às mudanças do contexto geopolítico”.
Cuba busca medidas para evitar colapso
Cuba adotou medidas para proteger serviços essenciais e racionar o fornecimento de combustível para setores-chave. As Nações Unidas já haviam alertado sobre um possível “colapso” humanitário à medida que os suprimentos de petróleo do país diminuem.
Robert Munks, chefe de pesquisa para as Américas da Verisk Maplecroft, uma empresa de inteligência de riscos, afirmou à CNBC que “Cuba acaba de comprar uma janela de oportunidade — mas é uma janela estreita”.
“A operação contra o Irã remove Cuba – temporariamente – do olhar de Washington, à medida que a administração dos EUA se concentrará na campanha do Golfo nas próximas semanas”, comentou.
No entanto, Munks espera que Cuba retorne aos holofotes, ressaltando que a diáspora cubana na Flórida do Sul deve pressionar, e Washington demonstrou que está priorizando o Hemisfério Ocidental em sua estratégia de segurança nacional remodelada. “O regime em Havana permanece no controle, por enquanto. Qualquer agitação causada pelas dificuldades econômicas pode ser repentina e espontânea, o que daria a Washington um pretexto para voltar a pressionar o regime”, advertiu Munks.
Fonte: www.cnbc.com

