Endividamento das Famílias e seu Impacto no Setor de Atacadistas
Contexto da Situação
A Abaas (Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço) emitiu um alerta sobre as consequências do endividamento das famílias no consumo e no desempenho do setor de atacarejo. Em um documento apresentado ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), na última segunda-feira (4), a associação afirmou que "a roda da economia está travando" devido ao aumento do comprometimento da renda dos brasileiros.
Papel do Atacarejo
A associação destaca que o atacarejo possui uma posição privilegiada para identificar alterações no orçamento das famílias antes que estas se tornem evidentes nas estatísticas oficiais. O setor é considerado o principal canal de abastecimento alimentar do Brasil, alcançando 76% dos lares do país e representando 52% do varejo alimentar moderno, segundo dados mencionados pela entidade. As 24 redes associadas à Abaas reportaram um faturamento total de R$ 369,5 bilhões em 2025.
Dados Sobre Endividamento e Inadimplência
Com base em informações do Banco Central (BC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e da Serasa, a Abaas ressalta que o endividamento e a inadimplência das famílias atingiram níveis recordes. Para a associação, a manifestação mais evidente desse cenário é a segmentação do padrão de consumo, onde se observa um fenômeno denominado “efeito K”. Esse efeito indica que, enquanto os canais voltados à alta renda estão apresentando crescimento, o pequeno varejo, mais associado à baixa renda, enfrenta um retrocesso.
Desempenho do Varejo
No quarto trimestre de 2025, conforme dados da NielsenIQ citados no documento, o varejo moderno apresentou um crescimento de 4% em volume, em contraste com a queda de 9,6% no pequeno varejo. A associação argumenta que a diminuição do consumo entre as camadas de menor renda não pode ser atribuída exclusivamente ao aumento dos preços dos alimentos. O documento menciona que itens essenciais da cesta básica, como arroz, leite, açúcar e feijão, tiveram redução de preços em 2025, mas mesmo assim, o consumo dessa população recuou. A explicação da entidade é que o problema fundamental parece ser a renda comprometida por dívidas.
Preocupações com Apostas Online
Outro tema abordado com preocupação é o crescimento das apostas online. O informe indica que o Brasil concentra um elevado volume de consumo nesse setor, registrando 2,7 bilhões de acessos mensais a plataformas regulamentadas entre maio e junho de 2025. A entidade também destaca a relevância do mercado ilegal e o fluxo de recursos via Pix relacionados a essas apostas.
Propostas da Abaas
No documento, a Abaas defende que ações contra o endividamento devem ser acompanhadas de restrições mais rigorosas ao mercado de apostas, especialmente no ambiente digital. Entre as sugestões apresentadas estão:
- Bloqueio de URLs de sites de apostas.
- Restrições a chaves Pix associadas a apostas ilegais.
- Responsabilização de plataformas pela veiculação de anúncios de sites não autorizados.
- Limitações à publicidade de cassinos online.
A entidade também considera que o programa Desenrola 2.0, introduzido pelo governo, representa um avanço, embora com um alcance parcial. Este programa prevê a aplicação de descontos em dívidas, uma taxa de juros máxima de 1,99% ao mês, a possibilidade de utilizar uma parte do FGTS para renegociações e a imposição de um bloqueio de um ano para apostas aos beneficiários.
Entretanto, a Abaas informa que a restrição relacionada às apostas só se aplica aos que aderirem ao programa, deixando assim milhões de brasileiros vulneráveis à problemática do endividamento.
Agenda de Ações
A associação propõe uma abordagem em dois horizontes:
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Medidas Imediatas: A serem implementadas nos próximos 12 meses, com foco em coibir apostas ilegais, limitar a publicidade de cassinos online e estabelecer um teto progressivo para o crédito consignado.
- Ações Estruturais: A serem planejadas para um período de 5 a 10 anos, inspiradas nas políticas de combate ao tabagismo, envolvendo campanhas nacionais, avisos obrigatórios e o tratamento da ludopatia através do Sistema Único de Saúde (SUS).
Reflexão Final da Entidade
Na percepção da Abaas, o assunto deixou de ser apenas uma questão econômica e se transformou em um desafio que também envolve a saúde pública. A mensagem final do documento enfatiza que "a roda da economia só gira se o consumo voltar a quem mais precisa consumir".
Fonte: www.cnnbrasil.com.br