Servidores do Banco Central com Atividades Irregulares
Dois servidores de alto escalão do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, que foi instituído para fiscalizar as instituições financeiras, mantinham relações impróprias. Embora oficialmente trabalhassem para a entidade pública, atuavam clandestinamente em benefício de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
Ação e Consequências
Entre os anos de 2019 e 2023, durante a administração de Roberto Campos Neto, os servidores Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana estavam envolvidos em atividades que comprometeram a integridade do Banco Central. Eles revisavam documentos do Banco Master antes de serem protocolados e informavam Vorcaro sobre sua presença em sistemas de monitoramento. Condutas ainda mais graves foram descobertas, como a recebimento de propinas disfarçadas por meio de contratos fictícios de consultoria.
Ambos os servidores foram afastados administrativamente pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em janeiro deste ano. Entretanto, por ordem do ministro André Mendonça, esse afastamento foi convertido em judicial, obrigando-os a utilizar tornozeleira eletrônica.
Os Crimes e as Provas
Os elementos coletados pela Polícia Federal, que foram aceitos por Mendonça, indicam a prática de corrupção passiva, em violação ao artigo 317 do Código Penal, que pode resultar em penas de 2 a 12 anos de prisão. Também estão envolvidos os artigos que proíbem a violação de sigilo funcional e participação em organização criminosa, bem como a lavagem de dinheiro, podendo resultar em longas penas de prisão que, em caso de condenação, podem ser somadas.
As evidências em questão incluem mensagens trocadas via WhatsApp entre os dois servidores e Daniel Vorcaro. Eles faziam parte de um grupo criado para facilitar a comunicação direta entre o controlador do banco e aqueles que deveriam fiscalizá-lo. Nesse canal, Vorcaro enviava esboços de documentos e ofícios a serem protocolados no Banco Central, e os servidores realizavam uma revisão, sugerindo alterações antes da formalização. Mendonça declarou que essa atuação era incompatível com as atribuições que incumbiam os servidores públicos.
Orientações e Espionagem
Paulo Sérgio orientava Vorcaro sobre como se comportar nas reuniões com o presidente do Banco Central, sugerindo argumentos e estratégias. Um exemplo disso foi uma mensagem onde Paulo Sérgio enviou a foto de sua portaria de nomeação como chefe-adjunto do departamento, ao que Vorcaro respondeu com um simples "Parabéns."
Da mesma forma, Paulo Sérgio alertava Vorcaro sobre movimentações financeiras do Banco Master identificadas pelo monitoramento do Banco Central, permitindo que Vorcaro tomasse medidas preventivas antes que qualquer questionamento fosse formalizado pela autarquia.
Bellini Santana, por sua vez, se envolvia em reuniões privadas com Vorcaro fora do ambiente externo do Banco Central e manifestava a necessidade de manter certas comunicações por meio de telefonemas, evitando registros escritos.
Esquema de Pagamento
O pagamento aos dois servidores seguia um esquema elaborado para ocultar a origem do dinheiro. A empresa Varajo Consultoria Empresarial, sob a administração de Leonardo Augusto Furtado Palhares, foi utilizada para formalizar um contrato fictício de prestação de serviços com Bellini Santana, que supostamente descrevia sua participação em um estudo técnico inexistente sobre inserção de jovens no mercado financeiro.
Os pagamentos eram autorizados por Vorcaro e gerenciados por Fabiano Zettel, seu cunhado, e Ana Claudia Queiroz de Paiva, funcionária de Vorcaro. Em uma troca de mensagens no WhatsApp, Zettel indagou a Vorcaro sobre a necessidade de pagar Bellini. Vorcaro confirmou: "OK", instruindo para que um terceiro fosse envolvido, a fim de dificultar o rastreamento.
Em outra mensagem, Zettel informou: "Belline cobrando. Paga?" e Vorcaro respondeu: "Claro." A estratégia de manobrar pagamentos por meio de terceiros também foi utilizada para remunerar outras operações ilícitas.
Além disso, a decisão registra que, ao saber que Paulo Sérgio viajaria a parques de diversão em Orlando, Vorcaro respondeu que precisaria "arrumar guia pra essas pessoas", um ato que não disfarça a tentativa de dissimulação, indicando um possível suborno.
Papel dos Servidores no Banco Central
O processo judicial liderado por Mendonça descreve quatro núcleos de operações criminosas dentro do Banco Master: financeiro, corrupção institucional, lavagem de dinheiro e intimidação. Paulo Sérgio e Bellini Santana estavam inseridos no núcleo de corrupção institucional, que facilitava a existência dos demais núcleos. Sem a atuação deles dentro do Banco Central, Vorcaro não teria como se antecipar a questionamentos regulatórios ou ajustar documentos antes de serem protocolados.
Mendonça observou que a permanência dos servidores em seus cargos criava um "ambiente propício para a continuidade das condutas ilícitas já identificadas." Diante disso, foi determinado o afastamento judicial e a proibição do acesso físico ou digital deles às dependências do Banco Central. A autarquia também deverá receber todos os elementos da investigação para uma apuração disciplinar paralela.
Informações sobre os Ex-Servidores
Paulo Sérgio Neves de Souza ingressou no Banco Central em 1998, sendo economista formado pela PUC-SP e com um MBA em risco pela Fipecafi, da USP. Durante sua trajetória profissional, acumulou experiências em supervisão ao longo de 25 anos, até alcançar o cargo de chefe-adjunto do departamento durante a gestão de Campos Neto. Em janeiro de 2026, foi afastado de sua posição após ordem administrativa.
Bellini Santana, o superior imediato de Paulo Sérgio, também foi afastado administrativamente em janeiro de 2026. Ele exercia responsabilidade direta sobre a supervisão das instituições financeiras monitoradas pelo Banco Central, incluindo o Banco Master, e era considerado um candidato natural à diretoria de fiscalização.
Fonte: timesbrasil.com.br


