Poderio do PCC em Destaque
Em meio ao recente acordo de cooperação entre Brasil e Estados Unidos para o combate ao crime organizado transnacional, assim como às discussões sobre a possibilidade de classificar facções brasileiras como grupos terroristas, o jornal americano The Wall Street Journal publicou, na última segunda-feira (20), uma reportagem que destaca o poder financeiro, organizacional e bélico do Primeiro Comando da Capital (PCC). O artigo menciona que a facção já possui uma divisão de operação específica voltada para o público americano.
Evolução do PCC
A reportagem detalha como o PCC, que teve suas origens em prisões paulistas com o intuito de reivindicar melhorias para os detentos, evoluiu para um grupo criminoso complexo, altamente sofisticado e profissional, com ramificações que se estendem ao mercado internacional de drogas.
De acordo com a jornalista Samantha Pearson, atualmente, o PCC conta com aproximadamente 40.000 membros, tanto dentro das penitenciárias quanto nas ruas, além de uma vasta rede de afiliados. Isso o torna, segundo diversas estimativas, o maior grupo criminoso das Américas, operando em quase 30 países em todos os continentes, exceto na Antártida.
Entrevistas e Análises
Para a elaboração da reportagem, a jornalista conversou com várias autoridades da segurança pública brasileira, incluindo Lincoln Gakiya, promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, além do jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso, que se dedica ao estudo da facção.
O Wall Street Journal diferencia o PCC de outras organizações criminosas internacionais, como os cartéis de drogas mexicanos e milícias colombianas. Essas últimas tendem a adotar uma postura mais chamativa e extravagante.
Perfil Discreto
Os membros do PCC mantêm um perfil discreto e profissional, segundo a reportagem. Eles buscam fortuna, em vez de fama, e evitam a violência gratuita que poderia atrair a atenção da polícia e das equipes de reportagem. Este comportamento, segundo a jornalista, contribui para que a facção desenvolva diversas estratégias de lavagem de dinheiro oriundo de atividades ilegais.
As táticas incluem o ingresso no mercado financeiro, utilizando fintechs, além do envolvimento com igrejas evangélicas, que ajudam o grupo a ganhar popularidade entre a população de baixa renda, um fenômeno conhecido como narcopentecostalismo.
Divisão Norte-Americana
A matéria destaca que, mesmo que a cocaína continue a ser o principal produto do PCC, a facção se tornou um problema significativo para os Estados Unidos. Segundo o artigo, o PCC agora possui uma "Divisão Norte-Americana" para suas operações.
A reportagem menciona que o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos congelou os bens de Diego Gonçalves do Carmo, um brasileiro acusado de lavar aproximadamente US$ 240 milhões para o PCC nos Estados Unidos. Embora esteja preso no Brasil, ele continua a ajudar a gerenciar as operações financeiras da facção. A defesa de Carmo não foi mencionada na reportagem.
Desde a detenção do brasileiro, as autoridades americanas identificaram, conforme Samantha, indivíduos ligados ao PCC em estados como Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Tennessee.
Além disso, em Massachusetts, o Ministério Público dos EUA anunciou, no ano passado, acusações contra 18 brasileiros que, segundo as investigações, estavam associados ao PCC por meio do tráfico de pistolas, rifles e espingardas, além de um caso envolvendo fentanil.
Estratégias de Expansão na Amazônia
O jornal também aponta como o PCC tem utilizado a Amazônia em sua busca por expansão. O grupo conecta-se com os principais produtores de cocaína da região — Colômbia, Peru e Bolívia — comprando a droga desses países vizinhos e escoando-a para outros continentes através do Porto de Santos, localizado no litoral paulista.
Para viabilizar esse transporte, a facção tem dominado territórios, rompido acordos com outras facções, subornado autoridades e eliminado intermediários envolvidos na compra de entorpecentes nas fronteiras.
A reportagem observa que, para enviar grandes quantidades de droga para fora do Brasil, mergulhadores e soldadores associados ao PCC foram presos por esconder cocaína nos cascos de navios destinados à Europa e à África. Em alguns casos, a droga era armazenada em compartimentos subaquáticos, instalados durante a calada da noite.
Convergência Criminosa
Segundo o The Wall Street Journal, a organização do PCC apresenta um modelo mais horizontalizado e menos vertical, o que também contribui para a rápida expansão do grupo. Sem uma hierarquia rígida, seus membros têm maior liberdade para formar parcerias com outras organizações criminosas de peso, como a ‘Ndrangheta italiana, a Yakuza japonesa, além de gangues albanesas e sérvias.
Essas alianças, descritas como “convergência criminosa” pelo promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco, abriram novos caminhos e rotas para a circulação de drogas.
As autoridades brasileiras já não falam mais em eliminar o PCC, mas sim em gerenciar sua convivência instável com o Estado, uma situação que frequentemente deixa investigadores frustrados ou perplexos, devido às ligações entre os criminosos e o próprio Estado.
Fonte: www.moneytimes.com.br