Recuperação Judicial da Ambipar e Impacto nos Investidores
Conforme noticiado, em virtude da iminente recuperação judicial da Ambipar, as ações da companhia registraram uma queda de 65%. Como consequência, as instituições financeiras XP e BTG decidiram interromper as estratégias dos Certificados de Operações Estruturadas (COEs) vinculados à empresa, que foram comercializados para pessoas físicas ao longo do ano de 2024. A XP tomou a decisão de antecipar o vencimento desses ativos e, ao liquidá-los, devolveu aos investidores apenas 6,88% dos valores que haviam sido inicialmente investidos. Para ilustrar, aqueles que aplicaram R$ 100 mil, acabaram recebendo apenas R$ 6.880 em retorno.
Este episódio recente reforça a relevância de uma leitura cuidadosa do prospecto e do Documento de Informações Essenciais (DIE), que é um termo exigido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para produtos de investimento estruturado.
Importância do Documento de Informações Essenciais (DIE)
O DIE é composto por informações cruciais sobre o emissor do investimento, datas de vencimento, condições de rentabilidade, riscos relacionados ao crédito e à liquidez, entre outras informações significativas. Entre essas, destaca-se a ausência de participação no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O planejador financeiro e especialista em investimentos, Jeff Patzlaff, ressalta que é fundamental compreender quais são as referências do investimento e quais eventos podem lever à antecipação do seu vencimento.
Garantia do COE Não é Incondicional
Geralmente, os investidores são levados a crer que o capital investido em um COE está protegido. No entanto, essa segurança não é necessária. A proteção costuma ser válida apenas se o investidor manter o investimento até o vencimento.
O especialista de mercado e CEO da Queiroz Investimentos e Participações, César Queiroz, menciona que existem dois perfis de investidores. O primeiro é o investidor qualificado, que conta com uma estrutura jurídica e contábil sólida, e que não assina contratos sem uma compreensão completa das cláusulas. O segundo perfil é formado por investidores comuns, que incluem pequenos empresários, empregados sob o regime da CLT e profissionais autônomos. Esses investidores, muitas vezes, estão tão focados na rentabilidade que confiam plenamente em seus assessores ou gerentes de conta.
A Prioridade dos Assessores Financeiros
A situação se agrava pelo fato de que assessores financeiros, em diversas ocasiões, priorizam suas comissões e metas de vendas, negligenciando a explicação adequada sobre os riscos envolvidos. Queiroz observa que, na busca por resultados, muitos profissionais se voltam para seus próprios interesses, levando à reflexão tardia sobre a falta de diligência. "É um aprendizado doloroso", conclui.
Linguagem Complexa e Dificuldades de Compreensão
O consultor de investimentos, Rafael Panonko, critica o elevado nível de vocabulário técnico presente nas lâminas e documentos relacionados aos COEs. Ele argumenta que tal linguagem dificulta a compreensão do conteúdo pelos investidores pessoas físicas, mesmo após a leitura. Na visão dele, o mercado deveria implementar mecanismos mais rigorosos de supervisão, especialmente em ofertas públicas, como omissões no vocabulário que poderiam ser interpretadas como marketing. "Por que esse nível de controle não é aplicado também nas ofertas de COE?", questiona Panonko.
Os Certificados de Operações Estruturadas foram criados com o objetivo de atrair investidores visando um prazo mais longo, prometendo rentabilidades superiores à média. De acordo com Queiroz, essa estrutura torna esse tipo de investimento especialmente vulnerável a riscos difíceis de prever no Brasil, como a variação de juros e a solvência das empresas. Ele acrescenta que, se houvesse uma orientação clara sobre os contratos formalizados, o COE não teria experimentado o crescimento explosivo que teve.
Perguntas Essenciais para Investidores em COEs
Panonko observa que, apesar de os COEs apresentarem a possibilidade de ganhos superiores à renda fixa convencional, o investidor também deve estar ciente dos riscos que assume. Ele menciona que trata-se de uma exposição típica à renda variável, mas com retornos limitados, o que resulta em uma assimetria que muitas vezes não está clara nas lâminas e que é difícil de entender por quem investe.
Para ele, independentemente do nível de compreensão do material informativo, o investidor deve fazer perguntas simples, como: "Qual é o valor que posso perder nessa operação? Qual é a liquidez deste investimento? A liquidez é de cinco anos? Posso resgatar meu capital antes do vencimento?".
Em geral, as corretoras afirmam que os riscos do produto estão sempre especificados nos documentos fornecidos. Assim, cabe ao investidor confirmar essas informações antes de qualquer movimentação. Contudo, especialistas do mercado ressaltam que deixar toda a responsabilidade nessa tarefa nas mãos do investidor individual não é a maneira adequada de comercializar um produto, especialmente aqueles que possuem uma complexidade maior, como os COEs.
Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, uma gestora de investimentos com duas décadas de atuação, observa que, embora o produto possa ser considerado bom, quem o comercializa deve ter uma profundidade de conhecimento para transmitir todas as informações necessárias sobre riscos e prazos aos investidores. Infelizmente, nem sempre isso ocorre, e eventos como o mencionado anteriormente deixam isso bastante evidente.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br