Brasil e Fim dos Subsídios a Combustíveis
O Brasil está se preparando para encerrar as medidas de subsídios relacionadas aos preços de combustíveis, como o diesel e a gasolina, caso a cotação do petróleo mantenha-se em torno de US$80 o barril. Essa informação foi divulgada pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron.
Impacto da Guerra no Oriente Médio
Em entrevista à Reuters na tarde de terça-feira (16), Ceron destacou que o fim do conflito no Oriente Médio poderia melhorar as projeções do mercado relacionadas à inflação e reduzir a pressão sobre os juros futuros. Isso abriria espaço para que o Banco Central implementasse uma flexibilização na política monetária, além de diminuir os custos da dívida pública.
O secretário expressou que os próximos 30 dias serão cruciais para observar a consolidação deste cenário, enfatizando a importância da cautela devido à guerra, que tem gerado reações voláteis não apenas nos preços do petróleo, mas também em variáveis como juros e câmbio.
Estabilidade dos Preços
“Se estabilizar (em torno de US$80 o barril), realmente não há necessidade de continuidade das medidas. A gente vai retirar por prudência, com toda certeza”, afirmou Ceron. Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, em fevereiro, o governo brasileiro tomou várias medidas emergenciais para mitigar os efeitos da alta da cotação internacional do petróleo, o que incluiu reduções de impostos e subvenções sobre diesel, gasolina, querosene de aviação e gás de cozinha.
De maneira geral, essas medidas foram criadas com validade de dois meses, e várias delas já tiveram sua duração prorrogada. Ceron mencionou que a maioria das iniciativas tem prazo de validade até julho, um período que ele considera adequado para avaliar os efeitos do previsto fim da guerra.
Cenários Possíveis
“Tem dois cenários: tentar antecipar o fim das medidas ou deixar elas se extinguir nos seus prazos de validade”, indicou. O secretário enfatizou que, embora o patamar de US$80 o barril represente um aumento em comparação às cotações do petróleo Brent de US$ 70 observadas no início do ano, a moeda brasileira se apreciou nesse período, com o dólar passando de R$ 5,20 para cerca de R$ 5,00. Essa apreciação ajudou a contrabalançar parte da pressão inflacionária, mesmo com o aumento dos custos dos insumos energéticos.
Queda nos Futuros do Petróleo
Os contratos futuros do petróleo Brent sofreram uma queda de 5,1% na terça-feira, fechando a US$ 78,96 o barril, à medida que surgiam informações sobre um acordo provisório para encerrar o conflito e reabrir o Estreito de Ormuz.
Medidas de Estímulo Econômico
Após uma revisão significativa nas estimativas sobre os cortes de juros pelo Banco Central devido ao cenário desafiador para a inflação, Ceron ressaltou que as projeções do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foram seriamente impactadas pela guerra no Irã. Ele refutou a ideia de que as medidas de estímulo implementadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenham sido determinantes nesse aspecto.
“Se você excluir o impacto da guerra, você não tem um cenário de um estresse inflacionário relevante”, declarou Ceron.
Expectativas de Reversão da Inflação
Com a expectativa de uma eventual acomodação nos preços dos combustíveis, aguarda-se uma rápida reversão nas projeções de mercado relacionadas à inflação, que já tinham se distanciado da meta de 3%. Isso poderá proporcionar ao Banco Central um maior grau de liberdade na condução da política monetária, especialmente em um momento próximo à nova decisão sobre as taxas de juros.
Desde o início do mês, instituições financeiras têm revisado suas estimativas sobre o impacto das novas medidas de estímulo, que foram anunciadas pelo governo em meio à estratégia de reeleição de Lula em outubro.
Impulsos e Pressões Fiscais
As projeções atuais apontam para um impulso superior a R$ 200 bilhões neste ano, principalmente através de subsídios, garantias e aportes que não impactam diretamente o resultado primário, mas que geram pressões sobre a já elevada dívida pública. Ceron comentou: “Se fosse verdade que tivesse um estímulo de 2% do PIB… isso colocaria a atividade econômica próxima de uma alta de 3%”.
Ele esclareceu que não existe nenhum tipo de estímulo dessa magnitude, fazendo referência aos indicadores econômicos recentes que sugerem uma desaceleração significativa da atividade, como as vendas no varejo.
Crescimento do PIB
A Fazenda projeta um crescimento do PIB de 2,3% para este ano, dentro de uma faixa de 2,0% a 2,5% que, segundo Ceron, não devem provocar pressões inflacionárias. O mercado, por sua vez, tem elevado suas contas e agora estima uma alta de 1,96%, conforme o boletim Focus mais recente do Banco Central.
Ceron também mencionou que a narrativa do mercado muitas vezes trata de medidas distintas como se fossem um único pacote, misturando ações fiscalmente neutras, como a ampliação da isenção do IR, com outras que, embora estimulantes, não necessariamente pressionam a inflação.
Exemplos de Medidas
Ele citou exemplos, como linhas de crédito subsidiadas para aquisição de caminhões e para motoristas e entregadores de aplicativos, observando que, nesses casos, as montadoras têm se comprometido a oferecer descontos. “Então, na verdade, o efeito para esse setor é deflacionário, não inflacionário”, afirmou.
Desafios Fiscais
Ceron reconheceu os desafios existentes na esfera fiscal e ressaltou a necessidade de debater a trajetória de crescimento das despesas obrigatórias. Entretanto, ele enfatizou que não há espaço para a proposição de novas medidas antes da campanha eleitoral.
Ele observou que o elevado nível de juros no Brasil, que pressiona a dívida pública, não pode ser atribuído exclusivamente ao quadro fiscal, mencionando outros fatores importantes, como a baixa taxa de poupança do país. “Não estou negando a importância, tem que avançar no fiscal, mas não é a única pauta”, disse.
Curva de Juros e Cenário Internacional
Em relação à recente pressão sobre a curva de juros brasileira, que observou aumento nos rendimentos em diversos prazos, Ceron observou que houve um impacto significativo de indicadores que demonstraram a resiliência da economia dos Estados Unidos, provocando uma reprecificação global.
Caso o cenário de paz no Oriente Médio continue, a expectativa é de um fechamento da curva no mercado americano, o que provavelmente refletirá no Brasil, conforme Ceron.
“A nossa diferença em relação ao mercado americano não está distante do nosso histórico, pelo contrário”, disse.
Perspectiva do Mercado Internacional
Ceron também destacou um certo pessimismo do mercado local em relação ao Brasil e comentou que, enquanto no mercado internacional o país é avaliado de forma mais comparativa e serena, o cenário local tende a ser mais influenciado por emoções.
“O mercado financeiro internacional é o que existe de mais robusto para a formação eficiente de preços no mundo. O Brasil está sendo avaliado há quase três anos com grau de investimento, com spread reduzido e com um apetite extremo em relação aos seus pares”, afirmou.
Emissão de Títulos e Novos Anúncios
Ele anunciou que o país deve realizar uma nova emissão soberana de títulos sustentáveis no segundo semestre e enfatizou a proximidade de novos anúncios a serem feitos durante a visita do ministro da Fazenda, Dario Durigan, à China neste mês. A Reuters informou que o ministro pode anunciar, durante a viagem, que o Brasil irá emitir seus primeiros títulos soberanos em iuanes, conhecidos como "panda bonds".
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


