Aumento dos Juros e Reestruturação no Varejo
O aumento das taxas de juros, a restrição do crédito, mudanças nos hábitos de consumo após a pandemia e a pressão competitiva no setor varejista criaram um cenário desafiador para a Casas Bahia (BHIA3). Além das questões macroeconômicas, um movimento interno de ampliação para categorias fora do seu core business levou a empresa a recalibrar sua trajetória, iniciando um processo de transformação que está em curso há três anos.
Transformação e Estratégia
Ao reavaliar seu modelo de negócios, a companhia precisou abandonar a abordagem anterior de “crescer primeiro e rentabilizar depois”, passando a focar na geração de lucros e na melhoria de fluxo de caixa. Desde sua chegada em 2023, Élcio Ito, atual CFO da Casas Bahia, tem desempenhado um papel fundamental no plano de transformação da tradicional varejista brasileira.
Com o objetivo de reposicionar a Casas Bahia, que ainda era conhecida como “Via Varejo” na época da chegada de Ito, foi necessário implementar uma redefinição estratégica. Essa revisão envolveu o aprimoramento da disciplina financeira, a promoção de melhorias operacionais e o fortalecimento do balanço patrimonial.
“No início de 2023, nossa estratégia era voltada para um crescimento agressivo. Tínhamos uma empresa em expansão, mas com um consumo elevado de caixa”, declarou Ito em entrevista ao programa Money Minds no YouTube. A íntegra da entrevista está disponível online.
Com a implementação desse plano que promoveu uma significativa reorientação na empresa, Ito destacou que, ao longo de cinco anos, a meta é alcançar resultados positivos e pagar um volume considerável de dividendos.
“Embora não tenhamos clareza sobre o que o futuro reserva para o varejo, a companhia se manterá focada no que acredito, buscando um crescimento relevante em qualquer canal que possa existir dentro de cinco anos, sempre sustentada por logística e soluções de crediário”, acrescentou.
Reavaliação e Decisões Difíceis
Na busca por uma rerrotulação eficaz, a empresa dedicou tempo para avaliar seus negócios, identificando quais geravam retorno, quais consumiam caixa e quais eram coerentes com a sua essência. A conclusão, que ainda guia o processo de transformação, foi a necessidade de retomar o essencial, ou seja, o foco em bens duráveis e soluções financeiras através do crediário.
Após a implementação do plano, foi necessário tomar decisões severas, como a diminuição do quadro de funcionários em quase 15 mil colaboradores, o que representa cerca de 20% do total, para ajustar a estrutura de custos. Além disso, foram fechadas quase 100 lojas e quatro centros de distribuição.
“Foi preciso implementar esse ajuste para organizar a companhia e criar uma base sólida para o crescimento. Enfrentávamos um desafio significativo em relação ao caixa e uma estrutura de capital muito vulnerável”, destacou o CFO.
Resultados em Evolução
Para superar a situação crítica, a empresa precisava demonstrar eficiência operacional. A recuperação se deu de forma contínua, com nove trimestres consecutivos de melhoria da margem operacional, um fator que foi gradualmente desbloqueando questões financeiras, segundo o executivo.
A reestruturação da dívida incluiu a conversão de parte dela em capital, reduzindo a alavancagem de mais de 2x para 0,5 e a dívida líquida, que caiu de R$ 5 bilhões para R$ 1,2 bilhão.
Essas transformações financeiras foram alicerçadas em uma evolução operacional contínua. Embora o foco atual ainda seja o aumento do caixa e a obtenção de lucros, a fase mais desafiadora de 2023 já ficou para trás, conforme declarado por Ito.
Desafios dos Juros no Varejo
As taxas de juros são uma preocupação constante para o setor de varejo, tendo a capacidade de estimular ou frear o consumo. Após experimentar ciclos de aumento e queda nos últimos anos, a taxa básica de juros continua a pressionar aspectos como consumo, crédito e custo financeiro para as empresas.
A última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14,25% ao ano, uma taxa ainda considerada elevada. Nesse âmbito, o diretor financeiro da Casas Bahia argumenta que a empresa não pode depender exclusivamente de uma melhora no cenário macroeconômico para operar de forma eficaz.
“Sempre desejamos que o macroeconômico melhore, que as taxas de juros diminuam, pois isso beneficia todo o ambiente varejista, em especial o nosso, já que atuamos principalmente na base da pirâmide e é essa população a mais afetada por juros altos e pelo endividamento familiar”, enfatizou o CFO.
A diminuição da dívida e do risco associado à companhia, juntamente com a gestão empenhada em negociar renovações a custos mais baixos, deve contribuir para a redução das despesas financeiras, independentemente da trajetória da Selic.
Concorrência e Parcerias Estratégicas
No contexto do retorno às suas origens, a Casas Bahia decidiu resgatar elementos que fazem parte da identidade da marca, como a alteração do nome de “Via” para “Casas Bahia”, o retorno do slogan “dedicação total a você” e a reintrodução do “Baianinho” como mascote.
Segundo Élcio Ito, a varejista passou a valorizar o que já havia construído, direcionando o foco para bens duráveis e lojas físicas. Assim, a companhia tomou a decisão estratégica de deixar de lado a tentativa de abarcar uma variedade excessiva de produtos, passando de uma abordagem generalista para uma especialização.
Ainda que tenha voltado a focar em bens duráveis, a empresa desenvolveu uma estratégia que permite sua presença em marketplaces por meio de parcerias, que atualmente incluem plataformas como Mercado Livre, Amazon e Shopee.
‘; essa abordagem traz um aspecto único para a Casas Bahia, que se destaca pela habilidade logística para lidar com produtos pesados. Diferentemente de produtos leves e pequenos, que exigem um tipo diferente de logística, itens como geladeiras, fogões e sofás requerem instalações robustas, como paletes e caminhões.
A companhia dispõe de uma malha logística que abrange 3 milhões de metros quadrados e 25 centros de distribuição, utilizando mais de 1.000 lojas como mini-hubs para a distribuição rápida de produtos pesados em todo o Brasil.
Com essa estratégia, há um efeito mutuamente benéfico: a visibilidade nos marketplaces eleva o tráfego para o site da Casas Bahia, onde frequentemente existem condições mais vantajosas, além de otimizar o uso do mesmo estoque em ambos os canais de venda.
Segundo Ito, a companhia permanece aberta a novas parcerias, atento ao dinamismo do mercado e à possibilidade de surgimento de novas plataformas. A entrevista completa com o diretor financeiro da Casas Bahia pode ser conferida online.
Fonte: www.moneytimes.com.br