Desafios do Varejo Brasileiro
O varejo brasileiro enfrenta um contexto marcado por juros elevados, um elevado nível de endividamento das famílias, uma pressão significativa sobre o consumo das classes de baixa renda e um ambiente mais desafiador para as vendas nas lojas físicas. Neste cenário desfavorável, a Casas Bahia (BHIA3) reportou um prejuízo líquido de R$ 1,06 bilhão no primeiro trimestre de 2026. Este resultado foi impactado em grande parte pelo desempenho financeiro, mesmo diante de uma evolução operacional no período analisado.
Estratégias de Adaptação da Empresa
A fim de mitigar os efeitos negativos do cenário atual, a companhia implementa uma estratégia focada na ampliação da rentabilidade, na expansão da concessão de crediário, na busca de eficiência operacional e na redução das despesas financeiras. Em uma entrevista ao Money Times, o diretor financeiro (CFO) da empresa, Élcio Ito, enfatizou que a companhia não depende de cortes na taxa básica de juros (Selic) para atingir seus objetivos, mantendo o foco na execução de um plano de transformação que foi iniciado há cerca de três anos.
De acordo com Ito, “o primeiro trimestre representa a continuidade do nosso plano. Não houve nenhuma surpresa em nossa execução. O cenário macroeconômico, com juros altos e o elevado endividamento das famílias, afetou o consumo, especialmente entre a parte da população com menor renda, impactando também nossas lojas físicas”.
Ele ainda apontou a dificuldade em prever as próximas movimentações da Selic, considerando a incerteza tanto no Brasil quanto no exterior. Segundo ele, uma possível queda na taxa de juros seria benéfica para o desempenho da companhia; no entanto, o plano da empresa não inclui depender do Banco Central.
“Temos muita execução pela frente. Estamos cientes de que a construção de nossa trajetória leva quase três anos. Para alcançar o lucro, analisamos tudo o que foi realizado, a estrutura de capital e cada um dos trimestres. Existe uma consistência onde o desempenho operacional possibilita as alavancas financeiras”, complementou o CFO.
Crediário como Pilar Fundamental
O crediário permanece como uma das principais fortalezas da Casas Bahia, mesmo em um ambiente que exige cautela e rigor na concessão de crédito. Ito revelou que a companhia tem optado por abrir mão de algumas vendas para evitar riscos excessivos, priorizando a qualidade da carteira e a prevenção de um aumento na inadimplência. O crediário também contribui para a venda de serviços de maior margem, como garantia estendida, seguros e instalação de produtos.
“Quando o crediário é acionado, há um aumento concomitante na venda de serviços. Esses produtos têm uma margem de lucro muito alta e ajudam na rentabilidade da operação”, afirmou. Ele destacou que a empresa adotou uma abordagem restritiva na concessão de crédito e optou por abrir mão de algumas vendas, mesmo com uma demanda existente. “Poderíamos ter aumentado as vendas nas lojas físicas, mas escolhemos uma postura conservadora. Apesar disso, conseguimos registrar um crescimento de 6,1% na receita e um aumento em nosso GMV (volume bruto de mercadorias)”, afirmou.
Embora o desempenho das lojas físicas tenha sido inferior ao do ano anterior, Ito ressaltou que a base de comparação era alta. “Nos últimos dois anos, conseguimos um crescimento significativo. Além disso, continuamos apresentando um bom desempenho no canal online, tanto em nossas plataformas quanto em parcerias com o Mercado Livre, Amazon e Shopee”, promoveu.
Parcerias Estratégicas no Comércio Eletrônico
Atualmente, a Casas Bahia mantém parcerias com três grandes plataformas de e-commerce: Mercado Livre, Shopee e Amazon. Essas colaborações permitem à varejista aumentar a visibilidade de sua marca e produtos nos marketplaces, ampliando sua presença no comércio eletrônico.
Para os consumidores que buscam produtos das categorias principais da companhia, como eletrodomésticos, móveis e outros bens duráveis, a estrutura logística da Casas Bahia se torna um diferencial na entrega desses itens. Ito avaliou que a parceria com o Mercado Livre, iniciada em novembro do ano passado, é a mais crucial para a empresa até o momento. “Devido à nossa penetração de mercado, reconhecimento da marca e às características dos nossos produtos, conseguimos uma integração bastante efetiva”, afirmou.
Uma das consequências positivas observadas pela empresa foi o aumento no tráfego de seu site. Segundo o CFO, muitos consumidores que consultam os produtos no marketplace acabam visitando o site da Casas Bahia para comparar preços e condições de compra.
“Esta é uma nova via de venda. Temos nossa loja física, nosso canal online, e agora as plataformas. Esses canais digitais estão em constante evolução. Queremos ser o maior vendedor de eletrodomésticos e móveis do Brasil, em todos os canais, assegurando que continuemos rentáveis”, concluiu.
Desempenho Financeiro do Primeiro Trimestre
No primeiro trimestre, a receita líquida da Casas Bahia cresceu 6,1% em comparação ao mesmo período do ano anterior, totalizando R$ 7,4 bilhões. As despesas com vendas, gerais e administrativas aumentaram 5,4%, alcançando R$ 1,7 bilhão, enquanto a margem bruta ficou em 30,3%, levemente acima dos 30,2% verificados um ano antes.
A receita bruta proveniente das vendas online teve um crescimento de 24%, podendo chegar a quase R$ 3,3 bilhões. Dentro desse montante, o canal próprio (1P) teve um avanço de 26,4%, totalizando R$ 3 bilhões. Em contrapartida, a receita bruta das lojas físicas foi de quase R$ 5,6 bilhões, representando uma queda de 1,8% em relação ao ano anterior.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado totalizou R$ 597 milhões, o que representa um aumento de 4,7% em comparação com o primeiro trimestre de 2025. A margem Ebitda ajustada passou de 8,2% para 8,1%.
No entanto, a persistência dos altos juros afetou negativamente o resultado financeiro. A taxa média do CDI subiu de 12,94% no primeiro trimestre de 2025 para 14,86% no mesmo período deste ano. Consequentemente, o resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 1,2 bilhão, um valor 27% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior, o que justifica parte da piora do prejuízo líquido da companhia. Este montante aumentou de R$ 408 milhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 1,06 bilhão neste ano.
Fonte: www.moneytimes.com.br