China e a Dependência do Mercado Europeu
A China continua a estabelecer uma crescente dependência do mercado europeu em relação à sua liderança tecnológica. Em um exemplo significativo desse movimento, a CATL, uma empresa proeminente na produção de baterias para veículos elétricos, está programada para enviar milhares de trabalhadores para a construção de uma fábrica dedicada a este segmento na Espanha. O investimento é estimado em 4 bilhões de euros.
Estratégia e Parceria
Essa iniciativa da empresa chinesa é realizada por meio de uma joint venture com a Stellantis, o que evidencia o esvaziamento de habilidades e know-how no setor automobilístico europeu. A parceria levanta debate sobre a disposição da empresa em compartilhar segredos industriais que possam beneficiar a indústria local, bem como sobre a vulnerabilidade crescente da Europa em relação a sua contraparte asiática.
O projeto da fábrica parece estar alinhado com as estratégias do governo de Pequim e do presidente Xi Jinping de promover uma dependência estratégica de mercados internacionais, especialmente em um contexto geopolítico tumultuado.
Compromissos Locais
A CATL afirma que está comprometida em recrutar e treinar trabalhadores locais para a operação da nova unidade, seguindo um modelo que foi aplicado com sucesso em uma planta existente na Alemanha, que está em funcionamento desde 2022. Além do investimento na península Ibérica, a empresa está também desenvolvendo um projeto de construção de uma fábrica maior na Hungria, com um aporte previsto de 7 bilhões de euros e suporte de funcionários qualificados, embora a quantidade exata ainda não tenha sido especificada.
O analista de segurança econômica do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, Joris Teer, observa que as empresas chinesas mantêm um rigoroso controle sobre sua propriedade intelectual. Segundo ele, essa postura responde a uma estratégia do presidente Xi de fazer da China uma "fortaleza autossuficiente" enquanto torna seus parceiros comerciais ainda mais dependentes de sua produção.
Reconhecimento Internacional
Nos Estados Unidos, a CATL já consta na lista de exclusão do Pentágono, identificada como uma empresa com laços com as forças armadas chinesas, uma alegação que a companhia nega. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, também alertou o governo espanhol sobre os potenciais riscos dessa aliança, comparando a relação a "dar um tiro no próprio pé".
Apesar das preocupações, o projeto é visto como uma oportunidade para a Espanha se solidificar como um dos aliados mais próximos de Pequim na Europa Ocidental.
Construção e Emprego
A nova planta será erguida em um terreno pertencente à Stellantis, ao lado de uma instalação já existente, que foi fundada em 1980 pela General Motors na cidade de Figueruelas. Essa unidade é responsável pela produção de modelos das marcas Opel, Peugeot e Lancia.
O secretário do conselho europeu da Stellantis, Juan Arceiz, expressou dúvidas quanto à disposição da CATL em compartilhar know-how. Ele observou que a iniciativa de trazer 2.000 trabalhadores para a construção e instalação reflete a estratégia da empresa para manter seu conhecimento tecnológico protegido.
Entretanto, a previsão de que a CATL empregará 3.000 trabalhadores, principalmente espanhóis, para operar a fábrica, é vista com otimismo, embora haja um consenso sobre a relutância dos parceiros em transferir os conhecimentos necessários para a montagem da nova planta.
Desafios Locais
Em Pedrola, cidade próxima ao local da construção, trabalhadores da CATL têm buscado áreas adequadas para instalações industriais e habitação. A prefeita Manuela Berges ressaltou que os representantes da empresa mostram hesitação em compartilhar informações, demonstrando preocupação com possíveis casos de espionagem industrial.
A opacidade em relação ao número de trabalhadores chineses a serem envolvidos na construção e instalação dos equipamentos, que está diretamente ligada à engenharia exclusiva e ao design das células de bateria da CATL, também suscita debates.
Vácuo Tecnológico
Em março de 2025, a Europa perdeu uma de suas empresas mais relevantes no setor de veículos elétricos: a sueca Northvolt, que era tida como a melhor esperança do continente para competir em um mercado dominado pela China.
Novas Iniciativas
Neste contexto, outro grupo chinês, a AESC Envision, anunciou planos para uma nova fábrica de baterias no oeste da Espanha. Além disso, a Volkswagen firmou parceria com a empresa chinesa Gotion e está construindo plantas tanto na Alemanha quanto em Valência.
A CATL e a Stellantis estão trabalhando, entre outros investimentos, com cerca de 298 milhões de euros recebidos do fundo NextGeneration, da União Europeia, para a sua fábrica.
Apoio Político
O projeto conta com apoio crucial dos principais partidos políticos da Espanha. O primeiro-ministro Pedro Sánchez, alinhado à esquerda, tem investido na aproximação com parceiros asiáticos em busca de comércio e investimento, tendo visitado o presidente Xi Jinping três vezes em dois anos e meio. O Partido Popular, tipicamente de oposição, também se posiciona favoravelmente à fábrica de baterias.
O governo regional de Aragão, através do vice-presidente Mar Vaquero, ressaltou a importância das relações entre Espanha e China para a realização de projetos dessa natureza, destacando a inovação e a tecnologia avançada que o país asiático pode trazer.
Críticas da Oposição
O principal partido a se opor a essas iniciativas é o Vox, de extrema-direita, que critica os socialistas e o Partido Popular por aceitarem tais riscos. O líder da bancada do Vox no parlamento, Alejandro Nolasco, alertou que a relação resultaria em um cenário em que a tecnologia e os recursos financeiros ficariam concentrados nas mãos dos chineses.
Mudanças na Indústria Automobilística
Com a crescente demanda por eletrificação, diversos especialistas afirmam que a indústria automobilística espanhola não teve alternativa a não ser buscar tecnologia chinesa para evitar a obsolescência.
O presidente da CAAR, Benito Tesier, manifestou que, apesar de a Espanha ter estabelecido uma posição de destaque no setor, as circunstâncias mudaram e a indústria precisará se reinventar.
Um funcionário do governo espanhol destacou que, no que se refere a baterias para veículso elétricos, a China é o líder mundial e expressou o desejo de que os chineses investissem e colaborassem na criação de um ecossistema em conjunto.
Vaquero também observou que a produção local das baterias ajudaria a dissipar as incertezas em relação à fábrica da Stellantis, que desempenha um papel crucial em uma indústria historicamente dependente do motor de combustão, empregando cerca de 35 mil pessoas na região.
Acordo de Joint Venture
A CATL e a Stellantis anunciaram, no final do ano passado, que iriam formar uma joint venture em proporção equivalente para investir até 4,1 bilhões de euros na nova fábrica, que será dedicada a baterias de fosfato de ferro e lítio. Embora a construção física da planta ainda esteja por iniciar, a produção está prevista para começar no final de 2026.
Matt Shen, gerente-geral da CATL para a Europa, afirmou que a empresa busca trabalhar em colaboração com fabricantes de baterias menores e menos avançados na Europa.
A Stellantis, no entanto, não comentou se tem garantias da CATL de que a empresa compartilhará suas tecnologias.
Considerações Finais sobre o Futuro da Europa
Os fabricantes de baterias sul-coreanos, como LG e Samsung, tendem a estabelecer vínculos com fornecedores locais na Europa, ao passo que as empresas chinesas frequentemente importam materiais diretamente de seu país de origem.
O economista-chefe do Instituto Centro-Europeu de Estudos Asiáticos, Martin Šebeňa, sublinhou que políticas que impõem cotas de fornecimento ou de emprego local podem afastar investidores chineses. Ele enfatizou a necessidade de regulamentações em todo o território da UE para evitar que os países se tornem competidores entre si.
Historicamente, quando montadoras ocidentais começaram a investir na China, foram frequentemente obrigadas a firmar acordos que previam a transferência de tecnologia. A prática de enviar executivos para auxiliar na construção de novas plantas também era comum.
Projeto em Expansão
Quanto ao envio de mão de obra chinesa para a construção em outras regiões, na África Subsaariana, cerca de 40 mil trabalhadores chineses atuavam em projetos em Angola na década de 2010, enquanto que o número atual na República Democrática do Congo é de apenas 5 mil.
Apesar de desafios e debates em diversos setores da economia e política europeia, projetos como os da CATL parecem avançar rapidamente. Em Aragão, Vaquero informou que alguns executivos da companhia já estão estabelecidos na cidade de Zaragoza.
Shen, da CATL, não detalhou o número de trabalhadores planejado, mas expressou a necessidade de encontrar profissionais qualificados rapidamente. A CATL afirmou que, conforme o recrutamento e treinamento de trabalhadores locais avançarem, a planta operante terá predominantemente força de trabalho espanhola, com menos de 10% de funcionários expatriados, o que atende tanto às necessidades do setor produtivo quanto às expectativas dos governantes locais.
Luís Bertol, prefeito de Figueruelas, onde a fábrica será construída, afirmou sobre o futuro: “Precisamos ser pragmáticos e não focar na origem dos investimentos, pois, no final das contas, o que buscamos aqui é um futuro. Quero ser otimista e crer que não vamos nos tornar apenas autômatos sob a direção do governo chinês.”
Fonte: www.cnnbrasil.com.br