Meta de Crescimento do PIB da China para 2026
Na quinta-feira, 4 de março de 2026, a China estabeleceu sua meta de crescimento do PIB para o ano em 4,5% a 5%, a menor meta já registrada desde o início da década de 1990. Essa decisão ocorre em um contexto em que Pequim enfrenta pressões deflacionárias persistentes e tensões comerciais com os Estados Unidos.
A meta de crescimento, divulgada no relatório de trabalho do governo, representa uma redução em relação à meta de “cerca de 5%” estabelecida nos três anos anteriores. É a mais modesta registrada na história da segunda maior economia do mundo, exceto em 2020, quando o país não definiu uma meta de crescimento devido à pandemia.
Além disso, o governo manteve sua meta de déficit orçamentário inalterada em “cerca de 4%” do PIB, conforme ocorre a reunião anual do Congresso Nacional do Povo, o principal órgão legislativo do país. Essa meta de 4%, que foi a mais alta registrada desde 2010, foi estabelecida em 2024. O recorde anterior era de 3,6%, alcançado em 2020.
Os formuladores de políticas chineses mantiveram a meta de inflação ao consumidor anual em “cerca de 2%”. Essa meta, que foi fixada em 2025, representa o nível mais baixo em mais de duas décadas e indica um reconhecimento implícito por parte de Pequim da fraca demanda interna.
A meta de inflação funciona mais como um teto do que como uma meta a ser alcançada. Durante todo o ano de 2025, o crescimento dos preços foi plano, com uma taxa de 0,7% quando excluídos os preços de alimentos e energia, refletindo a diminuição da confiança do consumidor.
O Primeiro-Ministro Li Qiang mencionou no relatório de trabalho uma série de questões desafiadoras que a economia enfrenta, incluindo um “ambiente internacional de comércio e economia em mudança dramática” e um “problema estrutural profundamente enraizado” que têm impactado o crescimento do consumo e dos investimentos.
“A meta de crescimento é bastante realista. É uma mudança ainda maior de uma mentalidade ‘primeiro o número’ para uma ‘primeiro a qualidade'”, afirmou Tianchen Xu, economista sênior da Economist Intelligence Unit.
“Pequim não vê necessariamente taxas de crescimento elevadas como algo positivo, pois isso pode incentivar os oficiais locais a exagerar o crescimento com projetos de ‘elefantes brancos’ — investimentos dispendiosos com pouco valor econômico — e manipulação de dados”, acrescentou Xu.
Ainda segundo o Primeiro-Ministro, Pequim pretende manter a taxa de desemprego urbano, que foi de 5,2% no ano passado, em torno de 5,5% neste ano e adicionar 12 milhões de novos empregos nas áreas urbanas.
Ferramentas Monetárias e Fiscais
A China planeja emitir 1,3 trilhões de yuans (aproximadamente 188,5 bilhões de dólares) em títulos do tesouro especiais de longo prazo em 2026, mantendose no mesmo patamar do ano anterior. O governo também destinará 250 bilhões de yuans para apoiar um programa de troca de produtos de consumo e mais 300 bilhões de yuans para reabastecimento de capital nos grandes bancos comerciais estatais.
Além disso, a China se prepara para emitir 4,4 trilhões de yuans em títulos com finalidade específica para governos locais, também no mesmo nível que no ano anterior, com o intuito de financiar grandes projetos e aliviar a pressão da dívida nos governos locais, conforme descrito no relatório de trabalho.
“Os gastos do governo este ano continuarão em uma escala bastante grande”, destacou Li, enfatizando que o fortalecimento do consumo e a elevação dos padrões de vida devem ser prioridades.
O estímulo fiscal modesto está alinhado com a meta de crescimento mais conservadora, segundo Xu.
Pequim comprometeu-se a continuar implementando uma política monetária “apropriadamente acomodativa” para estimular o crescimento, incluindo possíveis cortes nas taxas de juros e redução do índice de reservas obrigatórias.
“Desenvolveremos novos e melhores instrumentos de política monetária estrutural, ampliaremos seu uso conforme necessário e aperfeiçoaremos as maneiras como são utilizados”, disse Li.
A reunião anual do parlamento da China, conhecida como as “Duas Sessões”, começou na quarta-feira com a cerimônia de abertura da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, um importante órgão consultivo de políticas.
O NPC, que iniciou sua reunião na quinta-feira, está programado para encerrar sua sessão anual no dia 12 de março. Espera-se que os chefes dos ministérios econômicos e financeiros atendam à imprensa na tarde de sexta-feira.
Embora a economia da China tenha crescido 5% no último ano, o país adentrou o quarto ano de deflação em meio a uma queda no setor imobiliário, fraca confiança do consumidor e pressão da dívida nos governos locais. As vendas no varejo aumentaram 3,6% em 2025, enquanto a deflação na entrada das fábricas se aprofundou, com uma queda de 2,6% em relação ao ano anterior.
O investimento em ativos fixos caiu 3,8% no ano passado — a primeira queda anual em décadas. A retração no setor imobiliário se intensificou, com o investimento no setor despencando 17,2%.
Comércio e Geopolítica
A reunião deste ano do parlamento ocorre após a segunda maior economia do mundo enfrentar quase um ano de intensa guerra comercial com os EUA, o que acelerou sua diversificação das exportações, direcionando-as para a Europa e o Sudeste Asiático.
O Primeiro-Ministro Li mencionou, de forma incomum, os impactos econômicos do “choque tarifário” imposto pelos EUA, afirmando que as novas medidas de estímulo implementadas no ano anterior ajudaram a amenizar o impacto.
A contínua tensão no Oriente Médio também levantou preocupações sobre a visita planejada do presidente dos EUA, Donald Trump, à China no final deste mês, onde ele deve se reunir com o líder chinês, Xi Jinping, para discutir uma variedade de questões, incluindo tarifas, controles de exportação e Taiwan.
A China criticou os ataques dos EUA e de Israel ao Irã, pedindo um cessar-fogo imediato e o retorno à diplomacia. O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, realizou recentes conversas por telefone com os ministros dos Relações Exteriores da Irã e de Israel, posicionando a China como um mediador ativo na desescalada do conflito.
— Evelyn Cheng, da CNBC, contribuiu para esta reportagem.
Fonte: www.cnbc.com

