Retorno à Programação
Retomamos nossa programação na coluna, que não é exatamente “normal”, após a interrupção das discussões recentes acerca da reforma tributária e seus impactos no agronegócio brasileiro. O foco agora é a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que declarou inconstitucional o chamado “tarifaço” do ex-presidente Donald Trump.
Reação do Ex-presidente
Como era de se esperar, Donald Trump não aceitou a invalidade de seu principal instrumento de política externa — uma versão atualizada do conceito do “Big Stick”, que se baseia na imposição indiscriminada de tarifas. Em resposta à decisão judicial, ele recorreu a uma retórica inflamada e à escalada das tensões militares no Oriente Médio, tentando assim desviar a atenção de sua imagem de “pato manco”, que rapidamente se solidificou no cenário interno dos Estados Unidos.
Cenário do Agronegócio
Paralelamente, a situação no campo também se agrava. Em meio a um aperto de crédito e a preços que ainda não apresentam uma trajetória clara de recuperação — apesar de boas previsões relacionadas à safra global —, as chuvas intensas começaram a afetar negativamente o ritmo da colheita de soja em boa parte das regiões Centro-Sul e em diversas áreas do Centro-Oeste.
Impactos de Conflitos no Oriente Médio
Para complicar ainda mais o cenário, o surgimento de novos conflitos na região do Oriente Médio — considerada estratégica para a produção de petróleo — trouxe consequências significativas para a logística global. As tensões no Estreito de Ormuz, localizada entre o Irã e Omã, onde uma grande parte do petróleo e de derivados é transportada, resultaram no aumento dos custos de insumos essenciais e, consequentemente, pressionaram o preço do diesel. Este último é um insumo crítico para as operações rurais.
Choque Fiscal Agrava o Cenário
À situação já complexa do agronegócio, somou-se um novo fator de pressão: o aumento dos custos fiscais. Esse fenômeno é caracterizado como um verdadeiro choque tributário que começará a se manifestar entre os anos de 2026 e 2027.
Tributação para Produtores Rurais
Para os produtores rurais que atuam como pessoa física, ou seja, que apuram o Imposto de Renda através do CPF, haverá uma adição na tributação a partir do ano-calendário de 2026. Essa nova norma prevê uma alíquota extra de até 10% sobre a renda anual que exceder R$ 1,2 milhão.
Empresas do Setor Agropecuário
Quanto aos produtores que operam como pessoas jurídicas, através de sociedades agropecuárias, a pressão tributária ocorrerá ainda mais cedo. A partir de 1º de abril de 2026, um aumento equivalente a 10% sobre a receita bruta, que ultrapassar R$ 5 milhões anuais, será aplicado às empresas que se enquadram no regime de lucro presumido.
Na prática, isso significa que a carga tributária já afeta a safra em andamento, elevando o custo efetivo das operações em um período especialmente sensível para os agricultores.
Expectativas em Relação ao Alívio Financeiro
Os recentes aumentos nos preços da soja na Bolsa de Chicago oferecem algum grau de alívio, mas os efeitos sobre a safra atual são limitados, uma vez que a maior parte dos contratos já havia sido fixada previamente.
Por outro lado, o aumento cumulativo dos custos fiscais, aliado à elevação expressiva dos preços de fertilizantes e à pressão sobre o diesel, gera um novo sinal de alerta. Esse cenário exige um cuidado redobrado na gestão de contratos e nas decisões financeiras, tanto por parte dos produtores quanto dos financiadores do setor agrícola.
Embora haja espaço para mitigar parte desses impactos com um planejamento apropriado — tanto na estrutura de pessoa física quanto de pessoa jurídica —, o setor ainda carece de uma política consistente, especialmente em vista das incertezas que cercam a implementação da reforma tributária sobre o consumo.
Os contornos dessa mudança permanecem pouco claros e podem trazer novas pressões já na próxima safra. Assim, é necessário monitorar de perto os desdobramentos da colheita atual para, em um momento oportuno, aprofundar a análise sobre os impactos da reforma tributária no agronegócio e nos demais elos da cadeia produtiva.
Fonte: www.moneytimes.com.br


