Comércio Global em Turbulência: Tensões no Oriente Médio e Estratégias dos EUA Agravam Incertezas para o Brasil

Incertezas no Comércio Internacional

O primeiro bimestre de 2026 se caracteriza por um cenário de crescente incerteza no comércio internacional. Mudanças na política comercial dos Estados Unidos, juntamente com o aumento das tensões no Oriente Médio, intensificaram a imprevisibilidade que tem marcado a economia global desde o início do novo governo de Donald Trump.

Decisão da Suprema Corte dos EUA

Uma mudança significativa ocorreu no campo jurídico, com a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que derrubou a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Este instrumento havia sido utilizado para justificar a imposição do “tarifaço”, anunciado em 20 de fevereiro. Essa decisão pode, teoricamente, permitir que o Brasil evite tarifas que poderiam atingir até 50% sobre uma parte de suas exportações. No entanto, a resposta do presidente Donald Trump foi imediata: ele acionou a Seção 122 do Código de Comércio dos Estados Unidos, um mecanismo que possibilita a aplicação de tarifas de até 15% por um período de 150 dias em situações que indiquem desequilíbrios no balanço de pagamentos e risco cambial.

Impactos nas Negociações Brasil-EUA

Apesar dessa nova alternativa, o cenário parece ser relativamente mais favorável para o Brasil nas negociações programadas para março entre os dois países. Há uma diferença notável: iniciar as discussões com tarifas de até 50% sobre aproximadamente 22% da pauta exportadora brasileira tem um tom diferente de um ambiente em que as tarifas são limitadas a 15%.

Tensões Geopolíticas e seus Impactos Econômicos

Entretanto, a dinâmica global recebeu um novo elemento de tensão após o ataque dos Estados Unidos, em conjunto com Israel, ao Irã. Este episódio elevou o nível de instabilidade geopolítica e trouxe incertezas adicionais ao comércio mundial. Os impactos econômicos decorrentes desse conflito dependerão tanto da sua duração quanto da possibilidade de sua expansão para outros países na região.

Alta do Preço do Petróleo

Um dos efeitos mais rápidos foi a alta do preço do petróleo, que é cotado internacionalmente através de contratos como o Petróleo WTI e o Óleo Brent. Esse encarecimento tende a aumentar os custos de transporte e logística global, gerando pressões inflacionárias. Esse cenário pode atrasar os ciclos de queda de juros em várias economias, o que, por sua vez, pode reduzir o ritmo projetado de crescimento da atividade econômica global e do comércio internacional.

Desafios e Oportunidades para o Brasil

Para o Brasil, os impactos resultam em uma situação ambígua. O país pode se beneficiar do aumento no preço do petróleo, uma vez que é um exportador da commodity, especialmente por meio de empresas como a Petrobras. Contudo, a economia brasileira também depende da importação de óleo diesel, o que significa que o aumento dos preços internacionais também resulta em custos mais elevados internamente.

Relações Comerciais com o Oriente Médio

A relação comercial com o Oriente Médio também merece atenção especial. Em 2025, a região foi responsável por 4,6% das exportações brasileiras. Alguns produtos revelam uma dependência ainda maior: o mercado absorveu 35,2% das exportações brasileiras de carne de aves, 17,0% de açúcar e melaços e 16,2% de milho não moído. Assim, qualquer interrupção comercial pode impactar diretamente a balança comercial do Brasil.

Importações e Dependência de Insumos

Do lado das importações, a relevância estratégica da região é evidente. Insumos para a produção de fertilizantes são um exemplo dessas dependências. Aproximadamente 14,8% das importações brasileiras de ureia vêm de Omã. Embora o Oriente Médio represente apenas 2,6% do total das importações do Brasil, a dependência em alguns produtos pode causar efeitos significativos nas cadeias produtivas locais.

Reunião Trump e Lula e Implicações Geopolíticas

O conflito geopolítico levanta questionamentos sobre a realização do encontro entre Donald Trump e Lula, programado para março. Essa reunião buscaria avançar um acordo comercial que poderia abordar a redução de tarifas, além de temas estratégicos, como a exploração de terras raras e a regulamentação de plataformas digitais. No entanto, a complexidade das agendas geopolíticas, incluindo iniciativas de segurança regional lideradas pelos Estados Unidos, torna cada vez mais desafiador dissociar negociações comerciais dessas disputas geopolíticas.

Desempenho do Comércio Exterior Brasileiro

Apesar do ambiente externo conturbado, os dados referentes ao comércio exterior brasileiro no início de 2026 apontam um desempenho positivo. O saldo da balança comercial brasileira cresceu consideravelmente no primeiro bimestre do ano, atingindo US$ 8,0 bilhões, em contraste com os US$ 1,9 bilhão registrados no mesmo período de 2025.

Exportações e Importações em Números

Em janeiro, essa melhora no saldo foi em grande parte impulsionada pela queda de 9,8% nas importações e um recuo de 1,0% nas exportações. Em fevereiro, o crescimento das exportações foi expressivo, alcançando 15,6%, ao passo que as importações apresentaram uma queda de 4,8%.

A China destacou-se como o principal motor dessa melhoria, contribuindo com um aumento de US$ 5,12 bilhões no saldo comercial brasileiro na comparação entre os dois primeiros bimestres de 2025 e 2026. A União Europeia também registrou um desempenho positivo, com um aumento de US$ 1,04 bilhão no saldo.

Setores em Crescimento

O Brasil observou um crescimento nas vendas para a China, com uma alta de 27,7%, além de avanços para países da América do Sul, com exceção da Argentina, para a União Europeia e para países asiáticos fora da China. Em contraste, as exportações para os Estados Unidos caíram 19,9% e as vendas para a Argentina diminuíram 27,7%, movimento que está intimamente ligado à redução nas vendas de automóveis.

A análise setorial revela mudanças significativas ao longo do bimestre. Em janeiro, o setor agropecuário liderou o aumento das exportações, com um crescimento de 9,8% em valor, impulsionado tanto pelo aumento de preços quanto pelo crescimento do volume embarcado. Em fevereiro, o destaque foi para a indústria extrativa, que registrou um crescimento de 55,4% no valor exportado em comparação ao mesmo mês do ano anterior.

Importações de Bens e Outros Setores

Esse desempenho foi, em grande medida, impulsionado pelas exportações de óleo bruto, cujo volume embarcado saltou 110,9% entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, ainda que os preços tenham visto uma queda de 15,9% no mesmo período.

No que se refere às importações, observou-se uma tendência geral de retração nas aquisições de bens de capital e bens intermediários. Contudo, houve um aumento acentuado nas importações de bens de consumo duráveis, que cresceram 53,6%. Este avanço foi particularmente impulsionado pelas importações de automóveis de passageiros, que aumentaram 68,4% no bimestre, sendo que a China representou 66,4% dessas aquisições em janeiro e 58,8% em fevereiro.

Movimentações Cambiais

No campo cambial, a taxa de câmbio efetiva real apresentou uma leve valorização de 2,9% na comparação entre os dois primeiros bimestres de 2025 e 2026. Esse movimento foi, em parte, influenciado pela entrada de capitais em mercados emergentes, atraídos pelas taxas de juros mais elevadas. Apesar disso, o aumento das tensões no Oriente Médio causou episódios de desvalorização no início de março, ressaltando a maior volatilidade nos mercados cambiais, como evidenciado na paridade entre o Dólar Americano e o Real Brasileiro.

Esse conjunto de fatores sugere que a volatilidade provavelmente continuará a impactar o comportamento dos mercados financeiros internacionais nos próximos meses. Conflitos geopolíticos, alterações na política comercial americana e flutuações nos preços de commodities têm a tendência de influenciar de maneira direta o fluxo do comércio global e o desempenho das economias emergentes.

(fgv)

Fonte: br.-.com

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