Onda de calor na Europa
Contexto Geral
LONDRES — Diversos países da Europa Ocidental enfrentaram, nesta semana, ondas de calor que quebraram recordes. Alertas vermelhos foram emitidos no Reino Unido, França, Alemanha, Suíça e Itália, sinalizando um "risco à vida mesmo para a população saudável". As temperaturas se elevaram bem acima dos 40 graus Celsius em várias cidades e regiões, enquanto "noites tropicais" não proporcionaram alívio ao calor intenso que tem caracterizado o mês de junho.
Em virtude de construções antigas, infraestrutura deficiente, baixa adoção de ar condicionado e uma adaptação limitada às altas temperaturas, as populações europeias estão menos preparadas para enfrentar tais condições em comparação a outras partes do mundo.
Diante dos alertas de que a mudança climática tende a transformar temperaturas extremas em uma nova norma, alguns investidores estão reconsiderando como preparar suas carteiras para as mudanças sociais que devem acompanhar os verões escaldantes do futuro.
Construindo Resiliência
Stephanie Niven, co-gerente de portfólio da estratégia Global Sustainable Equity na Ninety One, mencionou em uma conversa com a CNBC, na sexta-feira, que a equipe dela vê a intensificação dos fenômenos climáticos na Europa como uma oportunidade de crescimento estrutural para investimentos.
A gestão do Global Sustainable Equity Fund busca empresas que ofereçam produtos e soluções que "ajudem as pessoas a responder a tempos desafiadores e a construir resiliência", afirmou Stephanie. Entre as áreas de investimento do fundo, estão: descarbonização, adaptação climática, gestão de água e poluição, inclusão financeira e impacto na saúde.
No setor de seguros, um dos focos do fundo, Niven citou a corretora e resseguradora Aon e a seguradora canadense Intact Financial como algumas das holdings do portfólio. Ela também destacou o interesse da equipe na inclusão de empresas que possuam políticas que ajudem aqueles que enfrentam dificuldades devido às mudanças climáticas, tornando o mundo mais adaptável.
"Estamos observando seguradoras [que estão desenvolvendo] modelos climáticos mais atualizados em seus sistemas de risco", disse.
Impactos do El Niño
Um evento de El Niño, previsto para ocorrer mais tarde neste ano, pode desestabilizar os padrões climáticos e impactar a indústria de seguros de maneiras que os investidores devem acompanhar, acrescentou Niven. "Isso pode ser o choque que perturba um ciclo suave que vem se desenrolando há vários anos", afirmou. "Um El Niño mais forte pode ter um impacto significativo no ciclo de seguros – resultando em menos furacões, mas mais poderosos, aumentando a probabilidade de grandes eventos de perda, o que seria um choque considerável para o ciclo de seguros. Um evento grande pode significar uma grande oportunidade para o setor."
"Valorizamos empresas que se voltam para a lacuna de proteção e promovem a correspondência entre risco e cobertura", acrescentou Niven. Além da área de seguros, o fundo procura empresas que possam oferecer adaptações físicas ao clima, como a Trane Technologies, listada em Nova York, que fabrica sistemas de refrigeração e resfriamento. A inclusão financeira também é um foco importante, com a equipe de gestão buscando empresas que promovam "resiliência financeira que integra novos indivíduos e comunidades à infraestrutura financeira, ajudando a manter negócios viáveis".
Mudança Energética
Michael Field, estrategista-chefe de ações da Morningstar, concordou que existem empresas posicionadas para se beneficiar de verões mais quentes no continente. "Certamente, empresas industriais como Johnson Controls e Siemens seriam grandes beneficiárias", disse em um e-mail na sexta-feira. "Ambas operam no setor de HVAC, especificamente na fabricação de bombas de calor comerciais, que podem servir tanto para aquecimento quanto para resfriamento, fornecendo uma solução eficaz em climas de verão mais intensos."
Field observou que, diante de condições climáticas mais severas e seus efeitos prejudiciais, especialmente em países em desenvolvimento, a transição para fontes de energia mais limpas poderia beneficiar as empresas de utilidade pública. "Empresas como Vestas e Iberdrola, que têm exposição à energia eólica mais limpa, podem ser beneficiadas", comentou. "Do mesmo modo, a modernização da rede para lidar com fontes de energia renováveis pode beneficiar companhias como a National Grid no Reino Unido. As grandes empresas de petróleo, como Shell e Total, que possuem ampla exposição a projetos solares e biocombustíveis, também podem se beneficiar."
Desafios na Infraestrutura
Matthew Donen, diretor de pesquisa em ações da Morningstar, acrescentou que a atual onda de calor tem pressionado ainda mais a rede elétrica da Europa, levando a um aumento dos preços da energia devido à alta demanda por refrigeração. "A infraestrutura elétrica envelhecida não está conseguindo suportar a demanda, e várias usinas foram forçadas a reduzir a produção", comentou em um e-mail. "Isso destaca a necessidade de modernização da rede a longo prazo. Empresas como ABB, Schneider Electric e Siemens são beneficiárias-chave desta tendência estrutural, fornecendo equipamentos como seccionadores, transformadores, automação de rede e gerenciamento de energia que as concessionárias precisam para fortalecer e expandir sua infraestrutura elétrica envelhecida."
Impacto Econômico
Em uma nota divulgada na sexta-feira, os estrategistas do UBS afirmaram que a onda de calor, que elevou as temperaturas em até 18 graus Celsius acima dos níveis normais, terá consequências econômicas diretas, apresentando oportunidades de investimento à medida que populações e autoridades correm para se adaptar. "A Europa Ocidental está sob o efeito de uma onda de calor que interrompeu o fornecimento de energia, fechou escolas e afetou sistemas de transporte e marcos culturais", afirmaram.
"As usinas nucleares francesas reduziram a produção em cerca de 7% da demanda total, uma vez que altas temperaturas limitaram o acesso à água de resfriamento, enquanto redes ferroviárias, escolas e horários de trabalho foram interrompidos em vários países. Este episódio pode gerar um impulso político adicional em direção à descarbonização, adaptação climática, eletrificação e investimentos em eficiência energética".
A equipe do UBS também observou que a estratégia de descarbonização e a política energética do continente estão entre as mais ambiciosas do mundo. "Embora adotemos uma posição neutra sobre as ações da zona do euro como um todo, acreditamos que a descarbonização é apenas uma das várias tendências seculares que os investidores devem acompanhar", disseram.
Fonte: www.cnbc.com