Como se preparar para o novo ciclo das commodities

Como se preparar para o novo ciclo das commodities

by Ricardo Almeida
0 comentários

Comunicação de Donald Trump e a Situação com o Irã

Na última semana, mesmo para os padrões já voláteis de comunicação do presidente americano Donald Trump, os eventos se mostraram particularmente erráticos. Em um primeiro momento, Trump emitiu um ultimato de 48 horas ao Irã para a reabertura do Estreito de Ormuz, acompanhando essa declaração com a ameaça de ataques à infraestrutura energética iraniana. Contudo, poucos dias depois, o presidente afirmaria ter conduzido conversas produtivas com Teerã, resultado da qual anunciou uma moratória temporária. Ao final da semana, esse prazo foi estendido por mais 10 dias, passando para 6 de abril, refletindo uma sequência de avanços retóricos seguidos de recuos táticos.

A Reação do Irã e a Dúvida sobre o Diálogo

O Irã, por sua vez, nega a existência dessas conversas nas condições descritas por Washington, embora admita, de maneira mais difusa, uma certa margem para diálogo. Essa situação levanta uma dúvida central: houve, de fato, uma mudança substancial nas relações ou estamos apenas observando uma oscilação narrativa? Independentemente das respostas, os mercados continuaram a reagir quase que exclusivamente ao fluxo de manchetes, com o petróleo subindo repentinamente diante das ameaças e recuando imediatamente a qualquer sinal de negociação.

O Objetivo da Comunicação Americana e Sua Durabilidade

Nesse ambiente, a tentativa de estabilizar os mercados parece ter sido, em parte, um objetivo deliberado por parte da comunicação americana. No entanto, a questão que se coloca é a durabilidade desse alívio em um contexto estruturalmente instável, onde a previsibilidade é baixa e a confiança, ainda mais escassa.

O Padrão do TACO Trade

É nesse cenário que se reanima o conceito conhecido como TACO trade (Trump Always Chickens Out). É importante ressaltar que essa é uma simplificação, uma vez que existem episódios em que o presidente realmente parece escalar a situação. Contudo, o padrão recente de endurecimento retórico, seguido por acomodação tática, tem sido suficiente para moldar o comportamento dos ativos no curto prazo.

Possíveis Implicações e Ameaças

No contexto atual, Donald Trump se afastou, ao menos temporariamente, da ameaça de atingir diretamente a infraestrutura energética iraniana, concedendo mais tempo e sinalizando a possibilidade de um acordo mais amplo. Por outro lado, qualquer escalada após este ponto teria implicações significativamente mais graves, especialmente se comprometer ainda mais o funcionamento do Estreito de Ormuz, que é um ponto crítico para o fluxo global de energia. O diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, alertou que a situação pode resultar em um choque mais severo para a economia global do que os episódios de 1973, 1979 ou mesmo a crise energética recente associada à guerra na Ucrânia.

Reações de Outros Países

Esse diagnóstico ajuda a entender por que diversos países, especialmente aqueles mais expostos ao tráfico de energia via Estreito de Ormuz, começaram a adotar medidas emergenciais para amenizar o aumento dos custos de energia. Em diferentes intensidades, essas respostas já começam a se materializar. O setor público das Filipinas, por exemplo, adotou semanas de trabalho reduzidas como uma alternativa para economizar combustível. No Japão, por sua vez, o governo reativou subsídios para conter os preços da gasolina e ampliou a liberação de estoques estratégicos. Na Coreia do Sul, as autoridades lançaram campanhas de economia de energia, juntamente com restrições ao uso de veículos e outras medidas de contenção.

Os Efeitos nos Estados Unidos e Globalmente

Os Estados Unidos, que são estruturalmente mais protegidos do ponto de vista energético, já começam a sentir os efeitos da crise, tanto no lado corporativo quanto inflacionário. Isso demonstra que, embora o epicentro da crise esteja no Oriente Médio, seus desdobramentos já estão impactando concretamente o restante do mundo. O Sudeste Asiático é uma das regiões mais afetadas, dada sua alta dependência das rotas energéticas e comerciais ligadas à área. No Ocidente, os efeitos também são perceptíveis, com elevações de preços, especialmente de combustíveis e alimentos, visto que fertilizantes e outros insumos essenciais também transitam pelo Estreito de Ormuz.

A Importância do Estreito de Ormuz

É relevante dimensionar a magnitude do problema: o Estreito de Ormuz representa uma das principais artérias do sistema energético global, com cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo transitando diariamente por essa rota. Quando esse fluxo é interrompido, mesmo que parcialmente, o impacto deixa de ter caráter marginal, assumindo um caráter sistêmico. O que estava em jogo não era apenas uma pressão pontual sobre preços, mas um risco real à disponibilidade física de oferta. O mercado tem a capacidade de reagir por meio de uso de estoques, redirecionamento logístico ou aumento pontual de produção, mas essas alternativas são limitadas a curto prazo e dificilmente compensam uma disrupção de tal magnitude.

Riscos Geopolíticos e a Normalização

Além disso, mesmo que ocorra um arrefecimento do conflito, a normalização tende a ser gradual e incerta. O risco geopolítico passa a ser incorporado de maneira mais estrutural aos preços, elevando o prêmio de risco embutido no petróleo. Na essência, não estamos diante de um choque transitório, mas de uma mudança significativa na percepção da segurança da oferta global, um fator que tende a persistir e a influenciar a dinâmica dos mercados por um período prolongado.

Implicações no Estreito de Bab el-Mandeb

Outro fator importante é o risco adicional representado pelo Estreito de Bab el-Mandeb, localizado no extremo oposto da Península Arábica, que ainda não foi obstruído pelos Houthis, um grupo apoiado pelo Irã. Uma eventual disrupção nesse ponto também ampliaria de maneira considerável a pressão sobre o fluxo global de energia e comércio, acrescentando uma camada de complexidade a um cenário que já se encontra bastante tensionado.

A Reavaliação do Setor de Óleo e Gás

Esse pano de fundo explica por que o setor de óleo e gás, considerado amplamente negligenciado nos últimos anos, novamente se destaca. Durante um longo período, investidores globais reduziram sua exposição a esse segmento, impulsionados tanto pela narrativa de transição energética quanto por um ambiente prolongado de oferta abundante. Como resultado, ocorreu uma subalocação estrutural em energia nas carteiras dos investidores. O que estamos observando atualmente é uma reversão desse movimento: diante de um choque de oferta e da ascensão do petróleo como ativo estratégico, os investidores estão começando a recompor sua exposição.

Commodities e o Novo Cenário Global

Mais do que um episódio isolado, a recente sucessão de conflitos sugere um ambiente global mais fragmentado, instável e propenso a choques recorrentes. Nesse contexto, commodities como o petróleo reassumem um papel central, não apenas como proteção contra a inflação, mas também como hedge contra riscos sistêmicos, tornando cada vez mais custoso manter uma exposição nula a essa classe de ativos.

Reconfiguração das Cadeias de Suprimento

Paralelamente, observa-se uma reconfiguração mais ampla das cadeias globais de suprimento, motivada por tensões geopolíticas, preocupações com segurança nacional e a necessidade de reduzir dependências excessivas. Este movimento implica um aumento nos investimentos em infraestrutura, logística, energia e produção local. Trata-se, por natureza, de um processo inflacionário. Ao contrário do período anterior, marcado por uma globalização eficiente e custos reduzidos, estamos avançando em direção a um cenário de maior redundância, menor eficiência e, consequentemente, preços estruturalmente mais pressionados.

Commodities na Base das Cadeias Produtivas

Nesse novo arranjo, as commodities tendem a se beneficiar por estarem na base das cadeias produtivas. O petróleo, em particular, ocupa uma posição central, não só acompanhando a inflação, mas frequentemente atuando como um dos principais vetores de transmissão, irradiando aumentos de custo para diversos setores da economia.

Exposição Direta ao Mercado

Embora seja possível se expor diretamente ao preço da commodity, a assimetria mais interessante reside na exposição por meio de empresas do setor. Isso permite ao investidor não apenas capturar a eventual valorização do petróleo, mas também acessar o fluxo de caixa gerado por companhias que tendem a se beneficiar de forma significativa durante os ciclos de alta. Muitas dessas empresas operam hoje com maior disciplina de capital, menor alavancagem e foco em retorno ao acionista, o que eleva a qualidade dos resultados. Não obstante, diversas continuam a ser negociadas a múltiplos descontados, refletindo anos de desinteresse estrutural pelo segmento, o que acentua a atratividade relativa dessa tese no momento atual.

Criação de Vetores de Retorno

Esse cenário cria um duplo vetor de retorno: de um lado, a valorização da própria commodity; do outro, a reprecificação das empresas do setor, seja por melhora operacional, seja por uma revisão mais ampla de seus múltiplos de negociação.

ETF de Commodities como Alternativa

Uma maneira eficiente de capturar essa dinâmica é através do ETF de commodities do BTG Pactual (CMDB11), que reúne, em um único instrumento, exposição a importantes empresas brasileiras nos setores de petróleo, mineração e agronegócio, combinando diversificação com simplicidade operacional.

Alocação em Óleo e Gás

Com cerca de 40% de alocação em óleo e gás, o fundo tende a se beneficiar de forma mais direta no ambiente atual. Além disso, sob uma perspectiva histórica, as commodities ainda negociam a níveis relativamente descontados em comparação com outras classes de ativos, o que reforça a ideia de que podemos estar diante das etapas iniciais de um novo ciclo de valorização.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

Você pode se interessar

Utilizamos cookies para melhorar sua experiência de navegação, personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Ao continuar navegando em nosso site, você concorda com o uso de cookies conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Você pode alterar suas preferências a qualquer momento nas configurações do seu navegador. Aceitar Leia Mais

Privacy & Cookies Policy