Turbulências no Mercado de GNL
As instabilidades no mercado de gás natural liquefeito (GNL), decorrentes do conflito entre os Estados Unidos e Israel com o Irã, têm elevado a percepção de risco relacionada aos projetos de usinas termelétricas que utilizam esse combustível. Essas usinas buscam viabilização no leilão mais esperado do setor elétrico brasileiro, conforme apontam analistas consultados pela Reuters.
Impactos da Guerra no Fornecimento de GNL
O cenário de incerteza em relação ao conflito em uma região crucial para o fornecimento global de GNL levanta preocupações sobre contratos previamente estabelecidos com os fornecedores para a sustentação dos projetos. Especialistas acreditam que esses acordos podem ser afetados pela atual conjuntura do mercado, especialmente caso a guerra se prolongue ou se intensifique, resultando em danos a infraestrutura.
O Catar, que é o segundo maior exportador mundial de GNL, anunciou recentemente a suspensão da produção em uma de suas instalações e declarou força maior em seus embarques. A Shell, por sua vez, que é a principal comercializadora do insumo globalmente, também anunciou força maior nas cargas adquiridas da QatarEnergy para revenda a clientes ao redor do mundo, conforme a reportagem da Reuters.
Cenário do Consumo de GNL no Brasil
Atualmente, o Brasil não é um relevante consumidor de GNL, utilizando principalmente o insumo na geração de energia termelétrica. Entretanto, a expectativa é de que o uso do gás natural liquefeito aumente nos próximos anos. Isso se deve à contratualização que ocorrerá esta semana, onde o GNL emerge como uma fonte energética significativa para garantir uma operação mais flexível e menos poluente do sistema elétrico nacional.
Empresas de grande porte no setor energético, incluindo Petrobras, Eneva, Edge, que pertence à Cosan, e a norte-americana New Fortress Energy, importam o insumo de diversos países, predominantemente dos Estados Unidos, para seus terminais de regaseificação localizados na costa brasileira.
Expectativas dos Investidores em Relação ao Leilão
Alguns investidores já comparecem ao leilão de capacidade com contratos vinculantes de fornecimento de gás; no entanto, espera-se que outros tenham dificuldades “pós-leilão” para formalizar acordos comerciais que estavam em discussão antes do início do conflito, dada a possibilidade de um aumento na demanda por GNL em mercados prioritários, como a Ásia. Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da A&M Infra, comentou sobre isso.
“Já vimos isso ocorrer em diversas ocasiões: se houver uma discrepância acentuada nos preços em comparação ao histórico, a oferta tende a ser redirecionada para aqueles que estão dispostos a pagar mais. Isso pode impactar, certamente, as condições de acesso ao GNL por parte dos vencedores do leilão”, afirmou.
O Brasil já enfrentou problemas semelhantes durante o primeiro leilão de capacidade realizado em 2021. Nesse evento, a usina Portocém foi contratada com base em um pré-acordo de GNL com a Shell, a qual posteriormente se retirou das negociações, diante da nova realidade do mercado após o conflito entre Rússia e Ucrânia. O projeto de Portocém foi então adquirido pela New Fortress Energy, que decidiu transferir a construção da usina na localidade de Pecém, no Ceará, para Barcarena, no Pará.
“Não é possível determinar com exatidão a magnitude dos problemas que possam surgir, mas é um fato que o leilão ocorrerá em uma conjuntura muito complicada, devido às incertezas. Se a guerra não se resolver rapidamente, a negociação pode se tornar mais difícil para aqueles que saírem vencedores”, sinalizou Neto.
Aprendizados dos Fornecedores e Impactos nos Preços
Vinícius Romano, vice-presidente da área de gás da Rystad Energy na América Latina, enfatizou que os fornecedores que participarão do leilão já adquiriram conhecimentos relevantes após a crise da Rússia, que resultou na pior situação do mercado de gás até o momento.
“Os fornecedores estão mais preparados e atentos, com uma maior compreensão sobre propostas de flexibilidade. Este evento relacionado ao Irã representa mais um teste para as condições que eles já planejaram”, acrescentou.
Os preços do GNL na Europa, conforme Romano, aumentaram de aproximadamente US$ 10 por milhão de BTU para até US$ 18. Em contraste, na ausência de compromissos firmes, existe a possibilidade de que os preços sejam renegociados em resposta à alta internacional do gás. Isso poderia afetar os custos variáveis das usinas e, por conseguinte, impactar os consumidores.
Décio Oddone, ex-presidente da Petrobras Bolívia e ex-diretor-geral da ANP, avalia que o risco para os projetos de GNL no leilão é baixo. Segundo ele, “normalmente, esses contratos são bem elaborados para se protegerem em situações extremas”, mas reconhece que “em cenários críticos, pode haver interrupção na oferta”.
Tanto analistas quanto executivos salientam a dificuldade de prever as consequências do conflito para o mercado de gás, dada a baixa visibilidade quanto à duração e à profundidade da guerra. Além disso, a previsão do aumento da oferta de GNL pelos Estados Unidos nos próximos anos pode contribuir para mitigar problemas maiores na oferta provenientes do Oriente Médio.
Expectativa para o Leilão
Programado para ocorrer na próxima semana, o leilão de capacidade almeja assegurar investimentos bilionários para a segurança do abastecimento energético no Brasil, prevendo a negociação de pelo menos 20 gigawatts (GW) em contratos para novas usinas e existentes, segundo estimativas do mercado.
Além das usinas a GNL, o certame poderá envolver a contratação de projetos de gás natural conectados à malha de transporte, além de usinas movidas a carvão, óleo combustível, biodiesel e expansão de hidrelétricas.
A licitação é amplamente aguardada por diversos importantes atores do mercado de gás do Brasil, como Petrobras, Eneva e a Âmbar Energia, subsidiária da J&F.
A Eneva já divulgou suas intenções de recontratar usinas que já estão em operação e expandir a capacidade de geração em seu hub de gás localizado em Sergipe.
A Petrobras possui nove usinas disponíveis para recontratação no leilão, totalizando 2,9 GW, e poderá buscar viabilizar um novo ativo termelétrico. Ao mesmo tempo, a empresa também atuará como fornecedora de gás para outros projetos que estão sendo contemplados no leilão.
Nos últimos anos, empresas como GNA — uma joint venture formada por bp, Siemens Energy, SPIC Brasil e Prumo Logística —, New Fortress Energy e a turca Karpowership também manifestaram interesse em participar do leilão.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


