Desafios Econômicos em Tempos de Conflito
A volatilidade nos mercados financeiros e a ampliação das incertezas decorrentes do recente conflito no Irã impuseram um desafio adicional ao governo brasileiro na elaboração de previsões econômicas. Essas previsões são fundamentais para orientar políticas públicas e gerenciar o orçamento do país, especialmente à medida que se aproximam os prazos para a divulgação de projeções oficiais. Essas informações foram obtidas a partir de duas fontes bem informadas sobre as análises econômicas em curso.
Efeitos da Guerra no Mercado
A atenção do governo também está voltada para os efeitos da guerra sobre a dívida pública e a atuação do Banco Central. Este último planeja iniciar um ciclo de redução de juros na próxima quarta-feira, mas tem observado mudanças nas apostas do mercado, que estão se inclinando para um afrouxamento menos intenso da política monetária devido ao risco de pressões inflacionárias.
Previsões Oficiais e Impactos do Conflito
Nas próximas duas semanas, o governo deverá publicar suas previsões oficiais para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) e da inflação para o ano de 2026. Esses dados, que podem sofrer impactos diretos do conflito militar, são essenciais para alimentar o relatório bimestral de receitas e despesas, que será apresentado ainda neste mês, com o objetivo de orientar a gestão orçamentária.
A eclosão do conflito no Irã, que teve início há mais de duas semanas com ataques realizados por Israel e Estados Unidos, resultou em variações acentuadas na cotação do petróleo. Recentemente, o preço do barril se aproximou da marca de US$120, embora estivesse em queda nesta terça-feira, cotado perto de US$83. Na mesma linha, o dólar registered alta na semana passada, mas apresentou recuo nos dias subsequentes, encontrando-se a R$5,14 na tarde desta terça-feira.
Cenários Futuros e Riscos Inflacionários
Uma fonte do Ministério da Fazenda comentou que "esta semana será decisiva para vislumbrar cenários". Caso passe sem indícios de um fim para a guerra, e se de fato houver redução na produção de refinarias, poderá haver danos de médio prazo, especialmente relacionados à inflação e à política monetária.
Dados do Orçamento e Expectativas
O orçamento do ano em vigor pressupõe um crescimento do PIB de 2,4%, uma inflação de 3,6%, um preço médio do petróleo Brent ao redor de US$65 por barril e uma taxa de câmbio estimada em R$5,76 por dólar. De acordo com uma autoridade, não há expectativa de que os Estados Unidos insistam em um cenário de guerra prolongada que mantenha o preço do petróleo em níveis elevados. Essa autoridade previu uma possível liberação de estoques globais caso os ataques persistam.
Avaliação Contemporânea
Uma segunda fonte expressou que a administração Trump confunde a visão sobre a economia global, não apenas devido à guerra, mas também por conta da gestão do governo norte-americano. Esta fonte acrescentou que a Fazenda está concluindo análises que trarão à tona diferentes cenários, cada um com seus respectivos impactos derivados do conflito.
O economista Jeferson Bittencourt, ex-secretário do Tesouro Nacional e atual chefe de macroeconomia do ASA, avaliou que os principais impactos econômicos do conflito no Irã, em curto prazo, para o Brasil, estão relacionados à inflação. Isso, por sua vez, afetaria a taxa de juros, embora os efeitos de longo prazo ainda permaneçam incertos e condicionados à duração do conflito.
Pressões Inflacionárias
Bittencourt ainda alertou que pressões inflacionárias de curto prazo poderiam colocar em risco a expectativa de que o Banco Central iniciasse o ciclo de redução da taxa Selic com um corte de 0,50 ponto percentual na próxima semana. "As apostas em um corte de 0,25 ponto ou até mesmo na manutenção da Selic estão aumentando", afirmou.
Na B3, as opções para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) estavam, na última sexta-feira, com 50,91% de probabilidade de um corte de 50 pontos-base na Selic neste mês. Além disso, havia 33,00% de chance de uma redução de 25 pontos-base e 14,50% de possibilidade de manutenção da taxa. Em 27 de fevereiro, antes do início da guerra, os percentuais eram distintos, com 77,50% de probabilidade para o corte de 50 pontos-base e zero para a manutenção.
Dívida Pública e Implicações Fiscais
Bittencourt também expressou reservas em relação à avaliação de que os efeitos do conflito sobre o preço do petróleo poderiam ser positivos para a política fiscal do Brasil. Apesar de um aumento nas receitas de royalties e dividendos da Petrobras, uma inflação mais alta poderia, paradoxalmente, ampliar a arrecadação tributária.
Ele observou que, se a pressão inflacionária resultante do aumento no preço do petróleo levar a um ciclo de corte da Selic menos agressivo do que o originalmente previsto—por exemplo, apenas 0,50 ponto percentual—, a dívida bruta do governo, que estava em R$10,1 trilhões em janeiro, poderá aumentar em cerca de R$28,6 bilhões ao longo de um ano.
Bittencourt alertou: "Podemos estar celebrando a contribuição desse efeito para o cumprimento de uma meta que pouco diz sobre o real esforço fiscal do governo, enquanto a métrica inescapável para a solvência (dívida bruta) pode ter sua trajetória agravada."
Uma terceira fonte da equipe econômica expressou especial preocupação com os impactos da continuidade da guerra sobre a dívida pública, prevendo que tal cenário traria efeitos negativos sobre o endividamento do governo, que superariam os ganhos diretos de arrecadação.
Fonte: www.moneytimes.com.br


