A Intermitência dos Combustíveis Fósseis
Por décadas, o debate em relação às fontes de energia renováveis tem se centrado em um argumento recorrente: a intermitência. Enquanto o sol não brilha constantemente e o vento não sopra sem parar, o fechamento do Estreito de Ormuz trouxe uma nova perspectiva a essa discussão. Atualmente, cerca de 20% do fornecimento global de petróleo e gás natural liquefeito está bloqueado devido ao conflito entre EUA, Israel e Irã. Assim, os combustíveis fósseis passaram a representar um risco de intermitência, enquanto as energias renováveis aparecem como uma alternativa mais estável.
A mudança na narrativa foi o foco principal do Eurelectric Power Summit, que ocorreu recentemente em Helsinque, na Finlândia. Durante o evento, especialistas e executivos das grandes empresas nórdicas Fortum e Statkraft analisaram o impacto da guerra no Irã sobre o debate global sobre segurança energética.
O Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima strategicamente importante que conecta o Irã à Península Arábica. Por onde transita cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito globalmente, seu fechamento influencia diretamente os preços de energia em todo o mundo.
Fósseis como Fontes Intermitentes
Kingsmill Bond, estrategista de energia do think tank britânico Ember, expressou sua surpresa ao notar a falta de menção ao fato de que os combustíveis fósseis agora são considerados intermitentes e incertos. Essa mudança de discurso contrasta com a retórica utilizada por anos contra as fontes renováveis.
Bond destacou que pela primeira vez na história, os formuladores de políticas têm à disposição uma tecnologia alternativa e superior para enfrentar os choques no setor energético. Durante as crises do petróleo nas décadas de 1970, a solução encontrada foi a construção de usinas nucleares, uma tarefa que demandava uma década e custos elevados. Hoje, tecnologias como energia solar, eólica, baterias e eletrificação estão disponíveis em escala e com custos reduzidos.
Ele assegurou que, graças ao avanço das baterias, as fontes renováveis se tornaram bastante confiáveis, dado que o sol nasce todos os dias. Contudo, ele alertou para a necessidade de uma transição urgente, especialmente na Europa, onde ainda há uma grande dependência das antigas fontes de energia.
Perspectivas dos CEOs Nórdicos
O presidente executivo da Fortum, Markus Rauramo, ao discorrer sobre a intermitência dos combustíveis fósseis importados, afirmou que se trata de um "tipo diferente de intermitência". Para ele, a solução para a dependência de combustíveis com emissões de CO2 está na produção interna de eletricidade limpa.
Birgitte Ringstad Vartdal, CEO da Statkraft, que é a maior produtora de energia renovável na Europa, revelou que o progresso das baterias tem reforçado a viabilidade das energias renováveis como uma fonte fiável. Ela destacou que os custos das baterias diminuíram e que a capacidade de armazenamento tem aumentado consideravelmente nos últimos anos.
Os comentários de Vartdal revelam que a combinação de baterias com energia solar, ou ainda com a energia eólica, pode garantir uma geração total de energia muito superior em comparação a sistemas que dependem de combustíveis fósseis. Ela, porém, reconheceu a necessidade contínua do gás para cobrir períodos prolongados de baixa geração proveniente das fontes renováveis.
A Questão do Gás Natural Liquefeito (GNL)
O GNL é o gás natural que foi resfriado a temperaturas muito baixas para se tornar líquido e, assim, ser transportado em navios-tanque. Essa alternativa se mostrou estratégica após a interrupção do fornecimento russo à Europa.
Dependência Energética na Europa
O fechamento do Estreito de Ormuz acelerou uma tendência que já vinha se formando desde a invasão russa da Ucrânia em 2022: uma corrida europeia pelo GNL norte-americano. De acordo com Jan Rosenow, professor de política energética e climática da Universidade de Oxford, essa solução, embora necessária, acarreta uma nova vulnerabilidade.
Ele assinalou que com a expectativa de um aumento significativo do GNL na Europa, uma grande parte desse suprimento será proveniente dos EUA. Isso levanta preocupações sobre a exposição a um país que é frequentemente visto como politicamente instável em termos de suas relações internacionais.
Rosenow argumenta que a eletricidade gerada internamente a partir de fontes renováveis é a única opção que não envolve o risco de dependência externa. Ele conclui que o debate, que por tanto tempo se concentrou na confiabilidade das energias limpas, encontrou seu argumento mais sólido na atual conjuntura de guerra e insegurança.
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Este conteúdo foi fornecido pela CNBC Internacional e a responsabilidade exclusiva pela tradução para o português é do Times Brasil.
Fonte: timesbrasil.com.br