Conflito no Oriente Médio desestabiliza o mercado petrolífero.

Duas Forças Dominantes no Mercado Global de Petróleo

Duas forças principais moldam o mercado global de petróleo: a oferta e a demanda. A guerra com o Irã afetou significativamente ambas, com uma possível ruptura irreparável.

Caos no Fornecimento

Atualmente, o fornecimento de petróleo é um verdadeiro caos. Um excesso histórico de petróleo bruto foi transformado no pior choque de oferta já registrado, antes de uma nova onda de petróleo entrar no mercado em junho.

Recentemente, um conflito em intensificação fechou novamente o acesso ao petróleo do Golfo Pérsico, reinstaurando a desordem no mercado.

Dificuldades na Demanda

A demanda por petróleo, de alguma forma, apresenta um cenário ainda mais complicado. O mundo tem se adaptado ao choque de oferta durante cinco meses de conflito, conseguindo lidar com a situação utilizando menos petróleo em comparação ao período anterior ao início da guerra.

Centenas de milhões de barris de petróleo finalmente conseguiram escapar do Estreito de Ormuz no mês anterior, mas encontraram poucos compradores dispostos a adquiri-los. Parte do petróleo bruto do Oriente Médio precisou ser comercializado a preços significativamente reduzidos antes de conseguir encontrar interessados.

A complexidade dos fatores que levam o mundo a rejeitar o petróleo é notável. E a solução para essa questão possui muitas camadas que precisam ser desvendadas.

Grande Queda na Demanda

Nas três breves semanas em que o Estreito de Ormuz foi quase reaberto, algo inesperado ocorreu: mais de 200 milhões de barris de petróleo retidos no Golfo Pérsico foram rapidamente liberados, mas os compradores simplesmente não se mostraram interessados.

Segundo Homayoun Falakshahi, chefe de análise de petróleo bruto da Kpler, tanto a Qatar Energy quanto a Adnoc, dos Emirados Árabes Unidos, foram forçadas a oferecer descontos de US$ 6 a US$ 9 por barril em seus preços até conseguirem compradores no Sudeste Asiático.

Atualmente, mais de 18 milhões de barris de petróleo não iraniano que saíram do Estreito de Ormuz permanecem em navios-tanque fora do Golfo Pérsico, aguardando compradores — um volume que representa mais de 2,5 vezes os níveis registrados antes do início da guerra, segundo Falakshahi.

Por sua vez, o Irã enfrentou até mais dificuldade na venda de seu petróleo em comparação aos seus vizinhos. O país conseguiu extrair 70 milhões de barris de petróleo do estreito nas semanas após o memorando de entendimento com os Estados Unidos, mas mesmo com uma isenção temporária das sanções, a China foi o único país disposto a fazer compras.

Portanto, o Irã destinou todo esse petróleo à China, que antes e durante a guerra era seu maior cliente. No entanto, a China mostrou um interesse reduzido, diminuindo drasticamente suas compras de petróleo iraniano no mês anterior — de cerca de 1,5 milhão de barris por dia para 630 mil barris diários, conforme indicado pelo Kpler.

No geral, a demanda global de petróleo se mantém cerca de 4 milhões de barris por dia abaixo dos níveis registrados antes do início do conflito, de acordo com análise do JPMorgan.

A razão principal para essa queda acentuada na demanda está diretamente relacionada à falta de capacidade para acomodar o petróleo. As refinarias estão funcionando em sua capacidade máxima, especialmente após o ataque do Irã a 30 refinarias no Oriente Médio durante a guerra.

A Equação da China

A maioria das explicações relacionadas à estagnação na demanda por petróleo direciona suas atenções para a China. A redução na demanda chinesa por petróleo tem impacto significativo sobre os preços globais do produto.

Essa situação é uma das principais razões pelas quais os preços do petróleo bruto não se aproximaram dos valores de 2022 ou do recorde estabelecido em 2008, apesar de um choque petrolífero de magnitude muito maior do que as crises anteriores.

A China tem uma dependência quase total de petróleo importado. Entretanto, suas importações de petróleo bruto caíram acentuadamente durante a guerra, reduzindo a menos de 8 milhões de barris por dia, em comparação com mais de 12 milhões por dia antes do início do conflito, segundo dados da Signal Ocean Research.

Parte da redução na demanda por petróleo da China pode ser um fenômeno duradouro. A demanda por veículos elétricos no país aumentou de forma significativa durante a guerra, resultando em um aumento de um terço no número de veículos elétricos em circulação. Ao mesmo tempo, a China impôs restrições severas em suas refinarias, limitando a produção de gasolina, diesel e querosene de aviação.

No entanto, o que acontece com a demanda chinesa está muito mais relacionado a uma estratégia cuidadosa do que a uma mudança de postura da segunda maior economia do mundo em relação ao petróleo.

Antes do início do conflito, a China já havia aumentado suas reservas de petróleo e desde então tem se apoiado nessa reserva para suprir suas necessidades de petróleo bruto, ao invés de realizar novas importações.

O país está diminuindo suas reservas a uma taxa de 2 milhões de barris por dia, mas ainda conta com 1,9 bilhão de barris armazenados, o que representa cerca de 117 dias de consumo, conforme afirma Yulia Zhestkova Grigsby, estrategista sênior de commodities do Goldman Sachs.

Por essa razão, a perda “real” da demanda da China durante a guerra é, na prática, cerca de 1,2 milhão de barris por dia, em vez dos aproximadamente 5 milhões que o país deixou de importar, segundo estimativas da Signal Ocean Research.

Quando a Demanda se Recuperará?

Eventualmente, a China precisará reabastecer seus tanques. Quando isso ocorrer, poderá haver um aumento significativo na demanda por petróleo, o que também poderá elevar os preços.

Outros países do mundo também precisarão reabastecer seus estoques em algum momento, sendo os Estados Unidos um exemplo importante. A Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA está atualmente em seu nível mais baixo desde que o governo Reagan começou a abastecê-la em 1983.

Para tentar mitigar o choque de oferta, a Agência Internacional de Energia comprometeu-se a reduzir os estoques globais de emergência em um recorde de 400 milhões de barris, criando assim uma lacuna significativa na oferta que precisará ser preenchida.

Entretanto, não está claro quando essa recuperação na demanda poderá acontecer, e há divergências de opiniões sobre o assunto.

O Goldman Sachs acredita que essa recuperação pode ocorrer em breve, considerando que Pequim se comprometeu a manter reservas robustas. A Agência Internacional de Energia, por sua vez, prevê uma queda na demanda por petróleo em 2026.

A OPEP projeta um aumento na demanda. O JPMorgan acredita que essa se manterá estável, enquanto outros especialistas no setor reconhecem a dificuldade de medir e prever a demanda com precisão.

A situação em relação ao Estreito de Ormuz apresenta uma instabilidade tal que as perspectivas mudam quase diariamente, à medida que novos desdobramentos nas notícias vão surgindo, conforme enfatiza Neil Atkinson, pesquisador visitante do Centro Nacional de Análise de Energia.

Para potenciais compradores, está se tornando um desafio determinar se é o momento certo para reiniciar a compra de petróleo. O fluxo de petróleo pelo estreito caiu drasticamente novamente, ao mesmo tempo em que os preços continuam a aumentar enquanto a situação no Oriente Médio se torna ainda mais crítica.

Recentemente, o petróleo Brent ultrapassou os US$ 100, encerrando a semana com um aumento de 10% em seu valor.

A natureza intermitente do conflito pode complicar ainda mais a recuperação da demanda por petróleo.

“Para que a demanda se recupere, acredito que os compradores precisariam observar uma resolução significativa entre os EUA e o Irã que transmita confiança de que essa pode ser duradoura”, declarou Kieran Tompkins, economista sênior de commodities da Capital Economics.

Dessa forma, por ora, os países se sentem confortáveis em continuar reduzindo seus próprios estoques, enquanto eles ainda durarem.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

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