A situação da Oncoclínicas
A Oncoclínicas (ONCO3) voltou a ser destaque na mídia corporativa após a renúncia de seu presidente do conselho, Marcelo Gasparino, que decidiu deixar seu cargo. Essa renúncia, devido ao seu método de eleição por voto múltiplo, requer uma reestruturação completa do conselho da empresa.
O voto múltiplo permite que cada acionista tenha um número de votos proporcional às suas ações, multiplicado pelo total de vagas disponíveis no conselho. Desta forma, acionistas minoritários têm a oportunidade de indicar representantes. Entretanto, quando este mecanismo é utilizado, o grupo eleito é considerado um bloco coeso dentro da proporcionalidade, e, conforme a legislação, a renúncia de um membro abre a possibilidade de destituição coletiva.
Em resposta à situação, a Oncoclínicas convocou uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE), agendada para o dia 30 de abril, para deliberar sobre a eleição de novos membros do conselho.
Após o anúncio feito ao mercado na terça-feira, 6, as ações da Oncoclínicas apresentaram uma alta superior a 14%, sendo cotadas a R$ 1,64.
A análise do especialista
Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, destacou que a empresa enfrenta desafios significativos relacionados à liquidez. Ele observou que a Oncoclínicas tem postergado tratamentos devido à escassez de recursos financeiros e a incertezas operacionais. Sant’Anna mencionou que as mudanças no conselho eram uma exigência de fundos de investimento e potenciais financiadores, buscando ajustar a situação financeira da empresa a curto prazo. A movimentação das ações, segundo ele, é um “suspiro” em meio a um quadro complicado.
Além disso, Sant’Anna ressaltou a trajetória negativa da companhia nos últimos anos e afirmou que, apesar da reação positiva do mercado, a ação ainda está cotada em torno de R$ 1, valor que não reflete um optimismo geral. Ele enfatizou que qualquer variação mínima na cotação parece mais significativa do que realmente é.
A reformulação do conselho
O processo de reestruturação do conselho da Oncoclínicas envolve duas chapas concorrentes. A primeira é indicada pela Mak Capital, que detém 6,305% do capital votante da empresa e apresenta os seguintes nomes:
- Mateus Affonso Bandeira;
- Ademar Vidal Neto;
- Marcos Grodetzky;
- Raul Rosenthal Ladeira de Matos.
A outra chapa, que é a proposta pela administração atual da Oncoclínicas, inclui:
- Bruno Lemos Ferrari;
- Carlos Gil Moreira Ferreira;
- Eduardo Soares do Couto Filho;
- Marcel Cecchi Vieira;
- Marcelo Curti;
- Marcos Grodetzky;
- Raul Rosenthal Ladeira de Matos.
Os problemas na Oncoclínicas
A Oncoclínicas enfrenta um cenário complexo em virtude de problemas financeiros resultantes de uma expansão mal-sucedida. Com o objetivo de crescer no setor oncológico, a empresa começou a investir em hospitais, mas precisou reavaliar sua trajetória original, voltando-se para seu core business. Desde a sua fundação há 15 anos em Belo Horizonte (MG), a empresa se especializou em tratamentos oncológicos. Após seu IPO em 2021, expandiu seu foco de clínicas voltadas ao diagnóstico e tratamento, incluindo serviços especializados como radioterapia e quimioterapia.
Com a intenção de continuar a expansão, a estratégia da empresa passou a ser a aquisição de hospitais. Contudo, essa abordagem não se mostrou eficaz, uma vez que a Oncoclínicas encontrou dificuldades para gerenciar áreas hospitalares além da oncológica.
Como resultado dessa situação, a companhia, que adquiriu três hospitais gerais e estava em processo de construção de outros três, enfrentou uma deterioração dos resultados financeiros, altas alavancagens e um consumo excessivo de caixa.
Dentre as ações para reverter essa situação, destacam-se a venda de hospitais previamente adquiridos e o cancelamento da construção de um hospital, além do abandono de planos para uma joint venture na Arábia Saudita.
Durante esse processo, a empresa também passou por uma série de capitalizações e manteve interações com o Banco Master, que investiu na companhia. Fontes ouvidas pelo Valor Econômico relataram preocupações sobre atrasos em tratamentos, com aproximadamente 3 mil pacientes enfrentando adiamentos de procedimentos. Em casos críticos, esses pacientes foram transferidos para hospitais parceiros que já enfrentam limitações para aceitar novos pacient.
Este cenário crítico está atrelado à incapacidade de garantir a compra de medicamentos. No último balanço da companhia, correspondente ao terceiro trimestre de 2025, a dívida alcançou mais de R$ 4 bilhões. O balanço referente ao quarto trimestre de 2025, que estava previsto para ser divulgado em 30 de março, foi adiado para 9 de abril.
A empresa também informou ao mercado que estava em comunicação com seus credores e convocou assembleias gerais de debenturistas de diferentes emissões para discutir um waiver em relação a um eventual descumprimento do índice de alavancagem, que é medido pela relação entre dívida líquida e Ebitda, a ser verificada no balanço de 2025.
As propostas na mesa
Em meio a esses desafios, a Oncoclínicas tem duas propostas que podem proporcionar um alívio financeiro. Recentemente, foi anunciado que o acionista MAK Capital Fund LP busca realizar um aporte de aproximadamente R$ 500 milhões na empresa. A avaliação do JP Morgan sobre essa proposta indica a urgência de capital de curto prazo que a companhia enfrenta.
Entretanto, esta não é a única proposta em consideração. A Oncoclínicas e a Porto (PSSA3) já firmaram um term sheet que visa explorar a constituição de uma nova empresa (NewCo). O Fleury (FLRY3) também se envolveu, aderindo ao acordo não vinculante firmado anteriormente entre as duas partes.
Para o aporte da MAK Capital, há a condição de convocação de uma assembleia geral extraordinária (AGE) para deliberar sobre cinco tópicos, incluindo a discussão da situação econômico-financeira da Oncoclínicas e a destituição dos membros do conselho de administração.
A destituição já foi efetivada, representando um passo importante. O aporte da MAK Capital também depende da indicação do presidente e vice-presidente do conselho da Oncoclínicas.
No caso do termo envolvendo Fleury e Porto, a Oncoclínicas iria transferir ativos e operações referentes a clínicas oncológicas, bem como dívidas e passivos, que totalizariam até R$ 2,5 bilhões. Fleury e Porto, por sua vez, estariam dispostos a investir em conjunto R$ 500 milhões na nova empresa através de uma holding em que se tornariam os únicos acionistas, assumindo o controle da nova operação.
Adicionalmente, essa nova empresa teria a possibilidade de emitir debêntures voluntariamente conversíveis em ações ordinárias, com um total de R$ 500 milhões e vencimento em 48 meses, podendo a conversão ser solicitada a partir do 36º mês após a emissão.
Durante um evento promovido pelo Bradesco BBI no dia 6, a CEO do Fleury, Jeane Tsutsui, destacou que a empresa, que começou como um laboratório de análises clínicas, está ampliando seu escopo de atuação, especialmente considerando o aumento da expectativa de vida e a relevância do setor oncológico para o futuro. Ela enfatizou que a Oncoclínicas representa uma oportunidade, mas que o Fleury se manterá rigoroso em termos de disciplina econômico-financeira.
Os termos acordados entre Porto, Fleury e Oncoclínicas permanecem não vinculantes, o que significa que ainda não há um fechamento definitivo das negociações.
Fonte: www.moneytimes.com.br


