Juros Altos e o Varejo
Juros elevados e o setor varejista geralmente não são uma combinação favorável. Em um contexto em que o crédito está mais restrito e caro, além de um aumento do risco de inadimplência e a pressão sobre o consumo, o varejo, especialmente aquele voltado para itens não essenciais, tende a enfrentar dificuldades no atual cenário econômico do Brasil.
Expectativa de Redução da Selic
No final de 2024, havia uma previsão de que a taxa básica de juros, conhecida como Selic, cairia para menos de 10%. No entanto, em decorrência de problemas fiscais enfrentados pelo Brasil, a realidade foi diferente: a Selic permanece em 15% desde junho de 2025, o nível mais alto desde 2006. Contudo, uma possível mudança começa a ser observada.
O Banco Central indicou que na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, conhecido como Copom, pode ocorrer o tão aguardado início do processo de flexibilização monetária. A decisão sobre o futuro da taxa de juros e a magnitude de um possível corte será apresentada ao mercado em 18 de março.
Mesmo que a expectativa do Banco Central se concretize e a Selic seja reduzida, os efeitos significativos na economia não são imediatos, conforme observa Eduardo Cotrim, superintendente de gestão de fundos de ações da Galapagos Capital. De acordo com ele, o impacto dessa redução pode demorar entre três a quatro trimestres para se concretizar.
“Devemos observar ao longo do ano entre quatro a cinco cortes — possivelmente até seis, levando em conta o próximo ano também — e os principais favorecidos provavelmente serão as empresas que atuam na venda de bens duráveis, como móveis, eletrodomésticos e eletroeletrônicos. Essas são, de forma geral, as empresas que mais se beneficiam com a queda da taxa de juros, já que dependem de parcelamento”, afirmou o gestor em entrevista ao Money Times.
Essa dinâmica é explicável, pois o parcelamento implica um custo financeiro, mesmo quando o varejista não repassa juros diretamente ao consumidor. Existe sempre um custo associado ao financiamento desse crédito. Quando a condição monetária se torna mais favorável, há um estímulo adicional ao consumo discricionário.
O Cenário no Varejo
O BTG Pactual relata que desde o início da pandemia, as empresas varejistas enfrentaram um ciclo macroeconômico completo. Inicialmente experimentaram um “boom” de demanda impulsionado pela pandemia, seguido de uma normalização em meio a condições financeiras mais restritivas, aumento da inflação e, por fim, uma deterioração da capacidade de endividamento das famílias.
“As empresas lidaram com essa montanha-russa, primeiro aumentando os investimentos para atender à maior demanda — ocasionalmente com estratégias de crescimento a qualquer custo —, e depois enfrentando uma inflexão com o aumento dos custos de financiamento, sendo forçadas a ajustar suas carteiras de crédito e estruturas de despesas”, explicaram analistas liderados por Luiz Guanais.
Do ponto de vista das ações, as preocupações relacionadas ao cenário macroeconômico brasileiro começaram a pesar mais intensamente, compensando o valuation descontado de várias empresas.
Embora haja uma tendência macroeconômica clara ao examinar o setor varejista, que deve continuar a influenciar os próximos trimestres e também ser impactada pelo contexto eleitoral no Brasil, o BTG Pactual ressalta a importância de outra discussão: qual seria o múltiplo justo para varejistas em um ambiente de juros estruturalmente altos e em mudança constante, muitas vezes visando transformações estruturais em determinados segmentos.
O BTG também destaca que, no segundo semestre de 2025, as tendências de consumo já mostravam sinais de pressão, refletindo o impacto acumulado dos elevados custos de financiamento e do fraco crescimento da renda real. No início de 2026, o cenário macroeconômico permanece amplamente inalterado.
“As políticas de apoio fiscal, redução de impostos e a diminuição das taxas de juros devem aliviar gradualmente as restrições financeiras, melhorando a elasticidade do consumo no segundo semestre. Neste contexto, as condições macroeconômicas definem um conjunto de oportunidades, enquanto a execução das empresas determina os vencedores”, concluem.
Efeitos Heterogêneos no Setor
Enquanto os altos juros representam um desafio para o setor varejista, o início de um ciclo de flexibilização monetária pode gerar expectativas mais otimistas. Contudo, Cotrim observa que o setor é extremamente heterogêneo.
Diferentes subsegmentos — como vestuário, bens duráveis, produtos farmacêuticos e alimentícios — reagem de formas distintas à redução da taxa de juros.
Na perspectiva do gestor, empresas mais expostas ao consumo discricionário, como Magazine Luiza (MGLU3) e Casas Bahia (BHIA3), tendem a sofrer mais os efeitos ligados ao crédito, uma vez que possuem balanços historicamente mais alavancados. Por outro lado, empresas com maior margem financeira têm mais capacidade para expandir o crédito ao consumidor e tirar melhor proveito de um ciclo de queda na taxa de juros.
“Nos últimos anos, muitas dessas empresas implementaram iniciativas significativas para otimizar suas operações, como a redução de custos e a desalavancagem de suas estruturas de capital. Já começamos a ver os resultados disso”, comentou ao Money Times.
Um exemplo apontado pelo gestor é o Magazine Luiza, que viu um aumento considerável na alavancagem após as altas de juros na fase pós-pandemia, o que pressionou sua estrutura de capital. Desde então, a empresa vem focando na redução de seu endividamento e atualmente se encontra em uma situação mais competitiva.
Sob a perspectiva de Cotrim, empresas que já estão “com a casa arrumada” estão melhor posicionadas para se beneficiar de um eventual ciclo de queda da Selic.
Quem Ganha e Quem Perde
Cotrim destaca que, além do segmento de bens duráveis, o setor de vestuário também tende a se beneficiar da redução da taxa de juros, devido à sua forte dependência de crédito e parcelamento. A diferença está principalmente relacionada ao ticket médio dos produtos.
No setor de vestuário, muitas empresas ainda operam com serviços financeiros próprios, como é o caso da C&A (CEAB3) e da Riachuelo (RIAA3), que utiliza a plataforma Midway.
“Essas companhias desfrutam de um benefício adicional. Quando os juros caem, as despesas das famílias com crédito diminuem, o que melhora a situação orçamentária e pode reverter o aumento da inadimplência, permitindo uma maior concessão de crédito”, explica o gestor.
Por outro lado, setores considerados menos sensíveis ao ciclo de juros, como o varejo alimentar e farmacêutico, tendem a experimentar impactos menores, devido à menor elasticidade da demanda.
“Empresas bem administradas se tornam mais eficientes em tempos de crise. Elas sabem como agir. Algumas sofrem um pouco devido a uma alavancagem financeira mais elevada, mas, de forma geral, o setor adquiriu mais eficiência nos últimos anos”, afirma Cotrim.
De acordo com o BTG, os vencedores em horizontes de investimento mais longos têm sido na maioria aqueles que lidam melhor com as oscilações da demanda, mantêm uma estrutura de custos enxuta e são capazes de reagir e até mesmo antecipar tendências disruptivas.
Hora de Olhar para o Varejo?
Para Cotrim, a possibilidade de um ciclo de queda da Selic pode abrir novas oportunidades de investimento no setor, especialmente considerando os efeitos que isso pode ter na operação das empresas, particularmente pela influência positiva no consumo e no custo financeiro.
“Existem outros fatores a considerar, como a diminuição do custo financeiro e o impacto nas taxas de desconto dessas empresas. Quando realizamos valuation e calculamos o fluxo de caixa descontado, e temos convicção da queda da taxa de juros, passamos a aplicar taxas de desconto menores, o que resulta em um valor justo mais elevado para essas companhias”, diz o gestor.
Cotrim ressalta que é importante ficar atento a indicadores como os níveis de inadimplência, o custo do crédito para as famílias e como a redução da Selic impacta o orçamento doméstico.
Outro aspecto relevante é a proposta de isenção do Imposto de Renda para aqueles que recebem até R$ 5.000. O gestor indica que será fundamental monitorar como esse recurso adicional será utilizado — e o varejo, especialmente o de itens discricionários, é um dos possíveis destinos.
O BTG conclui que, enquanto o cenário macroeconômico determina o conjunto de oportunidades, é a execução das empresas que decide quem será bem-sucedido no setor.
Frente a isso, o banco defende uma abordagem de seleção criteriosa de ações, em vez de uma exposição ampla ao setor varejista.
Entre suas preferências, estão varejistas farmacêuticos e também Smart Fit (SMFT3) e Vivara (VIVA3), as quais são consideradas participações importantes devido à sua menor sensibilidade ao ciclo econômico e às condições operacionais mais favoráveis.
Apesar de manter cautela em relação ao curto prazo, o BTG se mostra otimista em relação ao crescimento estrutural do comércio eletrônico no Brasil e vê o Mercado Livre (MELI34) como um potencial vencedor a longo prazo.
“Otimismos também cercam a C&A (CEAB3), que acreditamos já ter considerado grande parte da desaceleração do consumo e atualmente é negociada a níveis de valuation atrativos. Em contrapartida, seguimos cautelosos em relação aos segmentos que dependem excessivamente de crédito, dada sua limitação na capacidade de aumentar preços”, conclui o banco.
Fonte: www.moneytimes.com.br


