Crise do metanol revela vulnerabilidades na regulamentação e ameaça setor bilionário.

Incertezas no Setor de Bebidas

O fim de semana trouxe incertezas para consumidores e comerciantes devido a uma epidemia de casos de intoxicação por metanol. Até o momento, foram registradas 113 notificações relacionadas a esses casos, com 11 confirmações e pelo menos uma morte. Essa situação gera apreensão tanto entre os consumidores, que ficam inseguros sobre a procedência das bebidas, quanto entre bares e distribuidores, que tentam calcular os prejuízos decorrentes da crise.

Ainda não existem dados consolidados sobre os efeitos mais amplos dessa situação, mas o setor de bebidas já enfrenta uma queda de 12% nas vendas. Segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o mercado ilícito de bebidas e alimentos movimentou R$ 662 milhões apenas na capital paulista em 2024, resultando em um impacto de R$ 147 milhões em impostos estaduais que não foram arrecadados. Além disso, a Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) estima que, no ano passado, a indústria perdeu cerca de R$ 86 bilhões devido a problemas como falsificação, contrabando e sonegação.

Debate sobre Responsabilidades

No Jornal Times Brasil, em uma entrevista exclusiva da CNBC, Luiz Orsatti, diretor-executivo do Procon-SP, e Gabriel Pinheiro, diretor da seccional paulista da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), abordaram os pontos críticos da crise.

De acordo com Luiz Orsatti, a responsabilidade pela situação é compartilhada. Ele destacou que a venda de bebidas é um momento crucial, pois é nesse momento que o consumidor tem contato com o produto. O comerciante que não verifica a procedência das bebidas é responsável, mas o Procon atua apenas quando o produto já está em exposição. Por isso, a crise mobilizou um gabinete que envolve também a Polícia Civil, a Anvisa e o Ministério Público.

Gabriel Pinheiro complementar disse que o setor de bares e restaurantes também se considera vítima da situação. Ele destacou que muitos desses estabelecimentos são familiares, e o proprietário frequentemente consome de seu próprio estoque. A reputação do setor está sendo prejudicada, mas ele ressaltou que não se pode generalizar. Há corresponsabilidade e, por esse motivo, a Abrasel está oferecendo capacitação a mais de 15 mil empresários para que consigam identificar bebidas falsificadas.

Fiscalização e Reação do Setor

O Procon-SP conta com mais de 500 servidores e firmou convênios com 370 municípios, garantindo uma cobertura ampla, com alcance em 95% da população do estado. Orsatti afirmou que a estrutura do órgão não é insuficiente, mas que há dificuldades na rastreabilidade dos produtos. Ele defende a adoção de medidas mais ágeis para a segregação de estoques suspeitos e o descarte adequado de garrafas para evitar que elas sejam reutilizadas por redes clandestinas.

A Abrasel, por sua vez, argumenta que a crise não afeta apenas o consumo imediato, mas também prejudica a confiança nas relações comerciais com fornecedores menores. Pinheiro afirmou que os consumidores não costumam frequentar bares para investigar, mas sim para relaxar. O papel da Abrasel é fortalecer os controles e auxiliar na denúncia de irregularidades, mas eles solicitam agilidade do poder público, uma vez que essa situação não é comum no setor.

Impacto nos Negócios

Além dos riscos sanitários, a crise atual acende um alerta econômico: um mercado que já se mostrava fragilizado pela informalidade agora enfrenta perdas em sua reputação e uma queda nas vendas. A questão que se coloca é como reconstruir a confiança — tanto do lado do consumidor, que precisa sentir-se seguro, quanto dos empresários, cujas margens de lucro estão ameaçadas devido à atuação de criminosos infiltrados na cadeia de fornecimento.

Casos no Brasil

O Ministério da Saúde contabiliza, até agora, 113 notificações de intoxicação por metanol em todo o Brasil. Destes, 11 foram confirmadas e outras 102 estão em investigação. A maioria das notificações ocorre em São Paulo, com 101 casos, mas também foram registrados incidentes em estados como Pernambuco, Bahia, Distrito Federal, Paraná e Mato Grosso do Sul. Já foram confirmadas 12 mortes, sendo uma delas corroborada e as demais ainda em apuração.

Prisão na Capital

Neste contexto, uma comerciante de 47 anos foi presa em flagrante na zona leste de São Paulo por armazenar bebidas alcoólicas sem nota fiscal. Durante a abordagem, a mulher apresentou uma nota que foi considerada falsa. A polícia confiscou mais de duas mil garrafas de gin, além de notas fiscais irregulares e um caminhão. Todo esse material será analisado pelo Instituto de Criminalística para verificar potenciais adulterações.

Linhas de Investigação

A Polícia Civil está investigando se a contaminação por metanol ocorreu durante a limpeza de garrafas. São pelo menos cinco mortes que estão sob suspeita em São Paulo. Ações em bares, adegas e distribuidoras já resultaram na apreensão de 2,5 mil garrafas e no fechamento de nove estabelecimentos. Na última sexta-feira (3), um homem foi preso no Jardim Carumbé, acusado de fornecer insumos para falsificação, como garrafas, tampas, rótulos e selos falsificados de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).

Rio de Janeiro: Sem Casos, Mas Com Sala de Situação

Seguindo a decisão do governo federal, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) estabeleceu uma Sala de Situação para monitorar possíveis casos de intoxicação por bebidas adulteradas com metanol. Protocolos de atendimento e notificação nas unidades de saúde foram definidos, embora até o momento não existam registros confirmados no estado. O Instituto Estadual São Sebastião, localizado na Gamboa, será o responsável pelos tratamentos, enquanto o Lacen-RJ ficará encarregado das análises, em cooperação com a Unicamp e a Fiocruz.

A orientação dada é que indivíduos que apresentem sintomas como visão turva, desconforto gástrico ou gastrite após consumirem álcool procurem imediatamente assistência médica.

Sorocaba em Emergência

A prefeitura de Sorocaba decretou situação de emergência. Este decreto autoriza a Vigilância Sanitária e a Guarda Civil Municipal a realizar intervenções em estabelecimentos suspeitos e apreender bebidas adulteradas. As multas aplicáveis podem chegar a R$ 1 milhão. Além disso, a medida inclui a aquisição de 200 frascos de antídoto para uso nas unidades de pronto atendimento da cidade.

Caso Hungria

O rapper Hungria permanece internado em Brasília sob suspeita de intoxicação por metanol. Seu quadro de saúde é considerado estável, e os médicos descartaram o risco de cegueira. Ele já passou por um procedimento de hemodiálise e pode receber alta até a próxima segunda-feira (6). As investigações estão apurando se a contaminação ocorreu em São Paulo, onde o artista se apresentou no último fim de semana, ou em Brasília, onde também fez uso de bebidas. A Vigilância Sanitária do Distrito Federal interditou a distribuidora associada ao lote referido e bloqueou os estoques de um supermercado que contêm produtos da mesma origem.

Fonte: timesbrasil.com.br

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