Trump defende a falta de acordo sobre o Irã
Na última sexta-feira, o presidente Donald Trump justificou a ausência de um acordo que ponha fim à guerra com o Irã, atacando novamente o pacto nuclear anterior, mediado por Barack Obama, seu antecessor e rival político de longa data.
Entrevista e Críticas ao Acordo
Em uma entrevista concedida à NBC News, Trump afirmou que o Irã "lidou com líderes muito fracos e ineficazes por parte dos Estados Unidos", que permitiram que o país "fizesse o que quisesse". Quando questionado sobre por que o Irã ainda resiste a negociações, apesar de estar em busca de um acordo, segundo ele, Trump respondeu: "Isso leva um tempo… Isso deveria ter sido resolvido há muito tempo."
O presidente, então, trouxe à tona o acordo nuclear da era Obama, conhecido como Plano de Ação Conjunta Abrangente (JCPOA), do qual os Estados Unidos se retiraram em 2018, sem renegociar os termos. "Aquele acordo era equivalente a dar-lhes uma arma nuclear. Foi um acordo horrível assinado por Barack Obama e realmente escrito por ele", disse Trump à NBC. Essa não foi a primeira vez que Trump criticou o JCPOA, que foi firmado em 2015 por uma coalizão internacional que incluía os Estados Unidos.
Expectativas para um Novo Acordo
Em uma postagem nas redes sociais, Trump afirmou em 20 de abril: "O ACORDO que estamos fazendo com o Irã será MUITO MELHOR", acrescentando, alguns minutos depois, que tal acordo deverá ocorrer "relativamente rápido".
O tom repetitivo de Trump em relação à guerra com o Irã se torna cada vez mais evidente, uma vez que o conflito, que ele inicialmente disse que duraria de quatro a seis semanas, já se estende por quatro meses sem um acordo de paz a curto prazo, muito menos um que resolva a ameaça nuclear.
Trump com frequência afirma que, se não tivesse retirado os EUA do JCPOA, o Irã já teria obtido e utilizado armas nucleares. No entanto, muitos especialistas em segurança nacional argumentam que o acordo, embora não perfeito, alcançou seus principais objetivos ao interromper o avanço de proliferação do Irã e permitir uma monitoração eficaz das atividades nucleares de Teerã. Desde a retirada dos EUA, o Irã violou as limitações nucleares do JCPOA, intensificando o enriquecimento de urânio e reduzindo algumas das medidas de transparência que o acordo havia estabelecido.
Criticas à Falta de Renegociação
Quando questionado na entrevista da NBC sobre por que não renegociou um acordo nuclear melhor durante seu primeiro mandato, Trump disse: "Leva anos para fazer essas coisas."
O presidente também alegou que o JCPOA já teria "expirado há muito tempo". No entanto, muitos de seus principais itens eram permanentes, enquanto outros estavam programados para durar 15, 20 anos ou mais. Ernest Moniz, que foi secretário de energia dos EUA quando o acordo de 2015 foi assinado, afirma: "Acho muito difícil dizer que estamos em uma situação melhor atualmente."
O Caminho até o JCPOA
Desde a década de 1970, os Estados Unidos expressam preocupações sobre a possibilidade de o Irã estar buscando desenvolver um programa de armas nucleares. Um relatório de inteligência norte-americano de 1995 indicou que a República Islâmica estava "persiguiendo agressivamente" essa capacidade e, com ajuda estrangeira, poderia produzir uma arma nuclear até o fim da década.
Como resposta à pressão internacional, o Irã interrompeu seu programa de armas nucleares em 2003, segundo avaliações dos EUA. Entretanto, as preocupações continuaram a aumentar, especialmente após a revelação em 2009 da instalação de enriquecimento de urânio de Fordow, que foi mantida em segredo da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Sanções e Acordo Multinacional
Os EUA impuseram várias sanções ao Irã ao longo das décadas, buscando influenciar Teerã e restringir seu comportamento considerado hostil. Embora essas sanções tenham causado danos à economia do Irã e atrasado o desenvolvimento nuclear do regime, elas não eliminaram a ameaça percebida pela comunidade internacional.
A percepção de ameaça também foi alimentada pela rápida fabricação de centrífugas pelo Irã na década de 2000. Em 2015, Obama comentou: "Quando a administração Bush assumiu, o Irã não tinha centrífugas. Mas, quando assumi, o Irã já havia instalado vários milheiros de centrífugas, e não mostrava inclinação para desacelerar — quanto menos interromper — seu programa."
Em 2013, os EUA, França, Reino Unido, China, Rússia e Alemanha, conhecidos como P5+1, iniciaram negociações com o Irã, levando ao "Plano de Ação Conjunto", um acordo intermediário que entrou em vigor em janeiro de 2014. O JCPOA foi finalizado em julho de 2015.
O Conteúdo do JCPOA
O acordo, que tinha quase 160 páginas, continha diversas disposições que estabeleciam limites ao programa nuclear do Irã e impunham novos requisitos de verificação e inspeção em troca da suspensão condicional de sanções relacionadas ao nuclear.
Algumas partes do acordo, incluindo regras de transparência, foram implementadas de maneira perpétua, enquanto outras disposições estavam programadas para eventualmente expirar — algumas após apenas 10 anos.
Pelo acordo, o Irã estava limitado a cerca de 300 quilogramas de urânio enriquecido a apenas 3,67% durante 15 anos. Esse nível de enriquecimento é normalmente utilizado em reatores nucleares comerciais.
Monitoração e Medidas de Segurança
De acordo com a avaliação mais recente da AIEA em fevereiro, o Irã, até junho de 2025, possuía um estoque total de urânio enriquecido de quase 9.900 quilogramas. Dentre esse total, mais de 440 quilogramas estavam enriquecidos a 60%. Enquanto o urânio é considerado "grau de armamento" em 90% de enriquecimento, ele é utilizável como explosivo nuclear a partir do marco de 60%.
O acordo incluía também medidas para reduzir as centrífugas instaladas pelo Irã, impedir a produção de plutônio de grau armamentista e interromper o desenvolvimento de infraestrutura nuclear.
"Os recursos de verificação e transparência extraordinários foram a característica mais importante do JCPOA", afirmou Moniz. "Ao contrário de qualquer outro país no mundo, os inspetores da AIEA precisariam ser concedidos acesso a um local suspeito em 24 dias."
Kelsey Davenport, diretora de políticas de não proliferação da Arms Control Association, ressaltou que o regime de monitoração do JCPOA foi "único e crítico" para seu sucesso. Em um comunicado à CNBC, Davenport afirmou: "O JCPOA incluiu o regime de monitoração e inspeção mais intrusivo já negociado. O acordo não era perfeito, mas era um pacto eficaz e verificável. Ele cumpriu sua função."
Opiniões Críticas sobre o JCPOA
Entretanto, críticos do acordo denunciavam o JCPOA, acusando Obama de recompensar a beligerância do Irã e de focar excessivamente nas disposições temporárias, sem atenção a outras formas de agressão iraniana, como o programa de mísseis e o apoio ao terrorismo.
O então senador Marco Rubio escreveu em um artigo de 2015 que o acordo "eliminaria qualquer pressão restante para cumprir os requisitos do acordo, enquanto usaria esse dinheiro para alimentar sua expansão agressiva em todo o Oriente Médio".
Trump, em seu discurso de 2018 sobre a retirada do JCPOA, alegou: "Se eu permitir que este acordo permaneça, em breve haverá uma corrida armamentista nuclear no Oriente Médio. Todos quererão que suas armas estejam prontas antes que o Irã tenha as suas."
Segundo algumas estimativas, o "tempo de ruptura" do Irã — o tempo necessário para enriquecer material suficiente para uma bomba — diminuiu significativamente nos anos seguintes à retirada dos EUA do JCPOA.
Apesar de o JCPOA ter permanecido em vigor após a retirada dos Estados Unidos, para Moniz, "sua história já acabou". "Não está sendo seguido, não está sendo cumprido pelo Irã, então, para mim, um novo acordo precisa ser alcançado."
Novas Negociações e Desafios
Até o momento, esse novo acordo ainda não emergiu, apesar de relatos periódicos de que as partes estão próximas de um entendimento, e as frequentes declarações de Trump indicando que um acordo está por vir.
Enquanto isso, alguns relatos indicam que a determinação de Trump em firmar um acordo mais robusto do que o de Obama gerou impasses nas negociações, incluindo a questão sobre se o Irã receberá algum tipo de compensação financeira.
Segundo Davenport, "existe uma utilidade limitada em comparar qualquer acordo nuclear alcançado hoje com o JCPOA". Um novo acordo "precisa lidar com uma maior incerteza sobre os materiais e tecnologias nucleares do Irã devido a uma lacuna nas inspeções e incertezas criadas pelos bombardeios dos EUA e de Israel".
Moniz destacou que os iranianos "sempre disseram que estão comprometidos em não ter armas nucleares… mas, claro, nossa atitude foi ‘não confie e verifique’." Ele concluiu: "Isso foi realmente o que o JCPOA se propôs a fazer. O presidente Trump escolheu um conjunto diferente de prioridades estratégicas, e até agora esses planos não estão dando certo."
Fonte: www.cnbc.com